quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

INTERLÚDIO




















INTERLÚDIO

Entre cozinhar e jantar

entre o dormir e o acordar



entre a seca e a monção

entre a fome e a profusão



entre o vestíbulo e a noite

entre as mantas e a pele nua



entre o exórdio e a narração

os argumentos e a peroração



entre o actor que sai

e o pano que sobre ele cai



entre as notas do grito

formadas na garganta do aflito



entre as fímbrias da eternidade

e a tua voz feita saudade



entre o tremor do leito

e o batimento do peito



entre o fluxo e refluxo da maré

o subir o cume e descer ao sopé



entre a mão que se abre e se cerra

para toda acolher a água e a terra



há sempre o momento de um desejo

para o fluido instante de um beijo





Poema de Rui Miguel Duarte
27/12/10

Mike Rowland Innocence

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Feliz Ano Novo





















Victor Hugo

Desejo

Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.

E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.

Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.

Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.

Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.

Desejo que você descubra ,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.

Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.

Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga "Isso é meu",
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.

Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.

E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.







Miguel Torga


Recomeça….

Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Dia de Natal

























Dia de Natal


Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros - coitadinhos - nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso anti-magnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de kilowatts,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha~se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra - louvado seja o Senhor! - o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus,
doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está! 

E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

António Gedeão

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Há uma Primavera...

























Há uma Primavera em cada vida:
é preciso cantá-la assim florida,
pois se Deus nos deu voz,
foi para cantar!
E se um dia hei-de ser pó,
cinza e nada
que seja a minha noite uma alvorada,
que me saiba perder
para me encontrar...

Florbela Espanca

sábado, 11 de dezembro de 2010

Enya - Spirit of Christmas Past - Reflexão




Véspera de Natal


Um dia igual a tantos outros, ou talvez não
Observem o que cidade transmite aos nossos olhos:
Sombras que deslizam e máquinas que correm
Para a sua própria glória.
Os cotovelos das pessoas têm pressa
E os passeios são buracos de agulha
Para um vaivém constante.
Entre os cumprimentos de cortesia habitual,
Trocam-se os votos de um Feliz Natal.
E eu, seguindo à risca o rito,
Repito a saudação que à D. Gertrudes cabe
- Vendedora do mercado para lá de quarenta anos,
Que em resposta diz que a celebração jamais será feliz.
Intrigada, paro mesmo ali, na torrente da calçada
E fito-lhe o rosto envergonhada:
- Meu Deus…como a pobre mulher envelheceu,
Ainda não me tinha apercebido que o sorriso
Deslumbrante
Que a cada manhã lhe emoldurava o rosto
E brilhava na praceta, então murchara
E no olhar outrora luzidio pairavam névoas...
Questionei a razão daquele desabafo
E a descrição que ouvi petrificou-me
O amigo e companheiro de jornada
Há 10 meses que a abandonara
E até o pequeno Tareco morrera
No mês passado atropelado
- São os desígnios do Alto… suspirou a conclusão.
Atónita, lamentei o sucedido e em seguida censurei-me:
- Como foi possível não me ter apercebido de nada
Em tantos meses?
Só que a agitação da vida é mesmo assim,
O constante corre-corre, não nos permite dar
Atenção a nada nem a ninguém...
Mas… será esta a verdadeira conclusão
Ou seremos antes nós que nos tornamos insensíveis
Á imprevista dor alheia?
Àquela dor que de tão perto nos rodeia
E que, por uma razão ou outra,
Não vemos ou nos recusamos a ver?
Sem mais delongas, abracei a sua mágoa
E esqueci-me da pressa
Dos compromissos, das horas marcadas
Da vida, da minha própria vida
E de consciência desperta e arrependida
Despi-me do meu hábito usual
Despojei-me da hipocrisia
Até do comodismo,
Da indiferença
E da apatia…
E choramos unidas num abraço.
Ela, pelo infortúnio, pela saudade
Eu, de tristeza ao recordar o mandamento:
“Ama o teu próximo como a ti mesmo”.
Quebrantada e arrependida agradeci a Deus
Que na Sua misericórdia excelsa
E imérita bondade
Fizera renascer em mim
O espírito verdadeiro do Natal.

♥♥
Florbela Ribeiro

♥♥

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Fio d'água


















Fio d'água
Não quero ser o grande rio caudaloso
Que figura nos mapas.

Quero ser o cristalino fio d’água
Que canta e murmura na mata silenciosa.

