sábado, 31 de outubro de 2009

O auto-retrato



















O auto-retrato


Jéssica repousava a excessiva magreza do seu corpo cansado e doente. Na cama adornava a silhueta esguia com uma nobre e delicada colcha de linho, bordada à mão. Mas permitiu que o seu olhar baço pela dor se ausentasse dali.
Através da janela entreaberta, entrava uma brisa fresca, que fazia esvoaçar com subtil leveza a brancura da cortina de organdi.
Havia um sinal de que o calor intenso que se fizera sentir ao longo de quase todo o dia, começava finalmente a dar tréguas.
Em frente, e por cima da cómoda de carvalho maciço, o auto-retrato, pintado por um conceituado artista israelita, observava-a atentamente, parecia perceber quais os caminhos por onde vagueava o pensamento.
Percorria mentalmente as ruas e os becos, tantas e tantas vezes calcorreadas, para levar auxílio, cuidado ou simplesmente afectos.
Cruzaram-se com ela inúmeras histórias de vidas, onde a tragédia, sem ser convidada, batera à porta. Histórias que se mantinham bem presentes na sua memória, ao ponto de sentir a miscelânea de aromas provenientes daqueles caminhos, invadirem-lhe o quarto…
- Que saudade… – murmurou.
As gotículas que lhe desciam suavemente pelo rosto, não eram apenas saudade. Havia nelas muito de desespero, de desânimo, de amargura, e revolta, e toda essa mistura resultou numa rendição total.
O optimismo era uma das muitas qualidades na personalidade de Jéssica, mas nas circunstâncias actuais, tal era de todo impossível.
O destino desferira-lhe um duro golpe, ao traí-la daquela maneira.
Jéssica sabia que o seu fim se aproximava, e não havia nada, nem ninguém que a pudesse salvar.
Recuar no tempo, remexer nas memórias, era a única maneira de escapar à dura realidade. Era uma fuga momentânea, mas que amaciava, tal como um bálsamo, os golpes profundos, desferidos pela fatalidade.
Foi notório o brilho que por breves instantes lhe iluminou o rosto, ao recordar o apelido pelo qual o seu pai era conhecido na cidade:
- “ O VI-SI-O-NÁ-RIO” – soletrou baixinho.
Fora assim “baptizado”, depois de muito insistir na “loucura” de dar à sua filha Jéssica, a mesma educação que recebia todo e qualquer filho varão.
Uma opinião que foi prontamente contestada e encarada como absurda, além de uma verdadeira afronta para a cultura e a mentalidade da época.
Mas seu pai, possuidor de uma visão que via o futuro, asseverava que os rapazes e as raparigas deveriam ter direitos iguais, no acesso aos estudos.
- A mulher deve ser instruída, quanto mais não seja, para criar um lar mais acolhedor e atractivo para o seu marido e filhos. Isso não irá afectar em nada os seus afazeres domésticos, bem pelo contrário, irá valoriza-lo. Pensem nisso! – argumentava ele a plenos pulmões.
Era um dos homens mais respeitados da cidade, mas o seu prestígio não derivava da posição socioeconómica que ocupava, e sim da forma atenciosa e afável com que tratava toda a gente.
É claro que a juntar a este rol de qualidades, estava também o geniozinho com que defendia as suas convicções. E não abdicava delas a favor de ninguém.
- Nem a favor do Imperador – afirmou ele certo dia com ironia.
Ao ouvir a argumentação cerrada, e por vezes irada dos conservadores, estava sozinho, mas mesmo assim não desistiu.
- Mas que raio… – vociferou ele, no último debate – a filha é minha, portanto sou eu quem decide como é que ela será educada e ponto final!
Não conseguiu alterar as regras do sistema de educação, em benefício das raparigas, mas jamais permitiria que alguém se intrometesse na educação da sua filha.
A sua esposa Maria, Avi o seu primogénito e a sua filha Jéssica, eram os seus únicos apoiantes, e isso bastava-lhe.
O orgulho que aqueles três pares de olhos evidenciavam por ele, dava-lhe a força necessária para avançar.
E foi essa perseverança paterna que permitiu que Jéssica recebesse um ensino completo.
Com o passar dos anos Jéssica transformou-se numa mulher culta, inteligente porem sóbria. Mas tal como o seu pai, era determinada quanto às suas convicções e nem a timidez característica da sua personalidade a fazia recuar.
Jéssica possuía uma alma extremamente bondosa, que a impedia de ficar de braços cruzados diante dos problemas e das carências do povo.
Era movida pela compaixão, nutria um carinho especial tanto para com as crianças, como para com os doentes, os pobres ou necessitados.
