sábado, 26 de maio de 2012

O Cavalo Branco




O CAVALO BRANCO


A forte probabilidade do País entrar em guerra, desassossegou a pacatez da pequena aldeia. Os ventos que chegavam de longe e traziam a notícia, não agoiravam nada de bom.
- Avizinham-se tempos difíceis, meus amigos… – Tomé, dono do pequeno café, sentenciava em alta voz o que toda clientela temia.

A informação causou grande apreensão, e inquietação, aos chefes de família ali presentes que rapidamente se envolveram em aceso debate por toda a manhã.
Somente, Alexandre parecia alheado de tudo... Sentado numa das mesas do fundo, olhava o exterior, enquanto saboreava o seu café. Lá fora um pequeno pardal saltitava por entre flocos de neve que caíam naquela manhã de Outono.
- Então Alexandre, não dizes nada? – fazia tempo que Tomé o observava.
O laço de amizade que existia entre ambos era muito forte, nascido na meninice, tornou-os “amigos inseparáveis”. O crescimento, e amadurecimento, unido patentearam a cumplicidade que existia entre eles. Podia ser uma brincadeira inocente ou a pior das traquinices, mas onde estava o dedo de um, estava a mão de outro, isso era garantido! Eram verdadeiros irmãos de alma, e coração. Bastava uma troca de olhares para decifrarem entre si o que sentiam ou pensavam. E naquele exato momento, Tomé sabia que o seu amigo Alexandre pensava em Maria. E tratou logo de arranjar maneira de o trazer de volta.
- Enquanto lá fora cai a primeira camada de neve, aqui o calor está ao rubro – respondeu Alexandre em jeito de brincadeira, para aliviar a tensão que pairava no ar.
- Ora aí está uma boa maneira de aquecer os corpos gelados que aqui chegam – soltou Tomé com uma risada estridente. A clientela acompanhou-o, aliviando por instantes o clima pesado que se ali se formara. Alexandre era um observador de poucas palavras. Às vezes dava a sensação de estar totalmente alheado, mas isso não correspondia à verdade. A realidade é que ele não gostava de opinar sobre assuntos dos quais não tinha um conhecimento aprofundado, nem de rumores. E a notícia da guerra que ali se debatia naquela manhã, não passava disso mesmo, rumores. Pelo menos por agora…
Nutria pelos presentes uma grande estima, mas havia um detalhe com o qual Alexandre não se identificava. Aqueles homens apreciavam debater, e tecer, os mais variadíssimos comentários sobre temas e assuntos dos quais não tinham, se quer, a certeza de haver probabilidade de veracidade. E faziam-no durante horas a fio. Para eles não era relevante se o mesmo era ou não verdade. Se fosse boato mais tarde ou mais cedo se viria a saber, mas até lá... Isso deixava Alexandre profundamente irritado, e quando assim era, não compactuava em divagações ou meras probabilidades. Uma postura que provocava grande admiração e respeito por parte de todos, e sempre que tecia algum comentário, prestavam-lhe a máxima atenção. Naquela manhã porém não lhe apetecia falar na eventualidade de uma guerra. Também ele tinha um filho, assim como a maioria dos que ali se encontravam, por isso recusou-se a pensar na hipótese do seu rapaz ser levado para um campo de batalha. Fazia anos que o destino lhe pregara uma valente partida, levando-lhe a sua doce Maria, quando dera à luz o seu primogénito. Daí que, nem hipoteticamente, ele quisesse pensar numa repetição do destino. A vida já havia sido madrasta ao deixa-lo viúvo com um recém-nascido nos braços… Ainda assim e apesar do grande infortúnio, e das suas consequências, no semblante de Alexandre nunca se avistou uma nuvem de revolta.
- Deus sempre sabe o que faz – era esta a convicção de Alexandre.
Mas bastava de sofrimento, até porque a dor da saudade fizera morada no seu peito. O olhar sereno era um misto de dor, resignação, fé e esperança. Esperança essa que ele não iria deixar desvanecer pelos rumores de uma guerra. André, o seu filho, era o orgulho e a razão da sua existência! Foi ele a alavanca que Deus usou para o erguer do meio do sofrimento. Há quem diga que a tribulação amansa ou embravece o coração, no caso de Alexandre, ela não só amansou com também adocicou. Era esta a opinião dos seus amigos e vizinhos. O dia em que tudo aconteceu ainda estava bem presente na sua memória…
- Complicações, Sr. Alexandre – anunciou a parteira banhada em suor e lágrimas.
Pobre mulher, fizera tudo quanto pode mas a Deus aprouve leva-la. Não existe nenhum antídoto para atenuar a dor causada por uma da tragédia, tenha ela um culpado ou não, e neste caso não tinha. A serenidade que transparecia hoje do seu olhar era pois fruto das muitas vicissitudes sofridas ao longo da vida. Não é fácil ser-se pai, muito menos pai e mãe ao mesmo tempo.
