quarta-feira, 31 de março de 2010

Proveniências






















Proveniências

A dor e a agonia não provêm
Do peso excessivo da cruz
Nem dos seixos irregulares
Que embaraçam a passagem
Nem da poeira
Invasora dos cinco sentidos
Nem da coroa de espinhos
Violentamente
Engastada na memória.
Nem do escárnio
Nem do ágil chicote
Que dilacera a carne
Dos membros entorpecidos
A dor e a agonia provêm
Dos corações empedernidos
E dos olhares incréus
Do mundo hostil.

Florbela Ribeiro®

terça-feira, 30 de março de 2010

Topadas da vida


























Topadas da vida


A vida é composta

Por malogros nas

Topadas

Tantos sonhos

Ideais

Com desvios

Miragens

Detalhes

E instantes

Cruciais

No registo da história

Feita com fluídos

Lacrimais.


Florbela Ribeiro®

segunda-feira, 29 de março de 2010

Moro na possibilidade









































Moro na possibilidade


Moro na possibilidade
Casa mais bela que a prosa,
Com muito mais janelas
E bem melhor, com portas
De aposentos inacessíveis
Como são, para o olhar, os cedros,
E tendo por forro perene
Os telhados do céu
Visitantes, só os melhores;
Por ocupação, só isto:
Abrir amplamente minhas mãos estreitas
Para agarrar o paraíso.

Emily Dickinson

quinta-feira, 25 de março de 2010

A poesia...

O Pai Perdoa



















O Pai Perdoa


Escuta-me filho: estás deitado, dormes com uma mãozinha enfiada debaixo do rosto.
Os cachos do teu cabelo pendem-te sobre a fronte. Entrei sozinho e sorrateiramente no teu quarto.
Há poucos minutos, enquanto eu estava sentado, a ler o jornal na biblioteca, fui assaltado por uma onda sufocante de remorsos.
E ao sentir-me culpado vim até aqui para ficar ao lado da tua cama.
Andei a pensar em algumas situações, filho... e verifiquei que tenho sido intransigente contigo.
Hoje mesmo quando te preparavas para ir para à escola, ralhei contigo por não teres enxugado o rosto devidamente com a toalha.
Chamei-te a atenção por não teres limpo os sapatos.
Gritei furioso contigo por teres alguns dos teus pertences no chão.
Durante o pequeno-almoço impliquei com algumas coisas:
Derramaste cereais na mesa.
Não mastigaste bem a comida.
Colocaste os cotovelos sobre a mesa.
Exageraste na manteiga quando preparavas o pão para o lanche.
Começaste a brincar quando eu saía para o trabalho... viraste-te acenaste e disseste-me:
"Até logo paizinho!" - eu franzi o sobrolho e como resposta disse-te:
"Endireita-me esses ombros!"
À tarde não fui diferente.
Voltei e, quando me aproximei de casa, vi-te ajoelhado a jogar com os berlindes.
Tinhas as meias rasgadas e eu humilhei-te diante dos teus amiguinhos, fazendo-te entrar à minha frente em casa.
- As meias são caras, se fosses tu a comprá-las tomarias mais cuidado.
Um pai dizer isto!
Mais tarde, quando lia na biblioteca, tu procuraste-me timidamente com a mágoa impressa nos teus olhos.
Quando afastei o olhar do jornal, irritado com a interrupção, tu paraste à porta:
"O que é que tu queres?", perguntei implacável.
Não disseste nada, correste com ímpeto na minha direção, passaste os teus braços em torno do meu pescoço e beijaste-me;
os teus bracinhos foram se apertando com a afeição pura que Deus fez crescer no teu coração, a mesma que nenhuma indiferença consegue extirpar. Depois retiraste-te, e subiste os degraus da escada a correr.
Bem, meu filho, não passou muito tempo até que os meus dedos afrouxassem, o jornal escorregou por entre eles, e um medo terrível e nauseante tomou conta de mim.
O que o hábito estava a fazer comigo?
O hábito de ficar atento aos teus erros, de fazer reparos e reprimendas - era essa maneira que eu te recompensava por seres uma criança.
Não é que não te ame; o facto é que eu espero demais da juventude.
Eu avalio-te pelos padrões da minha própria vida.
E há tanto de bom, de belo e de verdadeiro no teu carácter.
O teu coraçãozinho é tão grande quanto o sol que entra pela janela.
Mas eu só percebi isto pelo teu gesto espontâneo, quando correste para me dar um beijo de boas noites. Nada mais me importa nesta noite filho.
Entrei na penumbra do teu quarto, e ajoelhei-me ao lado de tua cama, envergonhado!
É uma expiação inútil; se estivesses acordado, não compreenderias estas coisas.
Mas amanhã serei, para ti, um pai de verdade!
Serei teu amigo, sofrerei quando sofreres, rirei quando rires.
Morderei a língua quando as palavras impacientes quiserem sair da minha boca.
Irei dizer e repetir, como se fosse um ritual: "Ele é apenas um menino – o meu menino!"
Receio que te tenha visto como um homem feito.
Mas, olhando-te agora, filho, encolhido e amedrontado no ninho, certifico-me de que és um bebé.
Ainda ontem estavas nos braços da tua mãe, com a cabeça deitada no seu ombro.
Exigi muito de ti.
Exigi muito.

