sábado, 30 de junho de 2012

Compreendi...



“Compreendi que viver é ser livre…
Que ter amigos é necessário…
Que lutar é manter-se vivo…
Apreendi que o tempo cura…
Que a magoa passa…
Que a decepção não mata…
Que hoje é reflexo de ontem…
Que os verdadeiros amigos permanecem…
Que os falsos, graças a Deus, vão embora…
Que a dor fortalece…
Aprendi que sonhar não é fantasiar…
Que a beleza não está no que vemos, e sim no que sentimos…
QUE O SEGREDO DA VIDA É VIVER…”

VITOR HUGO

sexta-feira, 29 de junho de 2012

GOSTO DE GENTE ASSIM


“Gosto muito de gente assim como tu.
Gente que ri, chora e se emociona com um simples telefonema, uma canção suave, um bom filme, um bom livro, um gesto de carinho, um abraço.
Gente que ama e sente a saudade, gosta de amigos, cultiva flores, ama os animais.
Admira as paisagens, a poeira e a chuva.
Gente que tem tempo para sorrir  bondade, semear perdão, repartir ternura, partilhar vivências e de dar espaço para o outro fazer as coisas de que gosta, sem fugir de compromissos difíceis e inadiáveis, por mais desgastantes que sejam.
Gente que colhe, orienta, entende, aconselha, busca a verdade e se dispõe sempre a aprender de uma criança, ou de pessoas espontâneas.
Gente de coração desarmado. Sem ódios ou preconceitos supérfluos. Com muito amor dentro de si.
Gente que erra e reconhece, que cai e se levanta. Apanha, assimila os golpes, tira lições dos erros……e faz redentoras as suas lágrimas e sofrimentos.
Gosto muito de gente assim como tu.
E desconfio que é deste tipo de gente que Deus também gosta!”

Arthur da Távola

(adaptação: FR)

eu conheço uma música frágil como a chuva…



eu conheço uma música frágil como a chuva…

Eu conheço uma música frágil como a chuva ou as lágrimas evitadas. É uma música que ouço muitas vezes enquanto escrevo ou leio, ou que ecoa dentro de mim enquanto leio o que escrevi.
Cada vez que a ouço, que percorro o teclado infindável do piano onde me refugio, esqueço-me do que escrevi e leio as lágrimas que não chorei sulcadas no meu rosto, à espera que chovesse.
Que me lembre, é uma música onde tu não estás. Uma música que se calhar não existe, ou não existe assim, e não passa de uma desajeitada desculpa para finalmente poder chorar.


jorge fallorca

terça-feira, 19 de junho de 2012

Lavadeiras




Lavadeiras

Essa terra
onde adormecerei  a carne
num silêncio secreto
lá onde nasci
onde morrerei
vergo a ti o corpo!

Essa terra de lavadeiras
mulheres de pele dourada
de olhar enrugado
também elas se vergam
lavando os negros vestidos
como quem lava a saudade
pelas mãos doridas
essa solidão
que o rio vai  engolindo
pela encosta escarpada!

Será vontade de partir
de te  abandonar
Será  vontade de seguir pela maré
Ou será apenas a saudade
dessas mulheres
de ancas roliças
de fartos seios
assobiando pela ruela
e sem o saberem
é nos ombros que carregam
a vida
o tempo
a inocência e pureza 
de quem lava as pedras do rio!



Dulce Antunes

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Do olhar




Em geral os rostos, e os olhos em particular, revelavam-me muita coisa.
Vozes e palavras da mesma forma. 
Eu falava com um menino por alguns minutos e tinha a certeza de saber quem ele era e o que podia esperar dele. 
Uma vez ouvira meu pai citar Maimônides: 
“Assim como os rostos humanos são diferentes, são diferentes os seus pensamentos e opiniões”.
 Narizes, orelhas, lábios revelavam-me segredos.
Eu li em algum lugar que a alma espia pelos olhos, e fiquei atônito ao perceber quanta verdade havia nessas palavras.
Havia olhos tolos, olhos inteligentes, olhos dissimulados, olhos cheios de bondade, olhos cheios de perversidade, olhos expressando pura alegria, olhos cheios de tristeza. 
Todos contavam histórias que eu não conseguia colocar em palavras.
Como Deus podia ter criado tantos olhos, com tantas expressões diferentes?