Sofria ao ver uma mãe que agonizava na dor de perder um filho. Revoltava-se com o desprezo e o abandono que eram infligidos aos cidadãos mais vulneráveis. E com o regime governamental, onde as leis aplicadas eram cegas, imparciais e desumanas diante do sofrimento do povo.
A sua faceta solidária enchia de orgulho todos os membros da família e, rapidamente, tornou-se numa defensora acérrima dos mais carenciados.
Onde houvesse algum tipo de carência, aí estava Jéssica.
Prestativa e afável, auxiliava tudo e todos, o quanto podia, e sempre que a situação a transcendia buscava ajudas externas, sem poupar nem medir esforços. Deparou-se inúmeras vezes com situações delicadas e problemáticas, como crianças que perdiam acidentalmente os seus pais, ou que eram largadas ao abandonado, ou outras que eram maltratadas pelos próprios familiares.
Nas duas primeiras situações, e sempre que estas sucediam, ela não descansava até lhes arranjar um novo lar. Elegia casais impossibilitados de ter filhos, ou lares onde a desgraça se tivesse instalado, ao levar-lhes um filho.
Era uma maneira de atenuar simultaneamente dois sofrimentos de uma vez. E a garantia de que as crianças seriam mais facilmente acolhidas e bem cuidadas, era maior.
Cuidava igualmente dos idosos, prestava-lhes os cuidados básicos essenciais, principalmente quando se encontravam acamados. Para os mais activos e ainda saudáveis arranjava algumas actividades de modo a incorporá-los na sociedade. Uma maneira simpática e inteligente de fazer com que se sentissem úteis.
Também angariava bens de primeira necessidade, que distribuía pelos mais pobres e carentes. Recorria aos ilustres senhores da sociedade, mas contava com a preciosa ajuda da sua mãe. Era ela quem confeccionava os deliciosos almoços ou lanches, onde o requinte e sofisticação marcavam presença.
Era nesses encontros que Jéssica aplicava todo o seu potencial argumentativo com uma eloquência oratória de fazer inveja. Descrevia o sofrimento das histórias de vida com tanta clareza e pormenor, que os convidados ficavam com a sensação de estar diante delas.
Agora todos podiam finalmente comprovar que o seu pai tivera razão. A educação que Jéssica recebeu não a desvirtuou em nada, pelo contrário.
Obviamente que os mais tradicionalistas e conservadores não admitiam publicamente o facto de terem errado nas suas alegações, mas faziam-no em privado. Não foram poucas as vezes que, com palmadinhas nas costas, o felicitaram, pela preciosidade que tinha em casa.
O empenho e o dinamismo que Jéssica impunha em defesa das causas sociais, e no voluntariado, contribuiu para que a sociedade a olhasse com um profundo apreço e respeito.
A sociedade da época nunca se preocupava com os estados de miséria que a rodeava, nem tão pouco se sensibilizava com os problemas dos mais desfavorecidos.
Mas Jéssica era a excepção à regra, ela era sem dúvida uma alma fora do comum.
- Que razão tem o destino para ser tão cruel connosco? - perguntou Jéssica – dedicamos a nossa vida ao serviço dos outros, enquanto que a nós… ninguém ajuda.
Passava em revista todas estas lembranças, mantendo o olhar preso à imagem do passado, no seu auto-retrato. E ambas se interrogavam. A diferença que existia entre as duas era abismal.
A Jéssica actual não transparecia bondade, nem ternura, nem esperança. Não havia nela nada da mulher de outrora. Encontrava-se ressequida, tudo se esvaíra de dentro dela. Tudo menos aquela maldita enfermidade.
As últimas palavras que o responsável da equipa médica lhe proferira nessa mesma manhã, martelavam ainda na sua mente.
- Lamento muito, mas não há nada que possamos fazer por si.
Que ironia meu Deus.
- Não há nada a fazer – recalcava aquelas palavras sem desviar o olhar do quadro.
Não havia nada a fazer nem a ninguém a quem recorrer, e ainda que houvesse, ela já não possuía dinheiro nem bens.
A herança que os seus pais lhe deixaram e as poupanças que amealhou ao longo dos anos tinham sido gastas nas inúmeras consultas e tratamentos que fez. Bateu a todas as portas possíveis e imagináveis, desde médicos a curandeiros. E encontrou de tudo um pouco. Charlatães e vigaristas que lhe extorquiram tudo quanto puderam, em troca de falsas esperanças.
Outros, tal como o último médico, eram honestos, mas tinham os prognósticos desfavoráveis.
Dado que não havia mais nada a fazer, iria aguardar ali pelo inevitável desfecho.
Aguardaria com tranquilidade a chegada da morte, porque só ela tinha o poder para a libertar de todo aquele sofrimento.
Subitamente uma forte rajada de vento Norte invadiu-lhe o quarto, abrindo a janela entreaberta de par em par. A cortina era agora sacudida violentamente.