W.Livingston Larned
(Adaptado por FR®)

Em vez de condenar os outros, procuremos compreendê-los.
Procuremos descobrir por que fazem o que fazem.
Essa atitude é muito mais benéfica eintrigante de que criticar; e gera simpatia, tolerância e bondade.
"Conhecer tudo é perdoar tudo"
"O próprio Deus, não se propõe julgar o homem até o final de seus dias".
Por que fazemos nós isso?

quarta-feira, 24 de março de 2010

O BELO E O FEIO, QUEM SABE ONDE ESTÁ?


























O BELO E O FEIO, QUEM SABE ONDE ESTÁ?

Um dia a Beleza e a Fealdade encontraram-se numa praia. E disseram uma à outra: Banhemo-nos no mar. Então, tiraram a roupa e puseram-se a nadar nas águas. E, após algum tempo, a Fealdade voltou à praia vestiu-se com os trajes da Beleza, e foi-se embora.

E a Beleza também voltou do mar, não encontrou suas roupas e, por vergonha de ficar nua, vestiu a roupa de Fealdade. E seguiu o seu caminho.

E de então até agora, alguns homens e mulheres enganam-se, tomando uma pela outra.

Contudo, alguns tinham visto a face da Beleza e a reconhecem, apesar do seu vestuário. E alguns conhecem a face da Fealdade, e as roupas da Beleza não a ocultam a seus olhos.

Gibran Khalil Gibran

domingo, 21 de março de 2010

DIA MUNDIAL DA POESIA




























"A Viagem"

Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).
Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.


Miguel Torga

sexta-feira, 19 de março de 2010

quinta-feira, 18 de março de 2010

PAI






















Pai
Eu preciso tanto de ti
Eu preciso sentir a cada dia
A força e a coragem
Que emana da nobreza do teu carácter
Eu preciso sentir
A sábia envolvência da tua voz
Os teus conselhos
A chave mestra
Com a qual me abres
O entendimento
E a visão
Para a realidade de um mundo
Sem artifícios.
Pai
Eu preciso tanto de ti
Do refúgio do teu colo
Do teu abraço que afugenta de mim
Tanto as mágoas como os medos
Pai
Eu preciso da ternura balsâmica
Que vertes sobre meus cabelos
Esse gotejar constante de afagos
Que me cura as feridas
E atenua as marcas
Que vida impiedosa me faz ao passar
Pai
Eu preciso tanto mas tanto de ti

Florbela Ribeiro®

Em antecipação ao DIA DO PAI, aqui fica a minha singela homenagem.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Carta à minha Mãe





























Carta à minha Mãe

Mãe, hoje regozijo-me
no teu eterno abraço.
Hoje limparei todas as tuas lágrimas.
Hoje, em ti tenho toda a minha alegria.

Mãe, em que dores me deste a vida!
E tantas as vezes que da tua por mim
abnegaste!


Mãe hoje sou eu que ao colo te pego,
como tantas vezes me acarinhaste.
E tantas vezes a vida para ti foi injusta!
Perdeste quem tanto amavas,
e tantas lágrimas derramastes!
Mas hoje não, não mais irás
sofrer!

Hoje sou eu que em ti afago o peito!
Hoje sou eu que te beijo, em grato carinho!
Hoje sou eu que quero tuas penas carregar!

Um dia irás partir...
Os anjos te esperam,
como os invejo!

Mãe hoje sou eu que quero a vida te dar!
Para que de mim nunca saías
Mãe hoje sou eu que te peço
que nunca partas!

Dulce Antunes

segunda-feira, 8 de março de 2010

EU, ESPELHO


























EU, ESPELHO

Eu sou
Tal como sou
O reflexo de mim própria
Não me imito
Reflicto
O que penso
O que sinto
O que vejo
Não vejo
E pressinto
Sou simplicidade
Sou verdade
Sem vaidade
Sem lamentos
Sou voz e silêncios.

Florbela Ribeiro®

quinta-feira, 4 de março de 2010

A tristeza






















A tristeza


Entra determinada
E instala-se

Actua indiferente
Ao querer e à vontade

Domina as acções
Os pensamentos

Arma rasteiras à razão
E ao sentimento

Banha-se no mar das emoções
Onde habita o desalento


Florbela Ribeiro