É claro que a mão de Deus esteve sempre presente para lhe dar graça e a sabedoria ao longo dos anos, ajudando-o assim a ultrapassar os obstáculos do dia-a-dia. Os seus pensamentos foram despertos pela entrada abrupta de André no café, já o moço procurava com o olhar por ele.
- Pai… o cavalo desapareceu – balbuciou ofegante por tanto correr.
- Desapareceu? Mas como? A porta do estábulo não estava fechada? - questionou repetidamente Alexandre.
- Pois estava, mas ele não está lá – os olhos de André refletiam surpresa, e preocupação. O cavalo branco era o que de maior valor patrimonial possuíam.
Nunca até então ninguém vira um animal mais belo do que aquele, a sua fama correra todo o país e agora tinha desaparecido.
- Oh, não querem ver que te roubaram o cavalo? - disse um dos presentes.
- Só pode, se a porta estava fechada como disse o André! – concluiu outro.
- Mas que desgraça, roubarem o teu cavalo branco! – o debate sobre a guerra fora completamente esquecido. O tema central, no pequeno café da aldeia, passou a ser o roubo do cavalo branco.
- Tenham calma, meus amigos. Não cheguem a tanto. Limitem-se a dizer que o cavalo não está mais no estábulo, o resto é precipitação e julgamento vosso – atalhou de imediato Alexandre.
Pai e filho despediram-se apressadamente e saíram. Os dois vultos embrenharam-se na neve que caía agora com mais intensidade. Atrás deles ficou a agitação do novo acontecimento: O roubo do cavalo branco de Alexandre. Passaram-se vários dias sem que o animal desse sinal de vida. Alexandre e o seu rapaz, prosseguiam a sua vida rotineira. O trabalho da quinta não era leve, apesar de esta ser pequena, mas a única mão-de-obra existente era a de ambos, de ninguém mais. André não tocou mais no assunto do cavalo, até porque o seu pai já andava cansado de ouvir os constantes comentários que se faziam na aldeia. Ele tinha uma profunda admiração pela forma como o pai lidava com aquela situação. Sendo, o cavalo, uma perda tão avultada confiava tudo nas mãos de Deus e esperava tranquilo. Só que às vezes, essa tranquilidade, mediante as mais duras provas, chegava a arreliar
André, mas no fim ficava provado que o pai que estava certo. Deus nunca os deixara ficar mal até aquele dia, e não iria ser diferente agora.
- Deus sabe o que faz meu filho, e se Ele permitiu que o cavalo se fosse embora, lá terá os seus motivos.
- Não vejo quais meu pai – foi a única coisa que André se atreveu a dizer no dia a seguir ao sumiço do animal. Depois disso nenhum dos dois tocou no assunto. Cada qual, à sua maneira, entregou o problema no altar de Deus e esperou. Mediante a calma que Alexandre demonstrava, os vizinhos, começaram a fazer troça.
- Passados já estes dias, tu ainda esperas o cavalo? – perguntou-lhe um com ironia.
- Oh, homem, o animal nunca mais vai aparecer – zombou outro.
- Veremos meus amigos, veremos - era a resposta branda de Alexandre aos motejos vizinhos.
E o tempo foi passando até que, e contra todas as previsões da aldeia, o animal apareceu na quinta. O cavalo, que fugira para a floresta, regressava acompanhado por doze cavalos selvagens. E que belos que eram aqueles cavalos selvagens! A notícia espalhou-se, como moinha ao vento, e originou uma grande animação na aldeia. Vizinhos e amigos apresentaram-se de imediato na quinta, não só para felicitar mas também para poderem apreciar a beleza dos animais.
- Tinhas razão Alexandre, e não é que o bicho apareceu mesmo? – disse um dos presentes.
- Até parece que adivinhavas. Mas que grande fé a tua homem! – disse outro ao dar-lhe leves palmadinhas nas costas em jeito de celebração.
- Isto é que é uma bênção, agora em vez de um cavalo tens uma manada! -atestou outro.
- Exatamente, que grande bênção homem! - o comentário era unânime.
- E nós que dizíamos que o sumiço do animal tinha sido uma desgraça, vejam lá bem.
Os mesmos que teciam, dias antes, variadíssimos comentários irónicos à situação de Alexandre, comemoravam o recebimento de uma bênção tremenda.
- Obrigado, meus amigos – agradeceu Alexandre – mas vocês estão de novo a precipitar-se. Quem poderá afirmar se o facto de o meu cavalo ter voltado com companhia, é ou não uma bênção? Digam apenas que o cavalo está de volta, e não estejam sempre a fazer julgamentos.
- Oh, Alexandre, não digas disparates, então não se vê logo que é uma bênção?
- E que bênção, e que bênção. Pará lá com essa tua mania das modéstias.
