domingo, 22 de abril de 2012

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Quem se defende





Privatizaram a sua vida, o seu trabalho, a sua hora de amar e o seu direito de pensar.
É da empresa privada o seu passo em frente,
o seu pão e o seu salário.
E agora descontentes, querem privatizar o conhecimento,
a sabedoria, o pensamento, que só à humanidade pertence.
A corrente impetuosa é chamada de violenta
Mas ao leito do rio que a contém
Ninguém chama de violento.
A tempestade que faz dobrar as bétulas
É tida como violenta
E a tempestade que faz dobrar
O dorso dos operários na rua?
Quem se defende porque lhe tiram o ar
Ao lhe apertarem a garganta, para este há um parágrafo
Que diz: ele agiu em legítima defesa mas
O mesmo parágrafo silencia
Quando vocês se defendem porque lhes tiram o pão.
E no entanto morre quem não come, e quem não come o suficiente
Morre lentamente.
Durante os anos todos em que morre
Não lhe é permitido defender-se.
Desconfiai do mais trivial, da aparência singela.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como algo natural,
pois em tempos de desordem sangrenta,
de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.

Bertold Brecht

terça-feira, 10 de abril de 2012



AS PALAVRAS QUE ME ASSUSTAM

Ironia ou não as palavras assustam-me.
Por isso vacilo no momento de as largar
Porque me pertencem
Receio as leituras erradas que possam delas,
e com elas fazer
Mas os gestos, os olhares,
as expressões faciais,
os sorrisos,
largo-os instantânea
e destemidamente
Só as palavras é que não!
Florbela Ribeiro