quarta-feira, 16 de junho de 2010

Conto de fadas



















Conto de fadas

Eu trago-te nas mãos o esquecimento
Das horas más que tens vivido, Amor!
E para as tuas chagas o ungüento
Com que sarei a minha própria dor.

Os meus gestos são ondas de Sorrento...
Trago no nome as letras duma flor...
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento...

Dou-te o que tenho: o astro que dormita,
O manto dos crepúsculos da tarde,
O sol que é de oiro, a onda que palpita.

Dou-te, comigo, o mundo que Deus fez!
Eu sou Aquela de quem tens saudade,
A princesa de conto: "Era uma vez..."

Florbela Espanca

terça-feira, 1 de junho de 2010

The Blessing: Celtic Woman

Em Louvor das Crianças

























Em Louvor das Crianças


Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e
simultaneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância.
A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados — a tais regressos se chama, às vezes, poesia.
Essa espécie de terra mítica é habitada por seres de uma tão grande formosura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e foi às crianças, como todos sabem pelos evangelhos, que foi prometido o Paraíso.
A sedução das crianças provém, antes de mais, da sua proximidade com os animais — a sua relação com
o mundo não é a da utilidade, mas a do prazer. Elas não conhecem ainda os dois grandes inimigos da
alma, que são, como disse Saint-Exupéry, o dinheiro e a vaidade.
Estas frágeis criaturas, as únicas desde a origem destinadas à imortalidade, são também as mais vulneráveis — elas têm o peito aberto às maravilhas do mundo, mas estão sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta, não diminui nem se extingue.
O sofrimento de uma criança é de uma ordem tão monstruosa que, frequentemente, é usado como
argumento para a negação da bondade divina. Não, não há salvação para quem faça sofrer uma
criança, que isto se grave indelevelmente nos vossos espíritos.
O simples facto de consentirmos que milhões e milhões de crianças padeçam fome, e reguem com as
suas lágrimas a terra onde terão ainda de lutar um dia pela justiça e pela liberdade, prova bem que não
somos filhos de Deus.



Eugénio de Andrade, in 'Rosto Precário'

(*) Um pensamento que merece uma reflexão....

Dia das Crianças... Todo dia!