sexta-feira, 29 de maio de 2009

Derrama tua...

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quinta-feira, 28 de maio de 2009

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Carroça vazia


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sexta-feira, 1 de maio de 2009

Abençoado descuido




A Primavera chega à aldeia, ao som do chilrear que as aves trazem nos bicos sorridentes.
As flores, que desabrocham pelas bermas do caminho, perfumam a brisa suave que, delicadamente, também as beija ao passar.
É o renascer da natureza após um rigoroso Inverno.
Nesta época do ano, o Sol desempenha um papel muito importante na vida de Ana. Vai acordá-la todas as manhãs.
Mas para o fazer, tem de se esgueirar sorrateiramente, através duma pequeníssima frincha da janela do quarto de Ana.
De seguida, projecta sobre o seu rosto uma subtil luminosidade que a faz despertar.
É a envolvência daquele toque morno na sua pele, que a desperta e faz aflorar nos seus lábios um meigo sorriso.
É o seu jeito doce de lhe agradecer, porque é assim que ela gosta de acordar todas as manhãs.
Mas naquele dia isso não aconteceu.
Ana, ao pressentir uma fraca luminosidade entrar-lhe pelo quarto, ergueu-se imediatamente da cama.
Era necessário arrancar das paredes da casa os odores do último Inverno.
Lá fora, o rouxinol madrugador, desafiava os mais dorminhocos a despertar…
Ana abriu a janela de par em par, e respirou com sofreguidão o ar fresco daquela manhã primaveril.
- Que dia magnífico – pensou – excelente para realizar as tarefas que tenho em mente.
Olhou em volta, e no seu raciocínio arquitectou a sequência de todos os trabalhos. Estava tão entusiasmada que quase se esquecia de tomar o pequeno-almoço.
- Ana, Ana… tem calma contigo, mulher! O dia ainda mal nasceu, e antes de iniciares as tuas tarefas, precisas de fazer uma coisinha…
Era como que um ritual, do qual ela jamais abdicava.
As suas orações matinais estavam em primeiríssimo lugar mas… a excitação daquela manhã fez esquecer, ainda que por breves segundos, aquele precioso compromisso.
- Primeiro tens que conversar com o teu Amigo! - Era interessante observar a forma como se exortava. Fazia-o com simplicidade e com graça, revelando um espírito de reverência muito acima da média. Mas a concentração naquela manhã não foi muita… estava demasiado alvoraçada.
Articulou apenas algumas palavras de agradecimento, dirigindo de seguida o olhar até à cozinha. Não estava com apetite, mas iria precisar de energia, para colocar em prática a missão a que se tinha proposto.
Engoliu à pressa um pouco de leite, pegou numa maçã, e deu início aos trabalhos.
Ana é, por natureza, uma mulher prática e inovadora, que se recusa terminantemente a aceitar a rotina do dia-a-dia.
E sempre que faz a já habitual limpeza semanal na casa, gosta de alterar a decoração. Nem que seja apenas a troca de posição de um ou outro bibelô. Mas há sempre algo a denunciar que Ana passou por ali.
Esta característica não passa despercebida aos olhares vizinhos, que lhe tecem elogiosos comentários mas… existe na casa um objecto que provoca em todos, um torcer de nariz.
- Tens a casa sempre tão bonita e bem decorada Ana, mas aquele pote de barro ali, não dá com nada! – Ana limita-se a sorrir perante esta constante observação.
- Se vocês soubessem o que ele contém… – pensava.
Aquele pote era um enigma que todos tentavam descobrir, mas Ana dava-lhes sempre a mesma resposta. Um sorriso tímido, porém mudo.
Não faz muito tempo, que o Sr. José, merceeiro do bairro, lançou a seguinte aposta:
- O vizinho que conseguir arrancar alguma informação sobre o misterioso pote, e o que ele tem lá dentro, fica com a despesa do mês liquidada! Palavra de Zé da loja – Assegurou ele, mas o facto é que ninguém conseguiu arrancar-lhe nada. O mistério persistiu, e dava cada vez mais que pensar.
