sexta-feira, 23 de abril de 2010

O Esplendor






























O Esplendor


E o esplendor dos mapas, caminho abstracto para a imaginação concreta,
Letras e riscos irregulares abrindo para a maravilha.

O que de sonho jaz nas encadernações vetustas,
Nas assinaturas complicadas (ou tão simples e esguias) dos velhos livros.

(Tinta remota e desbotada aqui presente para além da morte,
O que de negado à nossa vida quotidiana vem nas ilustrações,
O que certas gravuras de anúncios sem querer anunciam.

Tudo quanto sugere, ou exprime o que não exprime,
Tudo o que diz o que não diz,
E a alma sonha, diferente e distraída.

Ó enigma visível do tempo, o nada vivo em que estamos!

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa


23 de Abril Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor

quinta-feira, 15 de abril de 2010

HOPE










































(Hope - Tela de George Frederick Watts, 1817)


HOPE


"A esperança é a maior

e a mais difícil vitória

que um homem pode ter

sobre a alma."

Georges Bernanos - França, 1888

O CHAFARIZ












O CHAFARIZ


Conheço de cor o caminho
Deste antiquus chafariz de prazer
O ler
E o escrever
Adoro palmilhar as letras
Cirandar palavras
Retorcer frases
Pespontar os pontos
Deambular nas reticências
Contornar as vírgulas
E bordar contos.


Florbela Ribeiro®

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Nunca vi um campo de urzes



























Nunca vi um campo de urzes

Nunca vi um campo de urzes,
Nunca vi o mar;
Mas sei como as urzes são
E posso as ondas imaginar.

Nunca estive no céu
Nem vi Deus. Todavia
Conheço o sítio como se
Tivesse em mãos um guia.

Emily Dickinson

Tradução
Manuel Bandeira

quinta-feira, 8 de abril de 2010

PERCEBI





















PERCEBI

Percebi que sinto falta de mim
É um sentimento estranho
Que me assalta nas imagens
Espelhadas de emoções

Admito com honestidade
Esta grande verdade
Mas como inverter a situação?

Responsável pelo que faço
Não faço
Ou impeço de fazer
Olho ao redor

A vida estagnada
Sobrevive à deriva
Aguarda um sinal no horizonte
Uma embarcação que passe
Que a resgate
E a conduza noutra direcção

Seja como for
O tempo esgota-se
O futuro apressa-se em chegar
Trazendo com ele expectativas possíveis
Ou inimagináveis

É inevitável
Mas cabe-me a mim
A decisão de mergulhar ou não
Nesse mar de vagas repentinas e nadar
Nadar até ao rumo certo
Até ao porto seguro
Para encontrar a minha essência
Sem miragens
Na certeza de que onde eu estiver,
TU estarás também.

Florbela Ribeiro®