Desperta que foi dos seus pensamentos, Jéssica ergueu-se lentamente do leito para fechar a janela, mas não conseguiu.
As suas forças não eram muitas, mas o vento era realmente forte.
- De onde saiu este vento? – Jéssica esforçava-se ao máximo mas de nada valia.
Cansada, preparava-se para regressar ao leito quando ouviu vozes vindas da rua.
- O Nazareno vem aí! O Nazareno e os seus discípulos. Venham ver os milagres que opera. – anunciava uma desconhecida voz, ao percorrer a rua.
- Milagres? – repetiu Jéssica – não há milagres para quem está como eu condenada a morte. Milagres…
Reparou com espanto que o vento tinha acalmado por completo.
- Que estranho – pensou ao mesmo tempo que fechava a janela.
Aquela súbita rajada de vento que a obrigou a emergir dos pensamentos, a erguer-se do leito, e a impediu de fechar a janela parecia querer chamar a sua atenção.
- O Nazareno… já ouvi falar deste Nazareno – o nome não lhe era estranho – mas onde?
Sentada na beira da cama, Jéssica começou a revolver as suas memórias.
- Nazareno… Ah… já sei! É o filho de um carpinteiro de nome José. – recordou-se então de um velhinho muito doente, que tinha sido abandonado pelos filhos durante a festa da Páscoa. Ele contou-lhe que uns anos antes, pouco tempo depois de ela vir ao mundo, tinha nascido em Belém um bebé de nome Jesus, o qual se dizia ser o Messias aguardado e pelos profetas anunciado.
Esse velhinho estava convicto de que assim era, e antes de morrer disse-lhe que só Jesus, o Nazareno tinha poder para salvar a humanidade.
Depois disso ouviu vários relatos de milagres, mas nunca ligou. Estava mais preocupada em ajudar aqueles que dependiam do seu auxílio, porque se não fosse ela, passariam bem pior.
Jéssica era prática e objectiva, e não acreditava em fábulas ou contos. Tinha que ver para crer, e o que via era desgraça e tragédia.
E o povo aumenta sempre um ponto nos relatos que faz… quantos pontos não teriam sido já acrescentados desde a data do seu nascimento?
- Venham todos ver o Nazareno – a voz bateu-lhe com tanta força à janela que Jéssica quase caiu da cama, com o salto que deu.
- Santo Deus – soltou com a voz enfraquecida – o homem está doido.
Não lhe interessava para nada aquelas notícias, só queria ficar ali sossegada.
Já que ninguém tinha solução para o seu problema de saúde, ao menos deixassem-na morrer em paz.
Ou será que também não tinha esse direito?
Estava zangada com tudo e com todos, mas principalmente com a vida.
Deitou-se novamente sobre a cama e tentou adormecer. Não queria pensar em nada, nem nas lembranças. Apesar de balsâmicas também se tornavam dolorosas quando chegava a realidade.
Rendia-se por completo e agora achava mesmo que queria morrer, sim era isso.
- Quero morrer em paz e acabar de vez com este tormento que me persegue à doze anos. Já basta. – cerrou os olhos com força.
Aquela voz desconhecida, que momentos antes gritava pelas ruas, continuava a ouvir-se na mente.
Jéssica revirava-se de um lado para outro mas a voz permanecia ali.
Por fim, cansada de tanto se remexer, sentou-se na cama e fixou o olhar no auto-retrato.
- Queres explicar-me o que se passa? Porque razão não consigo dormir e morrer em paz? – questionou-se ela.
- Não estás a espera que eu me levante e vá atrás desse Nazareno, pois não?
Na imagem daquela que fora a Jéssica de outrora, transparecia o brilho característico da sua bondade. O seu sorriso, era todo ternura e esperança…
- Mau… – proferiu com um levantar de sobrolho.
Gerou-se um diálogo entre ambas… Jéssica e o seu auto-retrato, que só era perceptível através das respostas e perguntas que iam sendo proferidas por ela.
- Sabes bem o quanto estou cansada – disse – por isso não vou a lado nenhum.
- Sim, eu sei que já recorri a muitos sítios, por isso mesmo é que estou farta de acender a nossa lamparina da esperança, para depois ter de a apagar.
- Não insistas – disse num grito abafado pelas lágrimas que voltavam a cair-lhe com abundância. – Não vou, desiste… por favor!
Jéssica travava uma luta violenta. A sua esperança recusava-se a baixar os braços e contendia insistentemente com ela.
- Tu não vês como estou? – questionou por entre os soluços que a sacudiam – Acabaram-se-me as forças, o optimismo, o dinheiro, a coragem, a esperança… acabou tudo, tudo…
Enrolada sobre si deixou que as lágrimas que ainda lhe restavam, lhe lavassem as dores provocadas pela amargura e revolta que sentia.
Ficou assim durante tanto tempo, que acabou por adormecer.

