quarta-feira, 3 de setembro de 2008

O PRÓDIGO E O DINHEIRO


O PRÓDIGO E O DINHEIRO



Pai, dá-me a parte da herança que me pertence.

Lc. 15,11


Pequenina, mas insistente, como uma mosca –parafraseando o início de um conto de Albert Camus-, voando num espaço fechado, mantinha-se ainda a imagem do pai na mente do Pródigo.

Um rosto onde a alegria do sol resvalava nas rugas, fatigado e triste, um corpo curvado, avançando a custo, debilmente com a luz da manhã, parecendo querer alcançar o filho que partia.

Quando acordou, no dia seguinte, o Pródigo pensou nisso, mas o sol da nova cidade a detalhar a sua sombra na rua desconhecida, mas fervente de uma vida livre, cosmopolita, há muito desejada, fê-lo esquecer o pai e pensar no que haveria de fazer com o dinheiro da herança.


Era assim que começaria um conto sobre o Filho Pródigo, não fosse o caso de pretender tão-só pensar no peso que os bens da herança exerceram sobre o jovem e o influenciaram a deixar a casa paterna.

Do ponto de vista social, neste caso parece que o filho mais novo recebeu apenas dinheiro ou bens móveis. Era o que poderia reclamar o filho por lei, ao atingir a maturidade, quer entre os antigos romanos e os sírio-fenícios, como um costume, seguido também pelos judeus.

À parte a teologia evangélica da parábola do Pródigo, para a altura em que Jesus Cristo a contou, e depois a exegese sob o prisma da sotereologia (a doutrina da Salvação), seria uma parábola com um cunho de incontornável modernidade.

Jamais nas relações patriarcais semitas, um filho deveria ter tomado uma decisão tal de afrontamento ao pai, ao patriarca da família, exceptuando aqui, por exemplo, a história de Absalão e David.

Neste aspecto é uma história de ideias. Um filho que tomou uma atitude, por assim dizer, que ficaria entre o Édipo, que lhe era muito anterior, e Freud que viria quase vinte séculos depois.



Um Pródigo edipiano

As rupturas com o progenitor -sobretudo na segunda infância- são do foro do Édipo. Do mal-entendido que Sófocles criou, partindo da lenda, e não da figura mitológica que decifra o enigma lançado pela Esfinge. Como sabemos, na psicanalise é hoje um complexo, o complexo de Édipo.

O sentimento que temos perante a atitude do Pródigo é do completo desejo da ausência do pai, embora não da punção criminosa contra o progenitor, como é óbvio.

Não foi esse o objectivo da parábola, nada se nos revela antes do subconsciente, menos ainda do inconsciente do filho pródigo, quanto às razões contra o velho e bondoso Pai.

Jesus quer colocar ali a situação universal do homem-criatura de Deus que se revolta contra o Criador. Mas, na verdade, o jovem pródigo «rebela-se» contra o pai, porque este representa os limites, a educação patriarcal, a obediência, as regras e os valores do Lar.

O jovem tem uma errada ideia de liberdade. «E, poucos dias depois, o filho mais novo,ajuntando tudo, partiu» (Lc,15,13)

E a ausência do pai proporciona-lhe a realização dessa ideia de ser livre. Em casa, o desfructe da herança, digamos do dinheiro, estava marcado ainda pela presença do pai, na sua consciência representava limitações. Podia usar os bens herdados, mas não o livre arbítrio, a liberdade plena para os gastar. Os olhos do pai estavam em todo o lado, na percepção do filho. Por essa razão partiu.

Era preciso criar um abismo, e o filho pródigo fê-lo, moral e fisicamente. Não vejamos nisso nenhum desespêro sentimental, a comandar esse sentimento de fuga, havia o aspecto utilitário - o como poder gastar o dinheiro, sem embaraços morais. Havia também aqui o que a filosofia designaria por necessidade, isto é, o que deveria ser diferente para a rotina do Pródigo.

«Partiu... para uma terra longínqua e ali desperdiçou a sua fazenda, vivendo dissolutamente» (Lc, 15, idem ). Ao invés do irmão mais velho, que sempre serviu o pai, «sem nunca transgredir» (Lc,15,29).

