terça-feira, 20 de maio de 2014

Um frágil peixinho


Um frágil peixinho

Estávamos na manhã do terceiro domingo de Agosto.
A alvorada despertara luminosa, e soalheira, antevia-se um dia quente.
Em mim harmonizava-se a alegre expectação de rever o surpreendente borbulhar da adolescência na minha classe de Escola Dominical.
Tinha-me preparado para uma manhã de partilhas, e sentia-me por demais estimulada com o tema que iríamos abordar nos próximos domingos: “Intimidade vitalícia com Deus”. Sabia que era do interesse de todos. Mas naquele momento não imaginava a surpresa, ou melhor, o susto que me estava reservado.
Henrique, que dera ouvidos ao repto lançado pela dirigente da Escola Dominical, na semana anterior, desfilava pomposamente pela coxia, lado a lado, com o seu “peixinho”, de nome Pedro. Soubemos o seu nome posteriormente, aquando das boas vindas.
Os nossos olhares cruzaram-se lançando-me, de imediato, um sorriso de orelha a orelha. Correspondi-lhe de igual modo. Já a visita transparecia uma timidez enternecedora ao examinar com singularidade o espaço em torno de si.
Henrique incitou-o a que participasse mas, sem conseguir acompanhar os coros e gestos para ele desconhecido, colaborou apenas no bater das palmas e na leitura bíblica.
A dirigente anunciou o momento das várias faixas etárias se encaminharem para as suas classes, e lá fomos nós, professores e alunos, para as salas correspondentes.
O ensino que compartilho semanalmente com eles advém de seis dias de oração, meditação e estudo. Após a explanação da lição surge habitualmente o delicado desabrochar das dúvidas e questões expostas nos seus olhares inquietos, e nas mentes dispostas a crescer.
Recolho-as, uma a uma, analiso-as cuidadosamente à luz das Sagradas Escrituras e, fazendo uso de uma linguagem mais simples e acessível, ajudo-os a desmontar os enigmas estabelecidos.
Muito embora fique no final de cada classe  com a sensação de ter aprendido muito mais do que ensinado. As suas experiências pessoais e os exemplos que confidenciam na aula ampliam-me a visão. Transmitem-me uma nova realidade, uma nova consciência, alargam os meus horizontes, fazem-me crescer psicológica e espiritualmente.
Senti porém que, naquela manhã, devia aligeirar o tema, dado que tínhamos uma visita. Não seria difícil fazê-lo visto que era a primeira abordagem.
Auxiliada por Henrique comecei por me apresentar, dei-lhe as boas vindas em nome de todos e estimulei os meus alunos a apresentarem-se.
Quebrado o gelo inicial perguntei-lhe se frequentava alguma igreja ao que ele me respondeu que sim, que ia de vez em quando à missa com os pais e também à catequese.
Expliquei-lhe então que a nossa classe dominical funcionava mais ou menos como a catequese. Ali estudávamos a Palavra de Deus, aplicávamos o seu ensino de forma directa às nossas vidas e analisávamos os acontecimentos socioculturais e mundiais à luz das Sagradas Escrituras.
Ele ouvia atentamente o que eu dizia, os restantes prendiam as suas atenções nele.
Vi nele um rapaz simples de olhar límpido e sincero, onde se não vislumbrava nenhum tipo da rebeldia, por vezes comum nestas idades. Perguntei-lhe ainda se, e até aquele momento, estava a gostar de estar entre nós, acenou-me que sim.
Saudei os restantes alunos, como habitualmente, informei-me de como lhes correu a semana, e de seguida apresentei-lhes o tema da nossa lição. Ficaram expectantes como eu previra.
Aconselhei-os a registarem, no seus cadernos dominicais, os tópicos, os versículos, uma ou outra reflexão mais importante da lição, e as dúvidas para serem analisadas no final.
Henrique prontificou-se a partilhar o seu caderno com o amigo, cedendo-lhe uma folha e uma esferográfica para o efeito. Depois de tudo a postos, iniciei.
Volvidos uns quinze minutos, mais ou menos, Ana alertou-me para o mau aspeto da nossa visita. Extremamente pálido, suado, não conseguia escrever, a mão tremia-lhe. Os outros adolescentes começaram a ficar agitados. Henrique mantinha ao lado dele e perguntava-lhe se sentia bem, mas era visível que não.
Senti um calafrio a percorrer-me a espinha. Nunca havia passado por uma situação semelhante na classe. A sala onde nos encontrávamos situa-se na cave, onde a temperatura é sempre baixa, aqueles suores denunciavam alguma gravidade e os alunos aperceberam-se rapidamente disso.
Dirigi-me silenciosamente a Deus, pedi-Lhe auxílio. Tinha que manter calma para poder acalmar os restantes.
- Afastem-se um pouco por favor, deixem o Pedro respirar – ordenei com uma serenidade que não me pertencia.
- Diz-me, Pedro, o que sentes? - perguntei-lhe com meiguice.