O auto-retrato

(continuação)

Despertou ao som do chilrear alegre de um pássaro, que ela nunca ouvira antes.
- Que pássaro é este? – ergueu-se muito devagar, dirigindo-se de seguida para a janela do quarto. Abriu-a, lentamente, para não espantar o passarinho cantante.
- Uau! Que lindo – exclamou. Era uma ave pequena com a plumagem em tons de azul e cinza, e o peito era de um laranja fogo.
A ave parou de cantar e deixou que Jéssica a observasse, de seguida levantou voo e partiu dali.
- Nunca vi esta espécie de pássaros por aqui – comentou de si para si – Que estranho…
Ao retornar à cama prendeu o olhar no auto-retrato.
- Continuam os mistérios, não é? Será que tens razão quando dizes que devo ir ter com Jesus o Nazareno?
De repente soa da rua uma voz de criança que grita:
- Ele já chegou, ele já chegou!
Jéssica abeirou-se da janela e com a voz meio enfraquecida, e meio rouca, perguntou à criança:
- Quem é que chegou, rapazinho?
O miúdo olhou para trás e ao vê-la fez uma pequena careta, mas de imediato sorriu-lhe:
- Foi Jesus, o Nazareno. Chegou a aldeia e uma multidão já está lá para o receber, venha.
Aquele convite soou-lhe diferente, porém especial, tal como o semblante daquele rapazinho. Havia algo na sua expressão que ela não conseguia definir e, sem oferecer resistência respondeu:
- Sim, eu já lá vou ter. Obrigada.
- Vou estar à sua espera – disse a criança com um largo sorriso e desapareceu.
Não podia voltar com a sua palavra atrás, dissera ao rapazinho que ia e apesar de lhe custar imenso faze-lo iria cumprir com a palavra dada.
Regressou ao interior do quarto olhou para o quadro e disse:
- É verdade, ganhaste… eu vou lá – sorria ao dizer aquilo – o rapazinho diz que está lá uma grande multidão, mas eu creio que se tocar apenas na orla das suas vestes, serei curada.
Se o quadro pudesse expressar o seu espanto…
Havia anos que não se via aquele brilho no rosto de Jéssica. Essa era uma das razões porque não havia um espelho naquele quarto, nem ela suportava olhar para a sua decadência gradual.
Mas algo mudara em Jéssica, havia um renascer de esperança, vindo não se sabe de onde, mas também não era importante.
Foi com algum custo que Jéssica se preparou para sair, mas antes ainda olhou para o quadro, com o dedo indicador apontado e disse:
-Fica desde já a saber que esta é a última vez que te dou ouvidos. A última!
E saiu, batendo a porta atrás de si.
A movimentação nas ruas denotava que algo de anormal se passava. As pessoas falavam e gesticulavam de modo exagerado e nem a cumprimentavam de tão distraídas que iam.
Durante o trajecto ouviu que a filha do príncipe da sinagoga, de nome Jairo, estava às portas da morte. Diziam que Jairo pretendia que Jesus fosse até sua casa para curar a menina.
- Se até o príncipe da sinagoga crê que Jesus pode curar a sua filha, fazendo um milagre, então também me poderá curar a mim – disse Jéssica de si para si com renovada esperança e maior convicção.
O resto da viagem pareceu-lhe uma eternidade, queria tanto ver esse Jesus de perto e poder tocar na orla das suas vestes…
Mas ao chegar lá, deparou-se com um tremendo obstáculo. A multidão que cercava Jesus era tanta que ela nem conseguia visualizá-lo.
- Se não consigo vê-lo, como vou poder aproximar-me e tocar-lhe? – o desânimo voltava a instalar-se.
- Vai desistir agora? – era o rapazinho, que a observava de cima do telhado de uma casa – Vai desistir agora? – insistiu ele sem desviar os olhos do rosto de Jéssica.
- Achas-me capaz de desistir assim tão facilmente? – perguntou ela tentando aparentar uma coragem que não tinha.
- Claro que não. Quem desiste não alcança vitória!
- Exactamente – anuiu Jéssica.
Olhou a sua volta na tentativa de encontrar uma brecha para chegar até Jesus, e como não conseguia ver, resolveu perguntar ao rapazinho. Ele de cima do telhado poderia ajudar a escolher o melhor trajecto.
Mas quando se voltou para o lugar onde este se encontrava, já ele tinha desaparecido.
- Que rapazinho estranho, aparece e desaparece como o vento.
Ao mesmo tempo que pensava no rapazinho misterioso, era engolida pela multidão que a apertava de um lado para o outro. Sem saber muito bem por onde ir, Jéssica tentava furar ora pela esquerda, ora pela direita, em direcção à voz que ela julgava ser de Jesus. O povo chamava o seu nome, suplicando por bênçãos e milagres, enquanto outras vozes tentavam acalmá-los mas sem sucesso.
A distância que a separava de Jesus, o Nazareno, não era muita, talvez umas dezenas de metros mas percorre-los foi uma autêntica maratona. Tão dolorosa como a que a história regista.
É visivelmente esgotada e no limite das suas forças que Jéssica, ergue o seu braço por entre o povo, e toca na orla do vestido de Jesus.
Ela sente de imediato, que a hemorragia que há doze anos a atormentava, estanca.
Mas Jesus apercebendo-se do que lhe sucedera pergunta:
- Quem é que me tocou? – gera-se de imediato uma enorme confusão, e um dos discípulos que o acompanhava, Pedro diz:
- Mestre a multidão que te cerca aperta-te e comprime, e tu perguntas quem te tocou?
- Sim, Pedro – respondeu-lhe Jesus – alguém me tocou, porque bem sei que de mim saiu virtude.
Jéssica fora apanhada, e sabendo que não podia ocultar-se, resolveu confessar:
- Fui eu Mestre – confessou-lhe Jéssica, enquanto se aproximava tremendo, e prostrando-se diante de Jesus, relatou-lhe toda a sua história.
Jesus ouviu-a atentamente, e também o povo que os cercava e que entretanto se silenciara.
A voz embargada de Jéssica denunciava com clareza a comoção, pela qual foi subitamente invadida.
O ar carregado de expectação ouvia atentamente o relato sucinto dos seus doze anos, e a forma como se abeirara de Jesus para receber a cura.
Não sabia que tipo de reacção, o seu atrevimento, iria merecer por parte de Jesus, o Nazareno, e por isso temia…