Passando para segundo plano estas lembranças, Ana arregaçou as mangas e, com determinação, lançou-se ao trabalho.
Iria dar uma reviravolta completa em toda a casa. Ela já tinha visualizado tudo na sua mente, e estava radiante com o resultado.
- A casa até vai parecer outra, oh se vai – pensou com um grande sorriso.
As horas passaram a correr, e Ana não parou um minuto. Lavou janelas, paredes, tectos, cortinas, carpetes, limpou os móveis, trocou-lhes a posição, e lavou as suas decorações. A tarde já ia longa, e Ana estava completamente esgotada, mas feliz. Por fim sentou-se no chão da sala, bem no centro, e olhou à sua volta.
- Está tudo exactamente como idealizei, estás de parabéns, Ana! – um sorriso de contentamento iluminava-lhe o rosto cansado.
- Oh não! – exclamou, erguendo-se num pulo. – Esqueci-me por completo de limpar o pote…. Que cabeça a tua, Ana – repreendeu-se ela, como já era hábito.
De repente, ouviu-se um grande estrondo…sprach!
- Meu Deus, oh meu Deus, isso não…. – as lágrimas caíam-lhe pelo rosto.
- O meu pote de barro…. Oh meu Deus e agora? – sem forças e completamente esmorecida deixou-se cair sobre os joelhos, na fina carpete, coberta de cacos.
Mas o pior foi ver aquele precioso líquido desaparecer-lhe diante dos olhos. Parte dele era absorvido pelo soalho, e outro evaporava.
Ana tentava desesperadamente agarrar aquele aroma, mas não conseguia.
- Como pudeste ser tão descuidada, Ana… Oh Meu Deus… todas as tuas poupanças, todo o teu investimento….
- Perdi tudo, tudo… – Ana reflectia agora a imagem do desespero e da desolação.
O pote de barro que tinha originado tanto mistério e alguma crítica… estava agora fragmentado pela carpete… e o unguento, que secretamente se encontrava nele guardado… erguia-se no ar, ao seu redor.
Através da janela da sala, que Ana mantivera aberta, entrava uma fraca claridade, que anunciava a chegada do anoitecer.
Do meio dela irrompeu uma voz:
- Ana, oh Ana, estás aí?
- Sim, tia Amélia, estou aqui – Ana estremeceu ao ouvir a voz da vizinha.
A tia Amélia é a moradora mais antiga da aldeia. Muito respeitada e admirada por todos, mantém, apesar dos seus 94 anos, um dinamismo e uma jovialidade fora do comum.
- Estou farta de bater à porta e não me ouviste! – os seus olhitos fitavam atentamente o semblante desfigurado de Ana.
- Desculpe, tia Amélia, estava ali mergulhada nos meus pensamentos, e não me apercebi que tinham batido à porta.
- Hum… mergulhada em lágrimas pelo que vejo.
- Sim… – respondeu Ana, com tristeza.
- Mas eu vim dar-te uma boa notícia, rapariga.
- Ai sim? – perguntou num fio de voz, que para os ouvidos cansados da Tia Amélia foi quase inaudível.
- Anda aqui à rua e diz-me o que vês? – Segurou-lhe com firmeza na mão, e puxou-a para fora.
- Mas tia Amélia, eu não estou em condições de… – mas assim que desceu a soleira da porta, reparou que os seus vizinhos estavam todos na rua.
- O que se passa aqui, tia Amélia? Porque estão todos na rua a esta hora?
Àquela hora, era habitual estarem já quase todos recolhidos em casa, principalmente as mulheres e as crianças.
Mas naquele fim de tarde não acontecia assim… estavam todos na rua: homens, mulheres e crianças, e… com os narizitos erguido para o ar.
- Não sentes este delicioso aroma? Está espalhado por toda a aldeia, até mesmo dentro das casas se sente de forma intensa.
- Ah! É o meu unguento, tia… fui tão descuidada – as lágrimas que teimosamente se mantiveram nos olhos, deslizaram novamente pelas faces pálidas.
- Achas mesmo que foste descuidada, Ana? - A voz da tia Amélia soou com tanta ternura que parecia abraçá-la.