Helena Kolody

sábado, 4 de dezembro de 2010

Pedido especial de Natal





















Pedido especial de Natal


Junto ao portão da escola, Ana aguardava pela chegada das suas duas amigas, Catarina
e Jéssica. As três mosqueteiras, como gostavam de ser chamadas, tinham agendado encontrar-se na véspera. O ar taciturno com o qual a jovem as recebeu, intrigou-as.
- O que é que tens, Ana? – perguntou Catarina – Só estamos atrasadas 5 minutinhos.
- Eu sei – respondeu melancólica.
- Ah bom… Mas então porque é que estás com essa cara? Estás doente?
A sua expressão deixou-as preocupadas porque, das três amigas, Ana era a mais
optimista e bem-humorada, mas hoje…
- Porque odeio esta quadra de Natal! – disparou ela de imediato.
- Uau! – exclamou Jéssica – “odeio” é uma palavra demasiado forte, não?
- Perguntaram, respondi – resmungou Ana.
- Ok, ok… já vi que hoje estamos de mau humor – atalhou Catarina – Mas podes dizer-nos porque motivo odeias o Natal?
- Pessoalmente acho esta quadra tão linda, tão cheia de cor, de luz, de aromas… – disse Jéssica.
- E quanto tempo dura tudo isso? Um mês, dois? O ano é composto por doze meses meninas… As pessoas aproveitam esta quadra para se fazerem de boazinhas, e depois?
- Hum… vejo que estás revoltada com alguma coisa – conclui Catarina.
- Ou com alguém, acertei? – quis saber Jéssica.
- Talvez… A hipocrisia irrita-me profundamente e se isto acontece comigo imaginem com Deus.
- A mim também me irrita mas não adianta nada ficares com esse ar assim… amuado – disse Catarina com cautela.
- Acham que o nascimento de Jesus Cristo é para ser celebrado apenas uma vez no ano, ou é para ser celebrado nos 365 dias? Nos gestos, nas atenções, no carinho e no amor ao próximo? O Natal não é uma troca de embrulhos, não é comida, nem roupas novas.
- Eu sei… e pensando bem tens razão. Mas é uma tradição tão bonita – disse Jéssica.
- Não gostas de receber presentes, roupas novas, ter a família reunida à volta de uma mesa cheia de coisas deliciosas? Hum… eu gosto! – admitiu Catarina.
- A família reunida à volta de uma mesa, dizes bem. E durante o ano, onde está a família? Ah já sei, quando preciso de falar com o meu pai ligo para o telemóvel. Se não estiver muito ocupado atende-me e depois, dependendo do tom de voz, partilho, ou não, o meu problema com ele. A minha mãe coitada, anda sempre tão atarefada que mal me vê… só tem olhos para o relógio…nunca tem tempo para nada.
- Mas isso é sempre assim? - perguntou Catarina de olhar arregalado - Vocês não se juntam à hora do jantar todos dias?
- Não. Cada um tem o seu horário e as suas responsabilidades… e elas não coincidem. Só em datas especiais, como esta.
- Percebo. Felizmente não vivo a mesma situação. Os meus pais preocupam-se em reunir a família à noite, para saber como nos correu o dia, salvo raras excepções, claro.
- As excepções também acontecem na minha casa, mas ao contrário da tua. É como o povo diz: “Quando o rei faz anos”.
- E é por isso que estás assim?
- Os meus pais perguntaram-me esta manhã o que desejava como prenda neste Natal.
- E o que pediste para este ano?
- Nada!
- Oh, então. Nada? Tens a certeza que não queres mesmo nada? – insistiu Catarina.
- Tenho! A certeza absoluta. Não quero presentes, não quero roupas, nem livros, nem jóias, nem calçado, não quero nada, excepto…
- Ah… ah! Eu sabia. – Ana sorriu ao ver a reacção da Catarina.
- Ex-ce-pto – repetiu pausadamente – a presença e o amor dos meus pais e irmãos durante o ano inteiro!
- Pois, percebo… é disso que sentes falta não é? – Catarina envolveu a amiga carinhosamente num abraço. Gostava tanto dela e custava-lhe vê-la sofrer. Não era a primeira vez que ela partilhava o seu problema com as amigas. Não sofria de carências materiais, não lhe faltava conforto nem as regalias próprias da sua idade, mas sofria da falta de afectividade, de solidão e abandono. E a situação vinha-se agravando ao longo dos últimos tempos. Faltava-lhe amor, atenção, carinho, enfim… faltava-lhe aquela ternura tão essencial no dia-a-dia.
- É. Sei que será complicado receber este presente. A agenda dos meus pais anda sempre tão super-lotada com reuniões, compromissos. Mas eu só quero a presença da minha família, mais nada.
- E qual foi a reacção deles? – quis saber Catarina.
- Não disseram nada, apenas vi que os seus olhos ficaram marejados de lágrimas. A minha mãe teve mesmo de virar a cara para o lado, para que eu não a visse chorar.
Jéssica, escutava aquela conversa silenciosa.