O auto-retrato

(continuação)

Foi com manifesta surpresa que ouviu Jesus dizer-lhe que tivesse bom ânimo, a sua fé salvara-a, podia partir em paz. Em sequência, o seu auxílio, ergueu-a do chão. Jéssica atónita e sem palavras, deixou que as lágrimas falassem por si.
Mas a desgraça rondava a multidão e não permitiu que houvesse celebração.
Abeirando-se de Jairo, um dos príncipes da sinagoga, comunicou-lhe que a sua filha tinha acabado de falecer.
O pranto instalou-se de imediato no meio da multidão agitada pela notícia.
Na posse do milagre, Jéssica albergava agora no seu coração toda a humanidade.
Jairo, visivelmente açoitado pela dor, exercia uma forte pressão nos seus maxilares. E um manto rubro cobriu-lhe subitamente as janelas da alma.
Jéssica observava o semblante de Jairo comovida, e sentiu uma dor implacável a trespassá-la também.
A voz revestida de compaixão, disse àquele pai que não temesse, mas cresse que a sua filha seria salva.
Jairo limitou-se a acenar em concordância com Jesus.
- É verdadeiramente um homem de fé – afirmou alguém do meio do povo.
Jéssica sentia-se exausta, o corpo suplicava-lhe por descanso mas o seu coração não o escutava. Em vez disso, juntou-se ao grupo que acompanhou Jesus e os discípulos até a casa de Jairo.
Era-lhe necessário saber o desfecho daquela história e conhecer mais do homem que a curará.
Durante o trajecto foram-se erguendo no ar nuvens de choro e pesar, mas as críticas ao comportamento de Jesus, o Nazareno, não se fizeram esperar.
- A menina podia estar viva se ele tivesse atendido ao pedido de Jairo. – dizia uma voz – e tanto que o pobre homem lhe suplicou para que fosse a sua casa. Eu ouvi!
- Sabes lá tu o que dizes mulher – ironizou outra – achas mesmo que o Nazareno possui assim tantos poderes?
Jéssica não se conteve diante de toda aquela incredulidade, e disparou:
- Hipócritas! Contemplastes os milagres com os vossos olhos, e já os maldizeis com o coração?
Os olhares silenciaram a sua descrença perante a questão pertinente.
O sol escaldante que se fazia sentir aquela hora do dia, incidia de forma impiedosa sobre os seus corpos cansados. E a poeira que, se erguia das passadas lentas da multidão, cobria com intensidade a visão daquele povo descrente.
- É a mulher do milagre que vimos a pouco – sussurrou alguém.
- Ah pois é… – exclamou uma voz – mas olhem… já nem parece a mesma.
Jéssica não tinha a menor noção da transformação que ocorrera no seu rosto.
Sabia o que acabava de suceder no seu corpo. O contínuo esvair de sangue, o mal-estar e aquela sensação de extrema fadiga, que a perseguiu durante doze longos anos, tinham desaparecido. Mas desconhecia que a palidez que antes lhe cobria as faces, se tinha igualmente dissipado.
- Um simples toque – disse Jéssica com o sorriso nos olhos – tudo aconteceu com um simples toque de fé.
- Como ousas afirmar com tanta convicção que estás curada? Acaso já to comprovou algum médico? – Jéssica apercebeu-se que aquela pergunta era feita com um único objectivo. Desacreditar a Jesus o, Nazareno.
- Vedes estas pedras do caminho? Assim sois vós e os vossos corações, duros e revestidos da imundície que vos cega o entendimento.
- Porque vos recusais a ver o que está diante dos vossos olhos? Ouvis falar dos prodígios e das maravilhas que o Mestre opera. Contemplais as mesmas, e ainda assim teimais em pedir mais provas? E tudo porque dais guarida á incredulidade.