É claro que Alexandre estava felicíssimo com a volta do animal, Deus ouvira e atendera as suas orações. Mas a insistência destes homens, em fazer julgamentos precipitados, incomodava-o. Tomé, o seu inseparável amigo aproximou-se dele e segredou-lhe:
- Tu já sabes como este povo é, não lhes ligues – Alexandre assentiu com um encolheu os ombros.
Quem ficou completamente eufórico com o regresso do cavalo branco foi André. No dia seguinte levantou-se bem cedo para dar início ao novo trabalho, domesticar os doze animais selvagens. Uma árdua tarefa que, a seu tempo, iria dar belos frutos. Alexandre constatou isso mesmo poucos dias depois, os progressos eram já notáveis. O seu rapaz estava a fazer um belo trabalho, e isso iria reverter num acréscimo patrimonial para ambos! No entanto e contrariando a animação que se vivia na quinta, as notícias que chegavam de longe eram as piores. O País ia mesmo entrar em guerra.
- Meus amigos, agora já não estamos a falar de meros boatos, ou suposições. É uma realidade e temos de a encarar de frente – disse Tomé.
- Falas bem porque não tens filhos – argumentou, com agressividade, um dos homens. Estavam tensos, extremamente pesarosos, e tendo isso em conta, Tomé não se ofendeu.
- Não é bem assim – limitou-se a responder.
É verdade que ele não tinha constituído família. Comentava-se em surdina que o medo o levara a casar-se com o café. Não quis correr o risco de ser atropelado pelo destino, como Alexandre, seu amigo. A morte prematura de Maria e o sofrimento que a mesmo causou traumatizaram Tomé, mas ele amava André como a um filho. Ele não era apenas seu afilhado, era também o elo de ligação que Maria lhes deixara antes de partir. A ele e a Alexandre. O rapaz não teve um pai e uma mãe como é supostamente normal, em contrapartida teve ao seu lado dois homens que desempenharam com destreza o papel de pais. Eram ambos capazes de dar a vida por ele, se preciso fosse.
Daí a notícia o abalar tanto como a qualquer pai de família que ali se encontrava.
- É verdade, o tempo dos rumores já lá vai – concluiu Alexandre.
- Dizem que todos os rapazes da aldeia terão de se alistar. Têm que ir defender a pátria – disse com profundo pesar um dos fregueses.
- Vamos ficar sem os nossos rapazes, é o que é – o desânimo era total.
- E agora meus amigos, como vamos nós levar esta notícia para casa? – a pergunta que vinha do balcão era pertinente.
- Valha-nos Deus – suspirou um deles.
As informações chegavam primeiramente ao café, onde eram analisadas, debatidas e só depois é que eram levadas à população. E o trabalho de pombo-correio dava-lhes sempre imensa satisfação, mas desta vez não seria assim. Esta era uma notícia demasiado dolorosa. Todas as famílias iriam ser afetadas.
- Queres que te acompanhe a casa para dar a notícia ao rapaz? – perguntou-lhe Tomé.
- Agradeço-te, mas não há necessidade – o semblante de Alexandre estava carregado de lembranças – Logo agora que ele anda tão entusiasmado com os cavalos – mas não era essa a razão do seu pesar. Com um suspiro ergueu as dores da memória em direção a casa. Nunca o caminho até a quinta lhe parecera tão longo. Durante o trajeto ensaiou vários discursos, na tentativa de aligeirar a notícia o mais possível, mas conseguiria ele transmiti-la sem destroçar o coração do filho? As más notícias causam sempre sofrimento, isso é inevitável e ele sabia-o. Era mais um duro golpe do destino nas suas vidas. Naquela tarde o ar era gélido e o vento soprava com demasiada força. Os dois elementos da natureza foram os companheiros dos seus pensamentos. Chegou por fim à quinta. Na frente da casa a pequena palmeira que André plantara na Primavera anterior, debatia-se com o vento. Era um arbusto ainda jovem mas que lutava com bravura. Sacudida violentamente, torcia-se e contorcia-se mantendo-se firme no lugar. Alexandre parou a contemplar aquele cenário. Aquela frágil palmeira transmitiu-lhe uma forte mensagem. Acabava de receber o alento necessário para enfrentar o momento.
- Obrigado – disse de coração agradecido e olhos postos no céu.
Com uma passada firme, dirigiu-se para o interior da sua casa onde chamou pelo filho. Aguardou alguns segundos sem obter qualquer resposta.
Com aquela ventania era impensável que o rapaz se ausentasse de casa.
Ergueu o tom de voz e voltou a chamar:
- André, onde estás? – só o silêncio lhe respondeu.
Visivelmente arreliado dirigiu-se até ao estábulo.
- Que irresponsabilidade sair de casa com este tempo – pensava.