 Isaac B. Singer, Amor e Exílio, Memórias (L&PM)

quinta-feira, 7 de junho de 2012

retrato do poeta, Quarta-feira da Cinzas






retrato do poeta, Quarta-feira da Cinzas


It is impossible to say just what I mean!

T. S. Eliot, Prufrock and Other Observations


o poeta a um canto está sentado e só.
sob os auspícios de uma luz serena
apenas para si a lâmpada
segura um livro onde procura para esquecer
onde cai para de novo levantar-se
e confiscar ao silêncio a primeira frase
ou o elo perdido de um poema algures

duas jovens mulheres olham-no à vez.
cada qual sonha um destino gigantesco
e incita na outra prudência
jogo de cintura

é um salão distinto
as pessoas entram com vontade de amar o instante
e escolhem com muito cuidado o sabor do chá
ou do café

às vinte e uma e quinze
o poeta tomou o caderno e a caneta:
escreveu bastante, ali e além rasurou
não lhe percebemos gesto mais expressivo que
franzir o sobrolho

as jovens saíram às vinte e duas
uma delas despediu-se do poeta com um vago sorriso
ele não pôde percebê-lo — pensava.
alguns candeeiros iluminavam a solidão
outros porém enchiam-se de conversas
falas rápidas e falas pausadas
todo um desconchavo de fala-baratos atravessando
como flechas o tronco vulnerável das palavras
esgrimindo-as como utensílios velhos
indiferentes ao canto do homem

o poeta saiu também, eram quase vinte e duas e
quarenta. não lhe vimos nada de mais
tão pouco de menos. indiferente a tudo
pagou e partiu, livro debaixo do braço, um caderninho
no bolso. quem sabe o que nele registou
se algo como a luz nova de um poema
se o presságio de que em breve também da noite
se apagará o retrato

João Ricardo Lopes


Fonte: http://diasdesiguais.blogspot.pt/2007/02/retrato-do-poeta-quarta-feira-da-cinzas.html

terça-feira, 5 de junho de 2012

Eu sei que nos acostumamos. Mas não devíamos.





Eu sei que nos acostumamos. Mas não devíamos.

Acostumamo-nos a morar nos apartamentos dos fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não temos outra vista, logo nos acostumamos a não olhar para fora. E, porque não olhamos para fora, logo nos acostumamos a não abrir totalmente as cortinas. E, porque não abrimos totalmente as cortinas, logo nos acostumamos a acender mais cedo a luz. E, à medida que nos acostumamos, esquecemos o sol, esquecemos o ar, esquecemos a amplidão.

Acostumamo-nos a acordar de manhã sobressaltados porque está na hora. A tomar o pequeno-almoço a correr porque estamos atrasados. A ler o jornal no autocarro porque não podemos perder o tempo da viagem. A comer uma sandes porque não há tempo para almoçar. A sair do trabalho já de noite. A dormitar no autocarro porque estamos cansados. A deitar cedo e a dormir pesado sem ter vivido o dia.

A costumamo-nos a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, ao aceitar a guerra, aceitamos os mortos e que haja números para os mortos. E, ao aceitar os números, aceitamos não acreditar nas negociações de paz. E, ao não acreditar nas negociações de paz, aceitamos ler todo dia da guerra, dos números, e da sua longa duração.

A costumamo-nos a esperar o dia inteiro e ouvir do outro lado do telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas e a não receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisávamos tanto de ser vistos.

A costumamo-nos a pagar por tudo o que desejamos e necessitamos. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagamos. A ganhar menos do que precisamos. A fazer fila para pagar. A pagar mais do que as coisas valem. A saber que cada vez pagamos mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas onde nos cobram.

Acostumamo-nos a andar na rua e a ver cartazes. A abrir as revistas e a ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e a engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A costumamo-nos à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Acostumamo-nos a não ouvir o passarinho, nem o galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher a fruta da árvore, a não ter uma planta sequer.

