sábado, 23 de abril de 2011

Chopin - Notturno in Do# minore








SONETO DEL AMOR VICTORIOSO

Ni el tiempo que al pasar me repetía
que no tendría fin mi desventura
será capaz con su palabra obscura
de resistir la luz de mi alegría,
ni el espacio que un día y otro día
convertía distancia en amargura
me apartará de la persona pura
que se confunde con mi poesía.
Porque para el Amor que se prolonga
por encima de cada sepultura
no existe tiempo donde el sol se ponga.
Porque para el Amor omnipotente,
que todo lo transforma y transfigura,
no existe espacio que no esté presente.

Francisco Luis Bernárdez

quinta-feira, 21 de abril de 2011

PÃO



















PÃO



Tem a forma da bondade.

Quão pacientemente aguarda

na

tábua de madeira.



Com felicidade esperando o rápido veredicto,

uma

faca no dorso

ou ser fatiado em pedaços.



O mundo inteiro é um

pão.

Morde-o

como se ele fosse o corpo do filho único de Deus.



Vá,

avança e fá-lo,

quebra a crosta

e o silêncio cairá.



O silêncio do

principio,

Ah, o silêncio ardente

enquanto o mundo

acaba.



MILAN DJORDJEVIĆ

Saxophone Music Wind Beneath My Wings

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Aprendi a viver com simplicidade




















Aprendi a viver com simplicidade



Aprendi a viver com simplicidade, com juízo,

a olhar o céu, a fazer as minhas orações,

a passear sozinha até a noite,

até esgotar esta angústia inútil.



Enquanto no penhasco murmuram as bardanas

e declina o alaranjado cacho da sorveira,

componho versos bem alegres

sobre a vida caduca, caduca e belíssima.



Volto para casa. Vem lamber a minha mão

o gato peludo, que ronrona docemente,

e um fogo resplandecente brilha

no topo da serraria, à beira do lago.



Só de vez em quando o silêncio é interrompido

pelo grito da cegonha pousando no telhado.



Se vieres bater à minha porta,

é bem possível que eu sequer te ouça.



Anna Akhmatova

1912

quarta-feira, 13 de abril de 2011

A Nossa Arte


















A Nossa Arte


A arte de desenvolver os pequenos motivos para nos decidirmos a realizar as grandes acções que nos são necessárias.

A arte de nunca nos deixarmos desencorajar pelas reacções dos outros, recordando que o valor de um sentimento é juízo nosso, pois seremos nós a senti-lo e não os que assistem.

A arte de mentir a nós próprios, sabendo que estamos a mentir.

A arte de encarar as pessoas de frente, incluindo nós próprios, como se fossem personagens de uma novela nossa.

A arte de recordar sempre que, não tendo nós qualquer importância e não tendo também os outros qualquer espécie de importância, nós temos mais importância que qualquer outro, simplesmente porque somos nós.

A arte de considerar a mulher como um pedaço de pão: problema de astúcia.

A arte de mergulhar fulminante e profundamente na dor, para vir novamente à tona graças a um golpe de rins.

A arte de nos substituirmos a qualquer um, e de saber, portanto, que cada pessoa se interessa apenas por si própria.

A arte de atribuir qualquer dos nossos gestos a outrem, para verificarmos imediatamente se é sensato.

A arte de viver sem a arte.

A arte de estar só.



Cesare Pavese, in 'O Ofício de Viver'