A poucos metros de chegar ao estábulo ouviu um gemido.
- André, André – chamou ao percorrer apressado a distância que os separava.
- Pai… pai! – respondeu com a voz corroída pela dor.
Alexandre abriu violentamente o portão. À sua frente, deitado no chão, o rapaz contorcia-se com dores.
- O que aconteceu? – perguntou aflito.
- Resolvi treinar os cavalos aqui, por causa do frio, e o pardo… lançou-me ao chão… – relatou com visível dificuldade. No rosto, desfigurado pela dor, corriam gotas de suor.
- Tem calma, André, não te mexas, eu vou buscar ajuda – Alexandre não tinha conhecimentos médicos, mas a avaliar pela posição do rapaz, as duas pernas não deveriam encontrar-se em muito bom estado.
- Desculpe, pai – disse André com a voz trémula.
- Vou chamar o Dr. Mauro, e tu fica quieto, não te mexas.
Prendeu o cavalo pardo e correu a chamar o médico. Não tardaram muito em chegar, embora a André lhe tenha parecido uma eternidade. O médico avaliou cuidadosamente o estado do rapaz, e o diagnóstico, tal como o pai previra, não foi bom.
- Lamento, André, mas as duas pernas estão fraturadas – concluiu.
- As duas?! Lindo serviço, menino André! – o tom de voz paterna denotou preocupação sem irritação, e aliviou a dor emocional do rapaz.
- Vais ter uns valentes dias de repouso, e os teus cavalinhos vão ter que esperar.
- Repouso absoluto? – perguntou André entre gemidos.
- Claro! Achas que consegues fazer alguma coisa nesse estado?
André limitou-se a acenar que não com a cabeça. O seu projeto com os cavalos teria que ficar adiado.
- Quanto tempo é que vou ter que ficar em repouso absoluto?
- Bem, se não houver complicações entre 2 a 3 meses, mas depois terás de fazer fisioterapia durante um bom tempo.
- Tanto assim? – questionou Alexandre.
- Na melhor das hipóteses, se não houver mais do que uma fratura nos ossos de ambas as pernas – disse ao mesmo tempo que lhe administrava uma injeção de «cavalo» para aplacar um pouco as dores.
Alexandre soltou um sonoro suspirou de alivio, o que intrigou o Dr. Mauro.
- Esperavas um diagnóstico pior? – perguntou ao mesmo tempo que franzia as fartas sobrancelhas.
- Não, não esperava. Este acidente vai impedir que o André tenha de se alistar para Guerra – esclareceu.
- É verdade. Tens toda a razão em suspirar de alívio – concordou o médico - até o André o fará logo que as dores o larguem um pouco.
Assim que o analgésico começou a fazer efeito, foi imobilizado, para que os dois homens o pudessem levara para o hospital na vila mais próxima.
Depois de feitas as radiografias e já no seu quarto, André foi confrontado com o diagnóstico final.
- As minhas suspeitas confirmam-se – começou por dizer o Dr. Mauro, com os olhares de pai e filho cravados nele – na perna esquerda temos a fratura do fémur, na direita o estrago é maior. A tíbia está fraturada em dois sítios…
O médico falava e analisava, por cima dos óculos, o impacto que as notícias causavam nos dois.
- Isso trocado em miúdos quer dizer o quê doutor? – perguntou Alexandre.
- Bem… isto quer dizer que a recuperação vai ser lenta, terá de haver da tua parte – dirigiu-se para o André – muita paciência e muita cooperação.
- Quais as previsões até a minha recuperação total? – perguntou André com desalento e um profundo suspiro.
- Talvez 1 ano, ou talvez menos. Tudo irá depender de como a cicatrização se fará e do teu empenho na fisioterapia.
- Vê o lado bom das coisas rapaz – disse-lhe o pai por fim – ficarás livre da guerra por um bom tempo.
Na realidade e dada a imaturidade própria da juventude, era Alexandre quem mais valorizava este “lado bom” do acontecimento.
- Que bom pai – respondeu-lhe desanimado.
- Sr. André, vamos dar um passeio até ao bloco operatório? – o enfermeiro Gomes tinha um ar simpático e descontraído e com grande a vontade entabulou conversa com o novo paciente levando-o para fora do quarto.
Era um profissional competente que demonstrava amar o seu ofício.
Alexandre soltou um suspiro ao ver o filho afastar-se.
- Há males que vêm por bem, este parece-me ser um deles – disse o Dr. Mauro – E tu vê se ficas tranquilo – colocou-lhe a mão de amigo no ombro – porque o rapaz está em boas mãos.
- Obrigado, Dr. Mauro – disse ao esboçar um leve sorriso, sinal de concordância.
- Tenta descansar um pouco, que não tardará nada a ele estar de volta – recomendou o médico ao retirar-se.
- Posso tentar mas não creio que consiga, Doutor.
Fora uma tarde desgastante, principalmente do ponto de vista emocional.