Jéssica falava com uma autoridade e convicção fora do comum.
- Não será esta a filha do falecido visionário? – a pergunta era-lhe lançada por um homem de meia-idade. A sua roupagem denunciava pertencer aos principais da sinagoga.
Ouvira-a com atenção e, secretamente, admirou a eloquência defensiva daquela mulher.
- Sim, sou eu mesma – disse com manifesto orgulho.
Como era bom saber que alguém se recordava do seu pai...
- Faz muito tempo que ninguém sabia de ti, pensávamos que tinhas partido com o teu irmão para Jaffa. – denotava conhecimento sobre a sua família.
- A doença, que sobre mim se abateu durante mais de uma década, condicionou-me os movimentos. As minhas saídas restringiam-se, unicamente, na busca de cura.
- Compreendo – caminhavam lado a lado, em conversa aberta e sob os olhares atentos das carpideiras.
- Mas diga-me, conheceu o meu pai? – questionou curiosa.
- Sim, conheci. E ao ouvir a exposição acalorada das tuas convicções, pareceu-me estar novamente diante dele.
- O Visionário – pronunciou com tom subtil de provocação, e Jéssica sorriu – eu era um bom amigo do seu pai, e isso deu-me me o privilégio de escutar algumas das suas ideias mais avançadas.
- As mesmas que eu vou continuar a defender – assegurou ela prontamente.
Não restava a menor dúvida, aquela mulher era filha do famoso visionário.
A segurança, com que proferiu aquelas palavras, demonstrou claramente a sua origem.
- E faz muitíssimo bem, embora ache que as mentalidades continuam tão fechadas como há doze anos atrás.
- Não faz mal, elas hão-de abrir-se algum dia. Não podemos é baixar os braços quando temos a certeza de estar certos.
- Concordo. – estava fascinado com a força e a determinação que soavam de uma mulher aparentemente tão frágil.
O pranto intensificava-se à medida que se aproximavam da casa de Jairo. Os amigos e vizinhos aguardavam a sua chegada com o rosto manchado de dor.
Jairo percorreu o sinuoso caminho ao lado de Jesus, e a paz que dimanava dele acalmara-o.
Somente Pedro, Tiago e João entraram com o Mestre na habitação de Jairo.
O espírito irrequieto de Jéssica abeirou-se da entrada da casa, de onde pôde ver que a menina repousava o corpo sem vida nos braços inconsoláveis da sua mãe.
O ar encontrava-se impregnado de fluidos lacrimais.
Jesus aproximou-se da menina e pediu-lhes que não chorassem porque ela apenas dormia, não estava morta.
Ao ouvir as suas palavras, os familiares e amigos que se encontravam presentes no interior da habitação riram-se dele.
Eles sabiam melhor do que ninguém que menina estava realmente morta.
Jesus, indiferente aos seus comentários, ordenou-lhe que se retirassem dali, com excepção dos discípulos e os pais da criança.
Um após outro, foram saindo e reclamando contra o visitante.
Jairo não se deixou perturbar e, deu seguimento, à ordem do Mestre.
O vermelho que havia em seus olhos cruzou-se com a mulher que, pouco tempo antes, tinha sido curada pelo Nazareno.
Com um ligeiro movimento de cabeça e sem erguer a voz, pediu-lhe permissão para fechar a porta, ao que Jéssica anuiu.
Ninguém sabe o que aconteceu, mas não tardou muito a ouvir-se uma ruidosa manifestação de júbilo, vinda do interior da casa.
A expectação que se vivia cá fora era tanta como a ânsia de saber tudo quanto sucedia na casa de Jairo. Mas os corações aguardavam silenciosamente pelo abrir daquela porta.

