terça-feira, 27 de novembro de 2012

AS AVES





AS AVES

 Afluem às margens, jogam     
como se a água lhes pertencesse,     
pousam no meio dos arbustos     
como se tivessem todo o tempo!

No entanto, sabem que as nuvens     
vão encher o céu; e que o norte     
irá enviar o vento frio que as     
há-de arrastar para sul, deixando     
atrás de si o silêncio     
nos campos. Mas pouco lhes importa     
isso, quando se juntam, e     
cantam a efemeridade do     
instante.


Nuno Júdice

O poeta não quer duplicar o mundo




O poeta não quer duplicar o mundo



O poeta não quer duplicar o mundo

não quer fazer dele uma cópia:

Luta com a palavra

como Jacob lutou com o anjo

mas a escada que ele sobe

conduz a outras alturas

a outras planuras

É assim que o poeta

palavra por palavra

como pedra sobre pedra

constrói o edifício do poema

E a sua mão

robótico instrumento comandado

pela algébrica lógica do sentido oculto

produz

deve produzir

o que o mundo não tem

o que o mundo não diz

o que o mundo não é

Ana Hatherly
in A Idade da Escrita (Ed. Tema 1998)