Primeiro a notícia que o país entrara em Guerra. Depois as recordações que a mesma lhe trouxe, devido à obrigatoriedade do alistamento dos rapazes. E como se isso ainda não bastasse, o acidente do filho e a intervenção cirúrgica.
Sentia-se imensamente cansado quando se afundou no cadeirão da sala de espera.
- Eu sei que o meu filho está em boas mãos – pensava Alexandre em voz alta – porque está nas Tuas mãos.
Como bom aldeão que era, o Dr. Mauro, tratou logo de espalhar a notícia do sucedido por toda a aldeia. E todos, um a um, foram comparecendo na quinta, para prestar solidariedade e se colocarem ao dispor para o que fosse eventualmente necessário.
- Outra desgraça te bateu à porta Alexandre. Oh valha-me Deus.
- Bem dizias tu, que não devíamos afirmar que a volta do cavalo branco era uma bênção.
- Pobre rapaz, logo as duas pernas. É preciso ter azar! – opinavam eles. O cansaço de Alexandre era bem visível, acabara de chegar do Hospital, não tinha pregado o olho toda a noite. Ficara a velar o sono do filho, como quando ele era pequeno. A informação que lhe deram, da cirurgia, foi a melhor possível, mas mesmo assim ele não arredou pé dali. Estava pois exausto quando na manhã seguinte regressou a casa e aquela insistência dos amigos em fazer julgamentos estava a tirar-lhe a paciência. A ele que era extremamente calmo…
- E vocês insistem em fazer julgamentos. Parem lá com isso, homens de Deus. Os acidentes acontecem todos os dias, não são desgraça e sim percalços da vida.
- Como não, Alexandre? Foram logo as duas pernas, homem!
- Eu sei que foram as duas pernas. Mas a situação até podia ser bem pior se ele ao cair tivesse batido com a cabeça, ou não?
- Podia estar morto a esta hora – concluiu um deles.
- Pois… lá isso podia – disse outro ao mesmo tempo que coçava a cabeça.
- Então parem lá com os vossos julgamentos! Deus sabe o que faz e se ele permitiu que esta queda acontecesse lá terá as suas razões. Eu já vos disse que aqueles que são obcecados por julgar, facilmente caiem na armadilha de basear os seus julgamentos por pequenos acontecimentos. O que os leva a conclusões precipitadas. Nunca encerrem uma questão de forma definitiva. Quando um caminho termina, Deus começa outro, e quando uma porta se fecha, Deus sempre abre outra, lembrem-se disso...
- Será que tu nunca questionas Deus, Alexandre? Concordas sempre com o que Ele faz? – a sua passividade perante os problemas arreliava os demais.
- Claro que questiono – respondeu ele – e nem sempre concordo com os Seus métodos, mas quem sou eu para saber o que é melhor ou pior para mim?
- Acaso deve a criatura interpelar o Criador? – o silêncio instalou-se na sala.
Que argumentos poderiam usar eles para contra atacar esta grande verdade?
Nenhuns obviamente, todos ali tinham conhecimento da Soberania de Deus.
Bem, lá ter até tinham só que às vezes, esqueciam-se!
Os dias que se seguiram ao acidente foram de grande angústia para toda a aldeia. No hospital André exasperava-se, não só pelas dores, mas porque se encontrava totalmente imobilizado. O facto de estar deitado sempre na mesma posição mexia-lhe com o sistema nervoso. Foram dez longos dias, no Hospital, difíceis de suportar. Entretanto, na aldeia, os rapazes com mais de 18 anos eram obrigados a partir para a guerra. O ambiente que pairava era de grande pesar e consternação. Ao fim de três meses, André iniciou os tratamentos de fisioterapia, em ambas as pernas. Para fisioterapeuta o Dr. Mauro elegeu Tomé, o seu padrinho. Esta nova responsabilidade obrigava-o a fechar o café todas as tardes, situação com a qual ele não se importou. Bem pelo contrário, assim os homens não iriam para lá afogar as suas mágoas.
É que aturar bêbados nunca fora o seu forte, ainda mais agora que a alegria se tinha apagado do rosto da população. Com os ânimos abatidos, não havia disposição para conversas nem debates. Sozinho e em silêncio solene, Tomé afixava as notícias que os pombos-correios se recusavam a dar. A lista dos mortos na Guerra. E, um a um, todos os rapazes morreram. A aldeia ficou sem juventude. O rigor do Inverno e a inaptidão em lidar com armas de Guerra foram fatais. O luto fez morada por aquelas paragens. Por todo o lado se chorava a perda de filhos, sobrinhos, netos, primos, amigos…
- Maldita guerra, arrebatou-nos os filhos – vociferavam os corações amargurados.
Injustas ou não, as leis decretavam que eles tinham de contribuir com o que de mais valioso possuíam, os seus rapazes. Alexandre foi o único que não chorou a morte do seu filho, muito embora sofresse com a população. Sendo a aldeia tão pequena era impossível não ganhar laços de afeto entre os habitantes. Ali todos se conheciam, estimavam e respeitavam, como uma grande família.