- Então isso quer dizer que eles reconhecem que estão a falhar. Isso parece-me um óptimo sinal – afirmou Catarina
- Achas mesmo? – ironizou a jovem.
- Eu sei bem do que falas, Ana – interrompeu Jéssica – ainda não há muito tempo que na minha casa se vivia a mesma situação.
- A sério? – perguntaram as duas amigas em uníssono.
- Sim. Os meus pais viviam obcecados com a rentabilidade e o sucesso da nossa loja. Só se preocupavam em aumentar as vendas e os lucros. À noite tinham sempre reuniões com fornecedores para conseguir maiores descontos e melhores preços – Jéssica, nunca havia partilhado esta situação com as amigas.
- E tu e o teu irmão, como ficavam no meio de tanta azáfama? – quis saber Ana.
- Nós ficávamos praticamente sozinhos, largados ao abandono em casa – respondeu
Jéssica.
- Mas actualmente já não é assim pois não? – Catarina estava atónita com a revelação da amiga.
- Não. O meu irmão adoeceu gravemente, apanhou um vírus qualquer no sangue que o levou quase à morte. Mas sabem… Deus trabalhou no coração dos meus pais no meio da tribulação.
- Como assim? – perguntou Ana
- Contendeu com eles e despertou-lhes a consciência. Só nessa altura é que se deram conta do quanto estavam a ser negligentes para connosco. Só aí perceberam que a prioridade é sempre a família e nunca os negócios.
- É… Deus fala-nos de diversas maneiras. Com Amor, se somos sensíveis à Sua voz, se não… fá-lo através da dor – disse Catarina.
- Gostava tanto que os meus pais não tivessem que passar por uma experiencia semelhante à vossa – disse Ana com um suspiro.
- Disseste que os seus olhos ficaram marejados de lágrimas? – perguntou-lhe Jéssica.
- Disse…
- Acreditas em milagres? – perguntou novamente.
- Mas é claro que acredito – respondeu Ana com convicção para alegria das duas amigas.
- Pois então espera pela tua prenda de Natal.
- Eu tenho uma ideia – disse Catarina.
- Qual? – quiseram elas saber.
- Faltam 6 dias para o Natal, certo?
- Certo! – responderam ambas.
- Então vamos orar todos os dias sobre este assunto. Vamos pedir a Deus que contenda com o coração dos teus pais, Ana, e verás a transformação que Ele irá operar nas vossas vidas!
- Claro! Tal como está escrito, se não me engano, na carta de Tiago … “a oração feita por um justo pode muito em seus efeitos” – Jéssica recordou o versículo que as jovens aprenderam na Escola Dominical.
– É a altura perfeita, nesta quadra todos ficamos mais sensíveis.
- Vocês acreditam mesmo que algo pode mudar, não é verdade, amigas? – Ana não queria parecer ingrata ou incrédula, mas de facto sentia-se receosa.
- Para Deus não há impossíveis! – exclamou Catarina.
- Minha querida amiga não duvides, acredita que Deus vai dar-te esse presente especial – disse Jéssica, com muita segurança.
- A minha família… - Ana espelhava agora no olhar e no rosto a imagem da esperança.
- Sim! E agora andem daí, vamos todas celebrar o verdadeiro espírito do Natal!
- Vamos! – gritaram as três mosqueteiras com júbilo.
Com o laço da amizade fortalecido e os corações confiantes que o milagre ia acontecer, colocaram em marcha os planos, por elas, anteriormente traçados.

Florbela Ribeiro®

Amor

























Amor



Amor significa aprenderes a olhar para ti próprio,

Da mesma maneira que olhamos para coisas distantes,

Para ti és apenas uma coisa entre muitas.

E aquele que assim vê, cura o seu coração,

Sem o saber, de vários males -

Um pássaro e uma árvore dizem-lhe: Amigo.



Depois ele quer usar-se e às coisas,

De modo que permaneçam no brilho da maturidade.

Não importa se ele sabe o que serve:

Aquele que serve melhor nem sempre compreende.



Czeslaw Milosz

Estou Cansado


























Estou Cansado


Estou cansado, é claro,

Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.

De que estou cansado, não sei:

De nada me serviria sabê-lo,

Pois o cansaço fica na mesma.

A ferida dói como dói

E não em função da causa que a produziu.

Sim, estou cansado,

E um pouco sorridente

De o cansaço ser só isto —

Uma vontade de sono no corpo,

Um desejo de não pensar na alma,

E por cima de tudo uma transparência lúcida

Do entendimento retrospectivo...

E a luxúria única de não ter já esperanças?

Sou inteligente; eis tudo.

Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,

E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,

Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.



Álvaro de Campos, in "Poemas"

Heterónimo de Fernando Pessoa