- Sou diabético – proferiu com a voz entaramelada.
- O que é isso? – perguntou Samuel da  extremidade da sala.
- Estás com uma quebra de açúcar, certo? – questionei novamente sem dar ouvidos a Samuel. A situação de Pedro era prioritária.
Ele acenou assertivamente com a cabeça.
Com delicadeza afastei a secretária e ajudei-o a sentar-se no chão, sobre a carpete.
Era preciso tomar medidas urgentes para evitar que a situação piorasse, de contrário ele podia começar com vómitos, convulsões e na pior das hipóteses podia até entrar em coma.
Conheço aquela doença de perto, a sua gravidade não admite facilitismos.
A diabetes permite, ao doente, um estilo de vida praticamente normal desde que este siga uma dieta rigorosa e todos os preceitos médicos.
Desconfiei que tivesse havido alguma negligência por parte de Pedro, ou por parte dos seus pais. Pressenti que talvez tivesse saído de casa sem tomar o pequeno-almoço.
Dirigi-me então à minha carteira onde transporto sempre uma pequena garrafa de água. Agradeci a Deus pelo facto de me ter deslocado ao café antes de ir para a ED, um hábito que não mantenho, e por ter comigo os dois pacotes de açúcar que a empregada levara por excesso.
Os olhares dos alunos perscrutavam os meus movimentos. Verti parte da água da garrafa num pequeno recipiente que encontrei esquecido no móvel da sala. Na restante adicionei os dois pacotes de açúcar, agitei e abeirei-me do rapaz.
- Bebe isto, Pedro. Daqui a pouco estarás muito melhor – a sua expressão apática fez-me recear que não conseguisse fazê-lo mas os meus receios não se confirmaram, graças a Deus.
Depois de me certificar que ele tinha bebido o líquido açucarado pedi aos outros que se mantivessem calmos. Assegurei-lhes que o Pedro iria ficar bem, e que em breve retomaríamos a nossa lição.
Era essa a prece que dirigia insistentemente a Deus.
Passados alguns minutos verifiquei que o suor estancara, a palidez começava a esbater-se e as mãos deixaram de tremer. Era um óptimo sinal.
Pedi aos alunos para pegarem nos seus cadernos e esferográficas e se sentassem sobre a carpete, em círculo. A lição iria prosseguir, com uma nova disposição e temática.
Aproveitando as melhoras de Pedro transmiti-lhes alguns dos conhecimentos que possuo da diabetes: falei-lhe dos sinais de alerta daquela doença, dos seus primeiros sintomas, de como deveriam proceder numa situação semelhante à que acabávamos de viver e, fazendo uso da Palavra de Deus mencionei o cuidado que cada um deve ter com o seu próprio corpo, porque o mesmo é o templo do Espírito Santo. Depois de explanada a lição e esclarecidas as dúvidas, relativas à lição e diabetes, recebi a confirmação de que as minhas suspeitas não tinham sido em vão. Pedro confessou-nos ter-se deitado tarde na noite anterior o que o levou a esquecer-se de programar o despertador para a manhã seguinte. A mãe fora acordá-lo mas… já era demasiado tarde. Para evitar atrasos de maior saiu de casa sem tomar o pequeno-almoço.
Fora uma imprudência tremenda. Estar demasiadas horas sem comer é algo completamente impensável para qualquer um de nós, para um diabético pode ser fatal. Não lhe dei nenhum sermão, seria desumano fazê-lo depois da aflição e do susto pelo qual todos passamos.
Quis saber há quanto tempo sofria de diabetes e se era dependente de insulina.
Respondeu-me que era uma situação recente, pouco mais de um ano, e que dependia de insulina diariamente.
Articulava as palavras com facilidade e a cor das faces voltara ao normal, o que nos fez respirar de alívio.
O seu olhar pedia-nos constantemente desculpas pelo reboliço causado na classe. De todos os alunos, Henrique foi o primeiro a quebrar o silêncio.
- Esquece isso, pá. Já passou! – foi a resposta ao pedido do amigo.
O ambiente ficou ao rubro quando os dois amigos se envolveram num abraço sentido, ao qual todos os outros se juntaram. Emocionei-me diante daquela notável manifestação de afecto e cingi-os a todos.
Aquele incidente poderia ter fragilizado ou até mesmo destruído a amizade dos dois amigos.
Pedro poderia ter-se sentido constrangido, diminuído e envergonhado diante dos outros adolescentes, o que não aconteceu.
A minha classe acarinhou sabiamente o frágil peixinho.
A muralha do preconceito não se ergueu, senti-me grata por isso.
Hasteamos a bandeira do amor, conquistamos o coração e a amizade de Pedro, ganhamos um novo elemento na classe.
A afectividade, e a cumplicidade, que se gerou naquele grupo de adolescentes, com tanta evidência, e de forma tão espontânea, criou um laço indescritível.
Um laço que se mantém coeso até hoje.
Florbela Ribeiro


 Trabalho apresentado no CFPED -MEIBAD