As recomendações do médico foram respeitadas ao milímetro, até porque Tomé estava empenhado na rápida recuperação do rapaz.
Era no entanto necessário anima-lo. Assim e durante os tratamentos ele inventava mil e uma histórias na tentativa de lhe arrancar um sorriso mas… sem sucesso. André perdeu em pouco mais de três meses, todos os seus amigos e a lembrança que tinha deles não lhe permitia sorrir.
- Ele tem perguntado pelos cavalos? – questionou certo dia Tomé.
- Não. Nunca toca no assunto – respondeu Alexandre.
- Que raios! A vida continua, o rapaz tem que reagir.
- Tem calma meu amigo, ele precisa de tempo para digerir a sua dor.
- Quem sabe se com a chegada da Primavera ele não arrebita? – disse com ar esperançado.
- Quem sabe, Tomé, quem sabe – suspirou Alexandre.
Aquela nuvem negra que pairava sobre a aldeia tinha que se dissipar algum dia, e todos desejavam que esse dia fosse em breve.
- Não está mal não senhor. Agora que o pior já passou, posso confessar-te que receei o pior – disse o médico.
- O pior? – perguntou André com o olhar arregalado.
- Sim. Este tipo de fraturas levou-me a crer que ficarias coxo da perna direita para o resto da vida, mas vejo agora que estava enganado.
- Mas ele ainda coxeia, Doutor – disse o pai.
- Eu sei, mas verás que lá para o final do Verão isso deixará de acontecer.
- Ufa já não era sem tempo, não vejo a hora de largar de vez esta muleta – disse Abel fazendo uma careta.
- Olha que ingrato me saíste tu, meu rapaz, a desprezares assim a tua amiga – disse Tomé em defesa do objeto.
A gargalhada foi geral, o pior tinha realmente passado. Uma etapa estava ultrapassada, uma nova iniciava. Era urgente arranca-lo da tristeza em que mergulhara no último ano.
- Agora que já tens alta médica, não queres ir visitar os cavalos? – este convite do pai deixou-os a todos em suspenso.
O brilho que por momentos se viu nos olhos do rapaz apagou-se o que fez recear o pior. Permaneceu calado por alguns minutos, o que causou uma arritmia nos corações presentes. Com um encolher dos ombros e um suspiro respondeu:
- Pode ser - os três homens respiraram de alívio. Mais um passo fora dado em direção à luz.
- Então de que é que estamos a espera? – perguntou o médico – eu também quero ir ver os bicharocos.
No decorrer daquele Inverno os dois homens prepararam uma surpresa. Construíram um enorme cercado, onde André iria, logo que pudesses, treinar os cavalos. E era lá que os animais se encontravam quando os quatro se dirigiram para o exterior da casa. O dia amanhecera com um bonito céu azul, não se vislumbrava uma única nuvem, permitindo que luz do sol brilhasse sem impedimentos. Essa luminosidade acentuava ainda mais as cores do campo verdejante. Apoiado na muleta, André deu os primeiros passos em direção ao estábulo. Mas ao erguer os olhos para o horizonte perguntou:
- O que é aquilo? - apontava na direção do cercado.
- É uma surpresa – há meses que, Alexandre e Tomé, ansiavam por aquele dia.
- Ah, agora entendo as vossas conversas em surdina – disse o rapaz com um sorriso que ia de orelha a orelha – Era isto que me escondiam, não era?
- Pois era – Tomé não cabia em si de contente por ver a alegria do afilhado.
- Aleluia! – exclamou Alexandre – vejo-te, finalmente, a sorrir!
- Uau! É enorme, pai – os seus olhos pareciam explodir de felicidade.
Os cavalos encontravam-se afastados a pastar, mas ao som das vozes amigas aproximaram-se. A manada vinha completa mas era o cavalo branco que a liderava. Os três homens aperceberam-se da reação e mantiveram-se ligeiramente afastados. Era um momento importante para André e os animais, e eles sabiam-no. Nada nem ninguém deveria atrapalhar aquele reencontro.
André afastou-se deles, aproximou-se da cerca e ao debruçar-se nela, largou a muleta.
- Estão magníficos – disse num fio de voz.