Acostumamo-nos a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, na tentativa de não perceber, afastamos uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, sentamo-nos na primeira fila e torcemos um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, molhamos apenas os pés e suamos o resto do corpo. Se o trabalho é duro, consolamo-nos a pensar no fim de semana. E se no fim de semana não há muito para fazer dormimos cedo e ainda ficamos satisfeitos porque há sempre horas de sono em atraso.
Acostumamo-nos para não nos ralarmos na aspereza, para preservar a pele. Acostumamo-nos para evitar feridas, sangramentos, para nos esquivarmos da faca e da baioneta, para poupar o peito. Acostumamo-nos para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto nos acostumarmos, se perde em si mesma.

(1972)
Extraído do livro “Eu sei, mas não devia“, de Marina Colasanti

Adaptação de Florbela Ribeiro

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Conto Infantil - Manuel, o lavrador


Conto Infantil


Manuel, o lavrador

Mais do que uma vez o lavrador, de nome Manuel, ficava admirado com as maravilhas da Natureza. Ele era dono de um lindo trator amarelo e de uma quinta, com um enorme pomar, onde crescia uma grande variedade de árvores de fruto. Manuel tinha quatro filhos, todos rapazes, eram o resultado de uma união feliz e duradoura com a sua Henriqueta. A sua esposa, mulher dedicada às tarefas do lar, fizera, na opinião de todos os familiares, amigos e vizinhos, um belo trabalho na educação das quatro crianças. Sim, porque Manuel ausentava-se todos os dias, pela manhã bem cedinho, no seu trator amarelo, para cuidar da quinta. O cultivo da terra estava ao seu encargo, era dela que vinha o sustento de toda a casa. O seu trator dava uma preciosa ajuda mas havia sempre tanto para fazer: lavrar, semear, adubar, regar, podar, colher...
Certa manhã, após um reforçado pequeno-almoço e os beijos carinhosos entregues a cada um dos filhos e esposa, Manuel saiu para o trabalho. Chegou ao pomar, estacionou o trator amarelo e, antes de dar inicio às tarefas do dia, fez a sua já habitual caminhada pelo enorme pomar. Gostava de passear por entre as árvores para apreciar o despertar da natureza; os passarinhos felizes faziam voos rasos ao solo, na procura de alimento, as abelhas lavavam os seus rostos pequeninos no orvalho das folhas, enquanto as formigas penteavam as suas longas antenas à luz dos primeiros raios de sol.
– Como é perfeita e harmoniosa a natureza! – disse, Manuel ao encher o peito de ar.
Mas de repente parou admiradíssimo. Um dos seus pessegueiros, o mais pequeno de todos os que ali se encontravam, suportava num dos ramos cinco enormes pêssegos! Espantado, ergueu a mão direita ao alto da cabeça, segurou na pala do boné, coçou a testa e ajeitou-o novamente:
- Que estranho! Ainda ontem passei por aqui e não vi nenhum pêssego e agora… olhem-me estas cinco belezas?! São um regalo para os olhos, sim senhor!
- Tenho cá pra mim, Manuel – falava consigo mesmo - que a idade anda a fazer das suas. Estás a ver mal, e só agora deste por isso.
- Deixa cá ver meu rapaz – disse para o pequeno pessegueiro - tu precisas de uma ajudinha. Sim porque com esse peso todo na ramada não chegarás à minha idade – e soltou uma gargalhada tão forte que assustou o melro que andava por ali perto a catar minhocas.
O lavrador procurou então com o olhar um pau que servisse de suporte aquele ramo tão carregadinho, que sem uma ajudinha, não tardaria a partir. Encontrou o que procurava a poucas dezenas de metros.
Com delicada firmeza espetou o pau no solo. Certificou-se de que estava bem seguro e colocou sobre ele o ramo com os cinco pêssegos.
- Pronto! Agora já posso ir trabalhar descansado – disse satisfeito - Logo mais, passarei por aqui para ver como te encontras.
