domingo, 10 de agosto de 2008

Redemoinhos


Redemoinhos

A dor que me inundava naquele momento era indescritível.
Um redemoinho vindo ninguém sabe de onde, destruiu por completo a minha vida.
Arrombou subitamente a porta do meu lar, lançando para bem longe a quietude e a paz.
No rasto da sua passagem ficaram para além da dor, muitas outras aflições.
- Tinha ainda tanto para dar à vida…
- Sim…era tão jovem, mas a morte não escolhe idades.
Eram estes os comentários feitos durante o trajecto daquele cortejo fúnebre.
O coral de mulheres carpideiras, todas vestidas de negro, assemelhava-se a um quadro imaginário.
Era como se tudo aquilo não passasse de um sonho, ou melhor, de um pesadelo, onde eu não me enquadrava.
- Está em estado de choque a pobrezinha – diziam algumas vozes amigas.
- Não admira, sendo ainda tão nova, e os meninos tão pequenos… que Deus tenha misericórdia dela…
O eco das suas vozes chegava até a mim como algo estranho e irreal…
Seria de mim que falavam? Era o meu infortúnio que lamentavam?
Desgraçadamente era, mas a dor do momento deixou-me completamente anestesiada.
Não recordo ainda hoje com clareza o trajecto, e as palavras proferidas por Eliseu na cerimónia fúnebre de Ami.
Lembro-me, isso sim, de regressar ao meu lar com o corpo dorido até as entranhas…
Mas sem lhe dar descanso, vagueei toda a noite pela casa como uma moribunda, percorrendo com o olhar cada recanto.
Revivi em cada um, belos momentos passados com o meu Ami, e chorei amargamente a minha perda. Permaneci porém, por longos dias, com as janelas da minha alma abertas, como que aguardando a sua chegada. Mas o meu amor nunca mais voltou…
Aos poucos, fui despertando daquela nostálgica apatia em que inconscientemente mergulhei, e confrontei-me com a minha nova realidade. E que dura realidade aquela, meu Deus...
A morte de Ami veio sem aviso prévio. Via-me agora sozinha, com duas crianças pequenas que precisavam urgentemente de mim. Noam tinha 5 anos e Zamir acabara de completar 8 primaveras.
Ami era um homem por natureza optimista e até um pouco sonhador, mas eu adorava ouvi-lo projectar as suas ideias e os seus sonhos para o futuro.
Ele tinha tantos planos…, mas o destino cancelou-lhos todos.
- Mamã, o papá vai demorar muito para chegar a casa? - Perguntou-me Noam com a voz cheia de ternura.
Os seus olhitos ansiosos aguardavam por uma resposta contrária aquela que o seu coraçãozinho lhe ditava.
- Vai meu amor – respondi-lhe esboçando um sorriso apático – o papá foi fazer uma longa viagem. Mas um dia nós vamos ter com ele, sim?
- Porque não vamos já mamã? – Perguntou amuado.
- Não podemos ir agora meu amor. – Magoou-me tanto ver a dor invadir o seu rostinho inocente.
- Oh, mas eu quero ir agora com o papá… – agarrou-se ao meu pescoço com toda a força, e chorou convulsivamente.
Zamir, o meu filho mais velho, que assistia em silêncio disse:
- Não sejas choramingas. O papá conta connosco para cuidar da mamã e da casa enquanto está em viagem. – As lágrimas que rolavam pelo seu rosto, e que ele teimava em limpar disfarçadamente, eram as únicas a atraiçoar a sua postura forte.
- Meus pequenos homenzinhos – disse comovida ao envolve-lo também naquele abraço.
Foi nesta salinha minúscula, e no calor de um abraço a três que nos despedimos de Ami.
Mas, não tardou muito tempo até que outro redemoinho arrombasse a nossa vida. Há quem diga que a desgraça nunca vem só, e é verdade.
Despertei com a claridade que diariamente entrava pela frincha da janela do meu quarto, e anunciava o despontar de um novo dia.
Sempre gostei de acordar cedo para fazer a minha oração matinal, e depois com o silêncio ainda a reinar pela casa, preparar o pequeno-almoço das crianças.
Mas naquela manhã, tudo foi diferente. Após terminar o meu tempo de oração, soaram na porta, umas pancadas desconhecidas e violentas.
Não era normal por aquelas horas receberem-se visitas, e eu muito menos, dado que era uma mulher viúva. Receosa e com o coração alvoraçado abri a porta.
Deparei-me com um homem alto de meia-idade, e semblante carregado.
- Venho fazer a cobrança – disparou ele sem ao menos me saudar.
- Cobrança? – Disse meio a gaguejar – Mas, a que cobrança se refere?
- A esta – disse lançando-me em rosto um papel repleto de números e com duas assinaturas.
- Tudo isto? – Perguntei com o olhar arregalado – Mas é muito dinheiro, o senhor deve saber que o meu marido faleceu e ….
- Não estou interessado nos seus problemas – a sua voz soava como um trovão nos meus ouvidos – ou me paga o que deve dentro de 8 dias, ou levarei os rapazes comigo!
- Meu Deus, valei-me… – foi a única coisa que consegui articular.