- Fui sim, tia! Hoje, levantei-me bem cedo para fazer uma limpeza geral na casa, e com a correria nem me lembrei de almoçar. E depois…bem… depois eu estava a verificar se tinha tudo em ordem, e reparei que me esqueci de limpar o lugar onde tenho… onde tinha… o pote de barro.
- E o que aconteceu? – insistiu a tia.
- Creio que tive uma ligeira tontura quando me levantei apressada, talvez devido ao cansaço ou fraqueza, não sei bem. O facto é que o pote escorregou-me das mãos… e derramei todo o unguento.
- Vou dizer-te uma coisa que talvez te vá desagradar Ana, mas tu precisas de ouvi-la com muita atenção. – o semblante da tia Amélia estava agora carregado.
- Diga, tia Amélia… – nada do que lhe pudesse dizer, a iria magoar mais do que já estava. Ela já se recriminava tanto…
- Estás a ser demasiado egoísta Ana, e isso não é nada bom – Ana, arregalou os olhos até não poder mais.
- Eu, egoísta? Não estou a perceber, tia! Acabo de lhe dizer que perdi todo unguento, comprado com as minhas poupanças, e a tia diz-me que sou egoísta?
- Claro! Tu achas justo ter escondido este unguento delicioso somente para ti?
- E porque não, tia? O seu valor é elevadíssimo, e fui eu quem trabalhou para o comprar… era meu!
- Ai, ai, ai, Ana! Então tu não sabes que nós nunca devemos esconder as bênçãos que recebemos de Deus? As bênçãos são para ser repartidas com todos aqueles que nos rodeiam…
Repara como o teu descuido perfumou a aldeia… o seu aroma invadiu os quatro cantos do povoado, trazendo a vizinhança para a rua!
- E isso é assim tão bom, tia?
A tia Amélia sorriu ao ver a inocência estampada no rosto de Ana.
- É mais do que bom, minha filha, é maravilhoso! Não voltes a esconder as tuas bênçãos, mas reparte-as com os demais. Deixa que vejam em ti a diferença de teres uma dádiva especial…
O aroma deste unguento deverias tê-lo espargido à tua volta, deverias ter-te perfumado com ele, assim como perfumado a tua casa, e os que moram contigo, por isso é que eu disse que foste egoísta. Pensa comigo, Ana… que proveito teve esse unguento dentro do pote de barro? Nenhum… foi apenas uma vaidade pessoal, nem mesmo tu fizeste uso dele, e isso está errado.
- Ana, atenta bem para o que te vou dizer! Quando tiveres algo de valioso, seja uma bênção ou uma dádiva especial, permite que aqueles que te cercam se apercebam dela e a sintam através da tua felicidade. Só assim poderão desejar alcançar a mesma graça que tu.
- Recordas-te como foi quando encontraste a Salvação? Houve uma mudança na tua vida; o teu semblante mudou, a tua maneira de falar, de pensar e de agir mudaram radicalmente.
- Sim, tia, recordo perfeitamente, como poderia esquecer… – Ana sorria ao recordar o dia em que nasceu de novo.
- Percebes agora o que quero dizer? A tua salvação foi uma bênção visível a todos. Se assim não fosse, não terias tido um verdadeiro e real encontro com Deus.
- Então este meu descuido ao derramar o unguento, não foi uma tragédia? – perguntou Ana, tímida e muito apagada.
- Não, minha querida, eu diria até que o que aconteceu foi um abençoado descuido. – disse a tia, convictamente, com o olhar e as mãos erguidas para o céu.
- Um abençoado descuido… – Ana meditava naquelas palavras, enquanto a tia Amélia via que o seu semblante se ia abrindo – Um abençoado descuido...
Naquele dia, Ana aprendera uma grande lição.
Lição essa que ficaria gravada na memória de toda aldeia.
Anos depois, quase todos aqueles que estiveram presentes nesse fim de tarde, ainda retinham no mais fundo do olfacto, que num dia distante, de uma Primavera distante, pelo entardecer, a aldeia respirara a mais doce fragrância alguma vez sentida...
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Florbela Ribeiro