Roland Barthes, filósofo da linguagem francês, escreve sobre as crianças des-socializadas pela pobreza; assim, apreciado a esta luz moderna, o filho pródigo desfamiliarizou-se, todavia ao contrário, pela riqueza, como tantos jovens do nosso tempo, submetidos ao relativismo moral, hedonismo e materialismo.


A vitória sobre Freud

A dúvida é com frequência uma coisa muito fria, muito pouco vitalizadora, a dúvida entre a razão e a vida, conforme observou Miguel de Unamuno. Mas as dúvidas do Pródigo foram redentoras, depois de ponderar atentamente os choques emotivos pelos quais passou, devido a sua atitude.

Ainda assim, no contexto social que a parábola também associa, o Pródigo foi impelido pelas necessidades. Faltou-lhe o dinheiro e ao faltar-lhe este, ficou sem horizontes. As memórias da sua infância, da adolescência e, por fim, da juventude, vieram-lhe à consciência. Lemos intertextualmente no Evangelho de Lucas, que não houve traumas a contra-pesar e a contradizer às boas recordações. Pelo contrário. Lembrou mesmo algo que evidencia um empregador moral e socialmente bom na figura do Pai.

«Quantos jornaleiros de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome». (Lc, 15, 17) .

E esse é, entre outras particularidades, o aspecto universal e maravilhoso da parábola, a substituição dos remorsos pelo arrependimento sincero. Tal arrependimento faz Deus esquecer o nosso passado.

Se na sua anterior fuga e saída de casa, a razão não razoável tomou conta da sua decisão, aqui funcionou o coração, foi atraído de novo ao pai, pela necessidade, é certo, mas necessidade de amor paterno.


O dinheiro

Necessidades provenientes de dificuldades financeiras são o antónimo do bem-estar.

No plano dos valores, o dinheiro é uma palavra com dois sentidos contrários, segundo um conceito das ciências da linguagem do citado Barthes. De significado contraditório, o dinheiro encontra de facto na Bíblia Sagrada respaldo para esse sentido contrário. Observado socialmente em alguns trechos bíblicos, noutros é ligado a um impróprio sentimento materialista que é a raíz de males para a humanidade.

«Porque gastais o dinheiro naquilo que não é pão?» (Is, 55,2), «E por tudo o dinheiro responde»(Ec ,10,19), «Porque o amor do dinheiro é a raiz de toda a espécie de males» (I Tm, 6,10).

Contra o dinheiro mal gasto, esbanjado, existem pelo menos dois moralismos, que contudo se opõem: o marxista e o cristão. Se um e outro parecem entrar na história que Jesus contou, será apenas pelo prisma de quem a ler modernamente. A moralidade é, por assim dizer, anterior à religião e à política, é ontológica. Está na origem do Ser e da Essência do mesmo. Mas influenciou o quotidiano do Pródigo, para além do âmbito da comparação espiritual que o Senhor Jesus Cristo realizou.

O materialismo do Pródigo é evidente, em detrimento da relação harmoniosa que teve e deveria continuar a ter com o Pai. O que havia na terra longínqua, não seriam o sol e o mar, tudo o que o seu país possuia.

Na terra distante, no estrangeiro, a razão da sua fortuna seria desconhecida. Ninguém lhe faria perguntas, a riqueza apenas existiria, enquanto comprava o bem-estar, em todos os sentidos, sobretudo os negativos. «Desperdiçou a (tua) fazenda com as meretrizes» (15,30) - foi a acusação do filho mais velho.

Mas o dinheiro, ou provém do mal ou do bem, não é anódino, não é indiferente. Nunca é incógnito, sem proveniência, sem raízes. A «fazenda» desperdiçada com trágica prodigalidade, ainda «era» do Pai.

Todavia se foi essa a relação que o fez partir, foi a mesma que se elevou quando já não havia bem-estar na sua mente. Sem dinheiro, manteve-se porém intacta a figura do Pai.

Esse é o grande mistério que a beleza da parábola do Pródigo também abre sob o prisma da teologia. Existe sempre no homem a marca divina, mesmo a despeito do materialismo simples ou do dialético e do humanismo ateu.


João Tomaz Parreira