quinta-feira, 31 de março de 2011

Flor do deserto (fragmento) - mutilação genital feminina.wmv



Sei


Sei
que o olhar
reflecte
o cansaço
de uma espera
inglória
e que as mãos
ocultam
com mágoa
as mágoas
e carinhos
de outrora.

Sei
que o corpo
permanece
inerte
ausente
infeliz
e que a boca
bebe
a saudade
de um trago
e abafa a náusea
do destino que diz.

Florbela Ribeiro

sábado, 26 de março de 2011

A ÁGUA


























A ÁGUA


A água não resiste.

A água corre.

Quando mergulhas nela a mão,

só sentes uma carícia

A água não é uma muralha sólida,

não te deterá.

Mas a água vai sempre para onde quer ir,

e nada, no fim,

pode nada contra ela.

A água é paciente.

A água a pingar desgasta uma pedra.

Lembra-te de que és metade água.

Se não puderes passar através dum obstáculo,

contorna-o.

A água fá-lo.


Margaret Atwood

Walk on water britt nicole

terça-feira, 15 de março de 2011

MEU PAI, MEU HERÓI






















Meu Pai, Meu Herói

Pai, recordo com tanta saudade os anos que já lá vão…
Sabes, uma das minhas brincadeiras predilectas era ensaiar os teus gestos, poder imitar-te.
Fazia os ensaios secretamente, por pura admiração.
Como eu amava a robustez e o vigor que emanavam de ti, a tua força e coragem eram minhas…
Lembras-te, Pai quando no teu regresso a casa me erguias do solo, me sustentavas no ar, por longo tempo, e perguntavas:
- O que vês aí em cima pupila minha?
De sorriso desenhado no rosto, a respirar alegria, respondia-te com a nossa frase de “guerra”:
- Vejo um mundo a conquistar, papá!
Riamos ambos. Nos teus braços ganhava asas. Eras o meu herói!
E por que os heróis nunca se cansam nem arreliam, tu nunca te mostravas afadigado nem zangado, nem mesmo naquele dia em que foste despedido…
Eu aguardava-te ansiosa, como sempre, ao fim da tarde, porque sabia que algures na algibeira trazias um mistério.
Era um tesouro escondido que eu adorava desvendar.
Esse tesouro podia ser uma flor silvestre, colhida a poucas centenas de metros de casa, ou uma simples pedrinha, brilhante, encontrada no caminho.
Tu sempre manejaste a simplicidade com arte e sapiência…
Os meus olhos encantavam-se pelo mistério na tua voz. A flor não era mais flor, nem a pedrinha, pedrinha.
Naquele dia trouxeste-me uma pequenina flor, um malmequer branco de corola cor-de-rosa. Era um malmequer do campo que, rapidamente, foi transformado em rainha, se fora pedrinha tê-la-ias, provavelmente, transformado na arcada de um castelo.
Nessa mesma noite vi-te chorar nos braços da mamã mas, ao pé de mim, foste outra vez herói, seguraste as vagas com bravura.
Os meses que se seguiram foram difíceis, as refeições tornaram-se mais leves que merendas, mas nunca faltaram os tesouros na tua algibeira nem as histórias, contadas, ao entardecer.
Hoje, os teus braços estão pesados, os gestos desconexos. As mãos com as quais me erguias no ar, repousam trémulas no teu regaço, e o vigor das tuas pernas ausentou-se para sempre.
Meu querido Pai os anos impiedosos, inverteram os papéis. O olhar terno e ansioso que aguarda por um regresso não é mais o meu. É o teu, meu herói!

Florbela Ribeiro®

Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o SENHOR teu Deus te dá.
Êxodo 20:12



Em antecipação ao dia 19 de Março, aqui fica a minha singela homenagem a todos os PAIS!

domingo, 13 de março de 2011





























Porque me cercaram as ondas de morte; as torrentes dos homens ímpios me assombraram.


O caminho de Deus é perfeito, e a palavra do SENHOR refinada; e é o escudo de todos os que nele confiam.


II Samuel 22:5-31











quinta-feira, 10 de março de 2011

Refugium


























Refugium


Na constância leal dos silêncios

o refugium

onde permaneço

descalça.

O solão que me acolhe

o espólio

e o gotejar da alma

em contrição.

Aqui aguardo

que o feixe prodigioso

me atinja

e arranque a nostalgia.



Florbela Ribeiro®

segunda-feira, 7 de março de 2011

Dia Internacional da Mulher





















Mulher, Mulher

O rosto é uma doce canção, as mãos firmeza

O corpo é fruto de dedicação, o espírito realeza.

Mulher é abrigo, vez em quando carência.

Vez em quando fútil, mas também essência.

Conhecê-la é destrinçar diariamente pequenos desafios
histeria, desequilíbrio, incerteza.

Mas é também navegar pelos seus rios
de serenidade, harmonia e beleza.

Em cada coração de mulher abriga uma menina
De sorriso azul rosado, bochechas de purpurina.

Por trás dos lábios vermelhos, um palpite
De frente para um espelho, reflecte-se Afrodite.

Somos todas, esse belo contraste não há uma única versão
De nome submissa, sobrenome indignação.

Somo cheias de defeito, somos mulheres de verdade
Com um guerreiro no peito e na alma a divindade.

(da)

sexta-feira, 4 de março de 2011

These hands



















These hands


These are the hands

that held me up high

higher and higher

till I touched the sky



These are the hands

that would lovingly wipe

the tears from my cheeks

When I fell off my bike



These are the hands

that would tickle my side

till I'd wiggle and giggle

and laugh till I cried



These are the hands

that dressed me up warm

they'd button and tuck

to keep me safe from the storm



These are the hands

that now need my care

as I bathe her and dress her

and brush her gray hair



These are the hands

that once were so mighty

they now need my help

to button her nightie



These are the hands

that I'm happy to hold

to keep her from harm

and to ward off the cold



These are the hands.....

"That taught me to love"






(Poem found on Google, I do not know to whom it belongs.)

Sin dolor , lily goodman

II Coríntios 1:3-5


As mãos




As mãos

Que tristeza tão inútil essas mãos

que nem sequer são flores

que se dêem:

abertas são apenas abandono,

fechadas são pálpebras imensas

carregadas de sono.



Eugénio de Andrade