O auto-retrato

(continuação)

Ao fim de um tempo, que lhes pareceu uma eternidade, surgem diante deles Jairo, sua esposa e… a menina.
A emoção apoderou-se dos corações amigos a qual por entre lágrimas de alegria e espanto, grita entusiasticamente:
- Milagre! Milagre!
Jéssica permanecia imóvel junto a ombreira da porta. Olhava aquela família e sentia a mesma comoção, que horas antes a invadira.
Bastou uma simples troca de olhar para gerar uma sintonia perfeita entre a pequena e ela.
- Alegrai-vos e celebrai connosco – convidou Jairo – porque onde abundavam o pranto e a dor, há agora abundante vida.
- Viva! Viva! – gritavam em uníssono.
O Mestre afastou-se, discretamente dali, juntamente com os seus discípulos, levando consigo a gratidão daquelas quatro almas.
Enquanto isso, o povo prosseguia com as manifestações de regozijo e na troca de abraços.
Era altura de Jéssica regressar a casa.
Tinha-se negado em dar ouvidos ao corpo que lhe suplicava por descanso, mas já nada a prendia aquele local. Era-lhe necessário recuperar do impacto, que toda aquela emotividade lhe causara.
O casal ao aperceber-se que ela partia, chamou:
- Mulher! Espera…
Com o corpo moído voltou-se na sua direcção:
- Sim… – respondeu ela.
- Não queres ficar um pouco mais para festejar connosco? - perguntou-lhe com amabilidade a mulher de Jairo.
- Gostaria muito de ficar, e agradeço o vosso convite – respondeu fixando-se na pequena – mas o cansaço pede-me que regresse a casa.
- É natural, o dia foi demasiado longo e cansativo – disse Jairo.
- Espera-te alguém? – perguntou-lhe a esposa de Jairo.
- Não, ninguém. – respondeu-lhe Jéssica com tristeza.
- E voltas cá? – perguntou-lhe a menina que entretanto largara a mão da mãe para se aproximar Jéssica.
- Se puder… volto – respondeu-lhe ao segurar-lhe nas suas mãozinhas delicadas – queres que volte?
- Quero, podes voltar amanhã?
Os olhos de Jéssica ergueram-se na direcção dos pais que assistiam a tudo.
- Será um prazer receber-te em nossa casa. – disse a mãe da pequena.
- Encontrarás as portas abertas como se fosses da família. – reforçou Jairo.
O olhar revestido de ternura envolveu a menina com um abraço, que prometia voltar no dia seguinte, mas antes disso, perguntou-lhe:
- Gostaria de saber o teu nome antes de ir embora. Queres dizer-mo?
- Sim, chamo-me Ana como a minha mãe – respondeu com um largo sorriso.
- Têm ambas um lindo nome, o meu é Jéssica.
- Também é lindo, não é mamã?! – todos sorriram perante a espontaneidade da pequena.
A vizinhança unia-se para elaborar uma ementa digna daquela celebração. As mulheres atarefadas combinavam entre si a preparação de saborosos manjares e doçarias. Ninguém se queria abster de participar num tão grande acontecimento. Jéssica despediu-se da família de Jairo com um sorriso no rosto.
- Se precisar de apoio para a sua causa, não hesite em procurar-me – gritou-lhe uma voz alegre do meio dos festejos.
Não conhecia o homem com quem trocara umas quantas palavras momentos antes, mas o facto de saber que este convivera com o seu pai, e manifestava apoio publicamente, agradou-lhe.
- Obrigada – agradeceu ao afastar-se.

O auto-retrato

(continuação)