A manada parou a cerca de 50mt de dele. O cavalo branco soltou um relincho e do meio do grupo salientou-se o cavalo pardo, aquele que o lançara violentamente para o chão. Dirigia-se para o local onde André se encontrava debruçado, os restantes permaneciam parados. Havia um assunto a ser resolvido entre o rapaz e o animal e os restantes companheiros sabiam disso. Iniciou-se o frente a frente. O silêncio era total, a natureza aguardava ansiosa, o desfecho daquele acerto de contas. O cavalo começou por bater com o casco dianteiro no chão, fazendo com que o pó se ergue-se no ar. Ao mesmo tempo que relinchava e sacudia a cabeça de um lado para o outro. André permanecia imóvel enquanto o observava. A atitude do animal foi entendida por todos como um pedido de desculpas. Mas o rapaz não reagia. Resolvido, o animal deu mais um passo em frente, ficando bem próximo do rosto de André. Balançava cabeça de um lado para o outro, enquanto aguardava a resposta do amigo. Com estes movimentos suaves parecia que marcava os compassos de uma música. Com os olhares fixos, em silêncio, tudo se resolvia.
- Está tudo bem pardo – declarou André ao fim de um tempo – está tudo bem.
Afagou-o ternamente, o cavalo colocou a cabeça no seu ombro. Era o abraço da reconciliação. O líder da manada ergueu-se então nas patas traseiras e começou a soltar fortes relinchos. Tinha chegado a hora dos restantes animais irem cumprimentar André.
- Tiveram saudades minhas, não tiveram meus malandrecos? – perguntava-lhes André bastante emocionado.
Nenhum dos homens conseguiu reter as lágrimas diante da ternura que presenciaram.
- Isto até parece a cena de um filme – disse o médico – Inacreditável!
- Os filmes são baseados em factos reais doutor – disse Tomé com ar de troça.
- É verdade, mas eu não acreditaria que tal fosse possível, se não visse – e tinha razão. A afetividade que existia entre o rapaz e os animais foi ali demonstrada de forma inequívoca, e isto não acontece todos os dias.
O ar que se respirava no cercado, estava agora repleto de encanto e ternura.
Aquele abraço iria ficar gravado nas suas memórias para sempre.
- Que tal uma montada para celebrar? – perguntou Tomé ao mesmo tempo que limpava o rosto.
- O pardo não está apto ainda para montadas padrinho – disse André com a voz ainda embargada – Só se for no cavalo branco.
- Mas tem que ser mesmo no líder da manada. Não nos podemos esquecer que o cavalo branco é o grande protagonista desta história – a gargalhada foi geral. E que história pensou Alexandre de si para si.
Enquanto os dois homens ajudavam André a selar o animal, Alexandre recordou a sequência de todos os acontecimentos. Tudo se iniciara numa manhã fria de Outono, quando no café do seu amigo se debatiam os rumores do País entrar em guerra. Os mesmos que foram esquecidos, quando o sumiço do animal invadiu o espaço. Dias depois e contra todas as previsões o animal regressou escoltado por doze belos animais selvagens. André ficara tão entusiasmado que mal dormiu nessa noite. Semanas depois, e no mesmo dia, veio a confirmação de que o País entrava em guerra e o acidente. Os meses que se seguiram foram terrivelmente dolorosos e marcantes para todos. Dos quatro cantos da aldeia soavam os corações em luto. Nos olhares do povo habitava uma profunda tristeza, no peito morava a dor imensa da saudade.
Ao mesmo tempo que decorria a primeira etapa da recuperação de André, chegavam, à Estação de Caminho-de-Ferro, os corpos de todos os seus amigos. Alexandre contraía os músculos faciais ao recordar aqueles dias. O desgaste emocional foi tão grande que levou André mergulhar numa profunda tristeza. Mas hoje voltara a sorrir. O relinchar do cavalo branco despertou Alexandre das lembranças, estava a postos para a montada.
Era preciso ajudarem o rapaz a subir para o seu dorso. André ainda se encontrava com poucas forças nas pernas, mas amparado pelo padrinho, rapidamente ocupou o seu lugar na sela. Envolvido pela doce fragrância da felicidade André deu início ao passeio.
Tomé permaneceu na cerca a conversar com o Dr. Mauro. Contava-lhe que devido ao acidente do afilhado, descobriu a sua verdadeira vocação.
- Assim que a guerra termine vou inscrever-me numa boa escola e tirar o curso de Fisioterapeuta – disse com convicção.
O Dr. Mauro ficou encantado com a ideia, e dispôs-se a ajuda-lo no que fosse preciso.
Ao mesmo tempo que os ouvia, bailava na mente de Alexandre aquele versículo: “Esperei com paciência no Senhor, e ele se inclinou para mim, e ouviu o meu clamor”. Sorria enquanto saboreava cada palavra …
Os ventos, que tempos atrás ditaram a entrada do país em guerra, anunciavam que a mesma se aproximava do fim.
E ele aguardava pacientemente que assim se confirmasse.
Ao longe e a galope no seu cavalo branco, André expulsava os medos e as dores que o atormentaram durante os últimos meses.
Ao mesmo tempo, no céu, um enorme bando ondulante agitava-se em direção à quinta. Em animados voos picados, aquelas pequenas aves vinham anunciar a toda a aldeia a chegada de uma nova estação.