Acariciou o tronco do pessegueiro, como quem acaricia a cabeça de uma criança, e dirigiu-se para o seu trator amarelo. Tinha de começar a trabalhar.
O sol espreguiçava-se e estendia os seus longos braços por entre as nuvens. E em terra as sombras abrigavam-se debaixo da copa das árvores.
Logo que subiu para o trator, Manuel pressentiu que o dia ia ser quente, e não se enganava, a temperatura ultrapassaria os 30ºgraus.
Durante as várias tarefas, Manuel ia pensando no aparecimento repentino daqueles pêssegos. Ele tinha quase, quase a certeza de que no dia anterior eles não estavam lá!
- A fruta não cresce da noite para o dia … por muito boa que a terra seja e por melhor adubada que esteja, é impossível – cismava ele enquanto lavrava uma pequena porção de terra.
Concluído o trabalho da manhã e antes de regressar a casa para almoçar, foi ver como estava o pessegueiro. Queria verificar se o pau que ele colocara mantinha o ramo em bom estado.
Ao deslocar-se para o pomar deparou-se com um cenário curioso. Um carreiro enorme de formigas, cada uma delas levava um pedacinho de folha. Uns pedacinhos eram maiores do que os outros, consoante a força de cada uma das formiguinhas, mas havia entre elas uma, muito mais franzina e pequenina, que transportava um pedacinho de folha com muito sacrifício.
- Oh, pobrezinha, vai tão carregadinha – lamentou Manuel.
Mas assim que ele acabou de falar, apareceu uma formiga maior para ajudar a formiguinha pequenina a transportar aquele pedacito da folha.
Este espírito de entre ajuda despertou a atenção do lavrador.
- É uma pena que nós, humanos, nos esqueçamos dos ensinos que a natureza nos dá! – disse ao observa-las admirado.
- União, companheirismos, determinação, persistência… que maravilhoso ensino nos transmitem estes pequenos seres. Foi então que teve uma ideia.
- Vou levar estes cinco pêssegos para casa. Darão uma deliciosa sobremesa para os meus cinco tesouros – referia-se à esposa e os quatro filhos –, mas também servirão para eu avaliar o coração dos meus quatro rapazes.
E assim fez. Com muito cuidado colheu os cinco pêssegos, colocou-os numa caixinha de cartão forrada com folhas de figueira, para não se pisarem durante a viagem, e retirou o pau que servira de apoio ao ramo. O pessegueiro, agradecido, erguia agora livremente todos os ramos no ar.
Já em casa esperou que os filhos se deliciassem com o arroz de pato que a sua Henriqueta preparara com muito amor! De seguida distribuiu os cinco frutos. Os olhos arregalados, da pequenada, ao verem aqueles pêssegos enormes, provocou um sorriso rasgado em Manuel.
- São grandes não são? – questionou ele.
- São enormes, papá – disse, André o mais velho – e têm uma cor e um aspeto tão suculento.
- Hum… cheira tão bem. A pele fininha faz cócegas no nariz- disse o Joãozito, o mais novo dos quatro irmãos.
- Pois faz – confirmou a mãe com um sorriso - Creio que nunca tivemos uns pêssegos tão grandes na quinta, Manuel.
- É verdade, até eu me espantei pela manhã quando os vi. São um regalo para os olhos e devem ser um regalo nas vossas barriguinhas – disse ao apontar na direção deles.
- Podemos comê-los já? – perguntou, Joãozito.
- Claro que sim – respondeu-lhe o pai - E enquanto vos deliciais eu retorno ao trabalho, antes que se faça tarde. Tenho um bom pedaço de terra para semear.
Um a um, levantaram-se da mesa, abraçaram e beijaram o pai, antes que ele se ausentasse para o pomar.
- Uma boa tarde de trabalho, querido – desejou-lhe a esposa com um abraço.
- Obrigado, para ti também – retribuiu Manuel com um beijo suave na testa.
Durante a tarde, Manuel recordava os olhares admirados de espanto dos seus pequenos. Estava ansioso por regressar ao lar. Queria saber o resultado da prova daqueles frutos, ou o que teriam feito com eles. A tarde pareceu-lhe mais longa do que o habitual, tal era a ansiedade que sentia.
