quarta-feira, 21 de julho de 2010

Corpo-a-corpo
































Corpo-a-corpo


E postada assim frente ao oceano imenso e o céu infindo,
diante dos quais as palavras são meras palavras,
recordo o salmo que diz:
permanece em silêncio e conhecerás o teu Deus.
Vale dizer,
permanece em silêncio e apascentarás a tua dor,
porque na tua fé em teu Deus
encontrarás o consolo de todas as tuas mágoas,
de todo o teu pesar.
E te bastarás.


In: Corpo-a-corpo
Rio de Janeiro: Edições Antares, 1983
p. 56
Elisa Lispector

Silêncio



























Silêncio
Assim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que noutra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem.

Octavio Paz

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Ecos de silêncio








Ecos de silêncio


Insinuosas são

As marcas decalcadas

Nos espelhos da memória

Ecos rasgados

De um passado presente

Acometido por silenciosos

Escritos flutuantes

Sobre um céu de sílabas

Inacabadas.



Florbela Ribeiro®

terça-feira, 6 de julho de 2010

Somewhere I have never travelled







Somewhere I have never travelled



somewhere I have never travelled, gladly beyond
any experience, your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which I cannot touch because they are too near


your slightest look easily will unclose me
though I have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully, misteriously) her first rose


or if your wish be to close me, I and
my life will shut very beautifully, suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;


nothing we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility: whose texture
compels me with the colour of its countries,
rendering death and forever with each breathing


(I do not know what it is about you that closes
and opens; only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)

nobody, not even the rain, has such small hands

e.e. cummings