domingo, 29 de julho de 2012

A Vida Real de um Pensamento




A Vida Real de um Pensamento

A vida real de um pensamento dura apenas até ele chegar ao limite das palavras: nesse ponto, ele lapidifica-se, morre, portanto, mas continua indestrutível, tal como os animais e as plantas fósseis dos tempos pré-históricos. Essa realidade momentânea da sua vida também pode ser comparada ao cristal, no instante da cristalização.
Pois, assim que o nosso pensamento encontra as palavras, ele já não é interno, nem está realmente no âmago da sua essência. Quando começa a existir para os outros, ele deixa de viver em nós, como o filho que se desliga da mãe ao iniciar a própria existência. Mas diz também o poeta:

Não me confundais com contradições!
Tão logo se fala, já se começa a errar.

Arthur Schopenhauer

sábado, 7 de julho de 2012

SENTIR


SENTIR

Escrevo a razão do sentimento

no silêncio

e com o coração

se acaso perguntares: terá o sentimento razão

em se exprimir?

responder-te-ei: às vezes sim, às vezes não

porém as silabas que decalco

na lisura do papel não contemplam

a robustez prolongada

do meu sentir.


Florbela Ribeiro

sexta-feira, 6 de julho de 2012

A vida é um quarto...




A vida é um quarto...

A vida é um quarto de aluguer,
a única propriedade: os livros na estante;
fogem-me os pensamentos que eu quereria ver de volta
e quando regressam exibem rugas dolorosas.
Um sonho no qual só se desperta de outro sonho.


Jarkko Laine
Romancista finlandês, poeta e tradutor.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Livro de poemas



Livro de poemas



Um livro de poemas aberto na areia
branco diante do mar azul.
O vento virava-lhe as páginas,
amarrotava-as uma após outra.
As palavras ardentes desse livro gravaram no seu interior
um coração belo e triste.
E essas palavras impressas transformaram-se em pássaros, começaram a voar.
Uma, depois outra;
cem, mil palavras,
alto, mais alto, cintilando, elevando-se até ao céu,
poemas brancos de pássaros, pássaros de poemas.
Trémulas pétalas de flores caíam do céu.
E esses pássaros que recitavam poemas no céu
esqueceram-se, incapazes de dizer os versos que sabiam
transformaram-se em flores a cair sobre o mar.
Então tornaram-se estrelas no céu distante.
Esses pássaros que recitavam poemas no céu
os mais belos e tristes
poemas do mundo
- recitavam os poemas do livro de modo tão fulgurante
que agora brilham, estrelas no mundo das estrelas.

Pak Tujin (1916 - 1998)


Citações





"O vocabulário do amor é restrito e repetitivo, porque a sua melhor expressão é o silêncio. Mas é deste silêncio que nasce todo o vocabulário do mundo."

Vergílio Ferreira

A poesia serve para tudo




A poesia serve para tudo

A poesia serve para tudo: substitui a anestesia
no dentista e não tem efeitos secundários.
Em doses muito concentradas (p. ex. Keats + Vallejo) pode provocar calafrios 
[na espinal medula,
estremecimentos, palidez
e uma sensação de caminhar no vazio.
Nesses casos recomenda-se que se deixe uma flor seca entre as folhas
assinalando o culpado até que outra alma piedosa
daqui a cem anos
arrisque a pele na aventura.

 David Turkéltaub

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Para viajar...




«Para viajar deveria bastar-nos o nosso corpo; mas as noites reclamam um agasalho; a chuva uma capa; o banho, um traje limpo; o pensamento, tinta e uma pena.
E as prendas que não se podem recusar...
As dádivas estorvam os viajantes.»

Matsuo Bashô

terça-feira, 3 de julho de 2012

QUERO




Quero exalar o esplendor do olhar
sobre ti
guiar os teus passos
a cada marco da estrada
e remover dos teus ombros
a canseira
com a ágil nobreza dos meus dedos
quero transportar a segurança
ao teu destino
retirar os percalços da memória
derrubar muralhas
arrancar-te das neblinas
solitárias
e beijar com doçura a tua história

Florbela Ribeiro


domingo, 1 de julho de 2012

A CASA




A CASA 

Nesta casa, vejo homens e mulheres que olham
semana após semana, para cima
nunca foram
homens nem mulheres silenciosos, olham
e cantam com os olhos e deles
a alegria se derrama

Acendem lâmpadas por vezes
línguas de lume, como as virgens
outras, o azeite é um milagre apagado
mas olham para cima, o seu olhar
é sempre virgem e espera Aquele que virá
das alturas no seu perfume anunciado

Nesta casa
há o cheiro trémulo do incenso
e a noite que possa estar na alma
a alma esquece
e quebra o ímpeto da sua negridão
pela luz de cada face

E às vezes- não se vê- a pomba passa
e apaga batendo com as asas a imensa
tristeza do silêncio
e traz sempre um ramo de línguas no seu bico
e como acorda na fonte a madrugada, toda a casa
mergulha nas águas eternas da Palavra.

© João Tomaz Parreira 

Lido pelo poeta no dia do 25º Aniversário da Inauguração do Templo da Assembleia de Deus de Aveiro

Biografias


Biografias

Há histórias de vida
que merecem ser partilhadas
pela pena do lamento
tingido de lágrimas
são histórias de vida
sem vida
respirações sufocadas
suplicas de um grito
ou de um basta
laceradas
por perdas
ausências
demoras
são biografias severas
espinhosas
onde o sonho
é a miragem da memória
são histórias de vozes
deformadas
reprimidas desde a raiz
na qual os rios
de flagrantes prantos
desaguam
em amargos silêncios
são essas histórias
perpetradas
que merecem ser partilhadas
por quem despido de afagos
lhes sobrevive.

Florbela Ribeiro