Mas finalmente aproximou-se a hora de voltar, estava cansado. Arrumou as ferramentas e o resto das sementes no pequeno celeiro, fechou a porta e subiu para o seu trator amarelo. O calor, mais brando, fazia-se acompanhar duma brisa vinda da serra. Só o chilrear da passarada quebrava o silêncio daquele fim de tarde. O barulho do trator amarelo abafou por momentos a melodia desordenada que se instalara no pomar, mas rapidamente se afastou levando consigo o cansaço do seu dono. Ao chegar a casa, Manuel despiu-se da fadiga, abraçou os filhos a esposa e perguntou-lhes:
- E então, comeram os pêssegos?
Eu comi, papá – respondeu, André – era tão saboroso! Mas guardei o caroço, para plantar. Em breve terei o meu próprio pessegueiro.
– Muito bem meu filho – disse Manuel – um economista a pensar no futuro.
– Eu também já comi o meu, papá – disse, Joãozito - comi-o logo, e a mamã ainda me deu metade do dela. Hum… era tão macio e docinho.
– Ah, seu guloso – disse o pai  com um leve sorriso – és ainda muito pequenino mas espero que mudes de comportamento à medida que cresceres.
- Sim, papá – respondeu com timidez.
– Eu não comi o meu -  disse-lhe Pedro - apanhei o caroço que o Joãozinho lançou fora, abri-o e comi o que estava dentro, parecia uma noz mas não era saboroso.
- E o que fizeste com o pêssego? – quis saber o pai
- Vendi-o para comprar outras coisas na cidade.
Manuel abanou a cabeça.
– Foste engenhoso, filho mas eu preferia que fosses menos cálculista. Então e tu, Tiago, comeste o teu pêssego?
– Não, papá.  Oferecio-o ao filho da nossa vizinha que está doente, com febre. Ele não o quis comer mas deixei-lho em cima da mesinha de cabeçeira quando me  vim embora.
– Hum… muito bem! – Manuel sabia agora qual dos seus filhos tinha um coração mais generoso.
- Digam-me um coisa – quis saber o lavrador  -, na vossa opinião quem, dos quatro, deu melhor uso ao pêssego que recebeu?
André, Pedro e Joãozito responderam a uma só voz:
- Foi o mano, Tiago.
- Exactamente! E eu espero que vocês aprendam a ser mais generosos, e sigam o exemplo do vosso irmão.
- Sabem, hoje no pomar deparei-me com uma situação curiosa. Um enorme carreiro de formigas, cada um levava um pedacinho folha. Vocês já observaram estes animaizitos algumas vez?
As quatro cabecitas acenaram negativamente.
- Pois eu fiquei a saber que elas são muito trabalhadeiras, muito amigas e unidas. Naquele carreirinho havia uma formiga que era mais pequenia e fraquinha do que as outras. E eu reparei que ela levava o seu pedacinho de folha com muita dificuldade, parecia que tropeçava, desfalecia. Eu estava cheiinho de pena dela quando de repente outra formiga, maior e mais forte, veio ajuda-la a transportar aquele pedacinho de folha.
- Oh, foi tão querida, papá – disse Joãozito.
- E verdade, foi muito querida! E nós, humanos, também devemos ser assim, devemos ser amigos uns dos outros, ajudando os mais fracos e doentes, sem invejas, nem rivalidades.
A mãe Henriqueta que ouvira da cozinha todo aquele diálogo entre pai e filhos, aproximou-se do Tiago e abraçou-o com os olhos rasos de lágrimas.
Até que, Joãozito o mais travesso dos quatro se agarrou às pernas do pai e perguntou:
- Papá eu prometo não ser mais guloso, nem comer do pêssego da mamã mas… trouxeste mais frutinha docinha e amarelinha, como o teu trator amarelo, papá, trouxeste? - o seu jeitinho inocente e reguila fez soltar uma risada geral.
Manuel, um apreciador  da natureza e dos seus ensinos, sentia-se um homem feliz e realizado. Mas ele sabia que o amor e a bondade que ele cultivava cuidadosamente no coração dos seus quatro filhos eram a sua melhor sementeira.
© Florbela Ribeiro