Ao chegar a casa, direccionou-se de imediato para o quarto. Abriu a porta muito devagarinho, e espreitou sorrateiramente para dentro. Olhou para o auto-retrato e com um ar maroto estampado no rosto, disse:
- Vou tomar um banho para tirar toda esta poeira e já venho conversar contigo. Não saias daí, ouviste? – encostou a porta, para regressar algum tempo depois.
Envergava uma camisa de noite, branca, que a cobria até aos pés, tecida em linho puro mas com uma textura tão fina que mais parecia seda.
O cabelo solto e ondulado cobria-lhe por completo as costas, e decorava com simplicidade a maciez da sua veste. Saltou com agilidade e desenvoltura para cima da cama e olhou para o quadro.
- Ficaste zangada, foi? – perguntou ao soltar uma gargalhada – Eu estava a brincar contigo… é claro que tu não ias sair daqui.
- Antes de mais, quero agradecer a tua persistência. Ainda bem que me moeste tanto o juízo… e para demonstrar como te estou agradecida – dizia com o dedo indicativo erguido no ar - vamos remodelar a decoração do nosso quartito, que dizes?
Olhava em volta como que arquitectando na mente as alterações que tinha a fazer.
- Ah, eu sabia que ias gostar da ideia. É claro que primeiro temos de arranjar dinheiro, e para isso há que começar a trabalhar.
- É verdade – exclamou – recordas-te daquele espelho enorme que tínhamos aqui? Aquele que tu tanto gostavas, lembras-te dele? – o brilho do seu rosto coado, deixava transparecer uma mente em erupção.
- Amanhã de manhã vou buscá-lo aos arrumos, e depois vou ao campo buscar flores silvestres – ergueu o sobrolho em direcção ao quadro – sei que não são as tuas favoritas, mas verás como alegrarão o nosso quarto.
- Nada de exigências requintadas por agora… os lírios virão mais tarde.
Os planos e os projectos interrompidos pela doença invadiam em catadupa a mente alvoraçada. Queria retomar todas as actividades que foram embargadas pela enfermidade. O sofrimento pelo qual passara nos últimos doze anos, não lhe roubou a determinação, a jovialidade nem o vigor de outrora.
O auto-retrato revia com emoção a Jéssica de outros tempos.
- Viste como saltei para a camita? Já não preciso de me encolher… – iniciou o extenso relato, e partilhou com detalhe as emoções vividas:
- Sabes… hoje tomei consciência de uma realidade que nos passou completamente ao lado – disse num tom sério e compenetrado.
- Esquecemo-nos de viver a nossa própria vida – deitada sobre a cama, olhava agora para o tecto do quarto amarelecido pelo tempo.
- Não que me arrependa do que fiz, mas… aquela menina despertou-me um desejo tão grande de ser mãe…
- Já imaginaste o que é carregar dentro de ti o fruto de um grande amor? Colocá-lo no mundo, transportá-lo no teu regaço… ensinar-lhe as primeiras palavras, os primeiros passos…
- Achas que estou a delirar não é? – questionou-se ao fixar novamente o quadro – se calhar estou… A verdade é que se tivesse pensado nisso antes, não tinha conseguido ajudar tanta gente.
- Não me faltaram pretendentes mas tu bem sabes que nenhum deles me permitiria seguir o meu trabalho de voluntariado. Eram todos, umas cabeças duras… e se calhar agora também são.
- Pelo menos aquele homem de quem te falei há pouco, disse que as mentalidades não tinham mudado tanto assim.
De repente, ergueu-se da cama e disparou:
- Estás tonta ou quê? Olha que para a próxima não te conto nada… – parecia zangada com a ideia que o seu auto-retrato denunciou.
Zangada ou envergonhada…
- Nem pensar. Se algum dia o procurar será exclusivamente para solicitar algum tipo de apoio, como ele mesmo me ofereceu. E nada mais que isso, ouviste? Deixa-te de ideias tontas!
O sorriso expresso no quadro, denotava saber algo que ela própria se negava a admitir.
Enterrou novamente o corpo na delicada e nobre colcha de linho bordada à mão, estava extenuada física e psicologicamente.
Olhou a sua volta e recordou que 24 horas antes suplicara por sossego, enquanto aguardava a sua morte.
Mas aquele simples toque de fé nas vestes de Jesus o Nazareno, alterou o seu destino.
Iria seguir o Mestre, nome pelo qual o chamavam os seus discípulos, queria saber e conhecer mais da mensagem que anunciava.
Sentia que o voluntariado que antes fizera, estava incompleto. A humanidade precisa ver saciada a fome do corpo, mas também a da alma.
- Se de graça recebi, de graça vou dar… – disse por fim.
E sob o olhar atento do seu auto-retrato adormeceu.


Florbela Ribeiro
Outubro 2009

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Olhar os lírios do campo






















Aqui nos lírios do campo
e quanto campo, ondula
o vento às cores, um mar
inquieto, um mar
dentro da terra

De cá para lá, vai vem
de caules e corolas

Aqui estarão meus olhos
lavrando
como um barco.


J.T.Parreira

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

sábado, 17 de outubro de 2009

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

domingo, 11 de outubro de 2009

sexta-feira, 9 de outubro de 2009




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quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Boa Noite!

A Grandeza do Silêncio

















A grandeza do silêncio

O silêncio é doçura:
Quando não respondes às ofensas,
Quando não reclamas os teus direitos,
Quando deixas a Deus a defesa da tua honra.

O silêncio é misericórdia:
Quando te calas diante das faltas dos teus irmãos,
Quando perdoas sem remoer o passado,
Quando não condenas, mas intercedes em segredo.

O silêncio é paciência:
Quando sofres sem te lamentares,
Quando não procuras consolação junto aos homens,
Quando não intervéns, esperando que a semente germine lentamente.

O silêncio é humildade:
Quando te apagas para deixar aparecer teu irmão,
Quando, na discrição, revelas dons de Deus,
Quando suportas que tuas acções sejam mal interpretadas,
Quando deixas aos outros a glória da obra inacabada.

O silêncio é fé:
Quando te apagas, sabendo que é Ele quem age...
Quando renuncias às vozes do mundo para permanecer na Sua presença...
Quando te basta que só Ele te compreenda!

(Desconheço o autor)

terça-feira, 6 de outubro de 2009

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Há...
















Dia do Mestre / Professor














Expresso aqui o meu muito obrigada a todos quantos me têm ajudado a alcançar estrelas!
Flor

domingo, 4 de outubro de 2009