Florbela Ribeiro®
O Conto "O Cavalo Branco" recebeu o 2ª Prémio no I Concurso Literário Nacional, promovido pelo CNO da Escola Secundária com 3º CEB da Gafanha  da Nazaré em  25/05/2012.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Afectos


Afectos

Aspiro
o pano bordado
por tuas mãos
e cada ponto foi
a sólida sílaba
de um poema
Teresa Rita Lopes

*
PS: Dedicado à Minha Mãe


Poul La Cour



"Não há liberdade, há libertação."
Poul La Cour

terça-feira, 8 de maio de 2012

Harmonia Interior


Harmonia Interior
Aprendi a lidar com o tempo
a saber esperar
ainda que a espera seja longa
Aprendi a saborear a ausência
volátil
da essência interior
Aprendi a harmonia do relógio
a marcar silêncios.
Eduquei-me.
Florbela Ribeiro

domingo, 6 de maio de 2012

Abençoado Dia para todas as Mãe


Tão-somente guarda-te a ti mesmo, e guarda bem a tua alma, para que não te esqueças das coisas que os teus olhos viram, e que elas não se apaguem do teu coração todos os dias da tua vida; porém as contarás a teus filhos, e aos filhos de teus filhos;
Deuteronômio 4:9


Eis que os filhos são herança da parte do Senhor, e o fruto do ventre o seu galardão.
Salmos 127:3


Vós, filhos, sede obedientes a vossos pais no Senhor, porque isto é justo. Honra a teu pai e a tua mãe (que é o primeiro mandamento com promessa), para que te vá bem, e sejas de longa vida sobre a terra.
Efésios 6:1-3

MENSAGEM PARA UMA ADOLESCENTE