Olhou-me sem piedade de alto a baixo, antes de desaparecer.
Nas minhas mãos estava agora uma dívida enorme, que eu não sabia como, nem quando poderia pagar.
- O que faço agora meu Deus? Eu não tenho nem dinheiro nem bens a que possa recorrer, e aquele homem não veio aqui disposto a negociar – percorrendo a pequena divisão da casa de um lado para o outro, dialogava em voz alta com Deus.
- Oito dias, ele disse que se em oito dias eu não pagasse, viria buscar o que de mais valioso eu tenho na vida, os meus dois filhos. Ah meu Senhor tu não podes permitir que esta desgraça se abata sobre mim…
- Mamã está a conversar com alguém? – Zamir observava-me meio assustado.
- Não meu amor estava a pensar alto, só isso!
Ambos tinham acordado, provavelmente, com o bater da porta. Tentei aparentar uma calma que não sentia e preparei-lhes o pequeno-almoço.
De seguida solicitei ajuda a uma vizinha minha amiga.
Pedi-lhe que ficasse com os pequenos por algum tempo, dado que tinha um assunto importante a resolver.
Sabendo eu que deixara as crianças em boas mãos, refugiei-me nos meus aposentos e derramei a minha alma desesperada, aos pés do Senhor.
Só Ele me poderia socorrer e libertar de tão grande aflição.
Ali fiquei por muito tempo…. Clamando, suplicando e implorando ajuda e misericórdia.
Lavei com lágrimas o meu desespero, e depositei-o no altar do Senhor.
Depois fiquei atenta à Sua voz, permanecendo ali por um longo tempo de joelhos, e em silêncio.
- O profeta Eliseu – disse em voz alta, quando o seu nome assaltou subitamente a minha mente. Eis a resposta de Deus ás minhas súplicas.
Sem mais demoras fui ao seu encontro.
Encontrei-o na escola, rodeado de rostos que Ami tão bem conhecia.
Vendo ele o desespero estampado no meu rosto, dirigiu-se ao meu encontro.
- O que é que aconteceu Bartira, para vires aqui nessa aflição?
- Peço que me perdoe pelo atrevimento de vir aqui incomoda-lo, mas estou realmente muito angustiada. - As lágrimas que me corriam pela face eram mais velozes do que as palavras.
- Ami era um bom marido, um bom pai, e um servo fiel e dedicado, como bem sabe, mas aprouve a Deus chama-lo cedo.
- Sim é verdade … – confirmou o Profeta Eliseu.
- Era tão dinâmico e optimista… A sua mente estava sempre povoada por inúmeros planos – Continuei com a voz embargada pelo sofrimento – mas hoje pela manhã foi um credor lá a casa, e avisou-me que se eu não pagar esta dívida em 8 dias, leva as crianças.
Ao contemplar aquele rol de números, exclamou:
- Oh valha-me Deus! E agora o que vamos fazer? – Olhava-me perplexo e pensativo – O que tens lá em casa de valor?
- De valor… apenas um pouco de azeite numa garrafa, nada mais.
- Então vais fazer o seguinte. Percorre todas as tuas vizinhas e pede-lhes emprestadas muitas vasilhas vazias! Depois em casa com a porta fechada e na companhia dos teus filhos, enche todas as vasilhas que conseguiste com o azeite que tens na garrafa.
- Santo Deus – Pensei para comigo. A ordem do profeta Eliseu não fazia qualquer sentido. Eu tinha um pouco de azeite numa garrafa, como poderia eu encher muitas vasilhas com ele? Olhei-o nos olhos, e sem o questionar despedi-me para obedecer à sua ordem. No caminho para casa, fui solicitando as vasilhas.
Grandes ou pequenas não importava, o que tinham era de ser muitas.
Fui buscar Noam e Zamir, fechei a porta atrás de nós, e comecei a verter o azeite na primeira vasilha.
Aquele líquido precioso jorrava agora da minha garrafa sem parar, e com ele fui enchendo, enchendo as vasilhas, uma a uma até que se acabaram.
- Não há mais mamã – soltou num gritinho jubiloso Noam.
- Nem há espaço para mais – concluiu Zamir.
Os nossos corações não cabiam em nós de contentes. Tinha acontecido diante dos nossos olhos um milagre maravilhoso.
- Não faz mal meus amores – disse eu – vamos comunicar esta bênção ao Profeta Eliseu, e ele nos dirá o que fazer com tanto azeite.
A angústia desapareceu do meu rosto, e deu lugar a fé.
- Fiz tudo como o Profeta Eliseu mandou. E só quando acabaram as vasilhas é que o azeite parou de jorrar da minha garrafa.
- Fizeste bem em ser obediente Bartira. O Senhor se alegrou e abençoou a tua fé. Agora vende o azeite, e com o dinheiro dessa venda, paga a tua dívida e vive tu e os teus filhos do resto.
E assim fiz, vendi o azeite, saldei a minha divida e sigo vivendo do restante.
A emoção que senti naquele momento foi tanta que só através das lágrimas a pude expressar. Era tanta a gratidão que brotava do meu coração…
Foram duras as provas pelas quais passei, naquela época atribulada.
Mas o Senhor tem os seus propósitos. Hoje sei porque motivo Ele permitiu que aqueles redemoinhos invadissem a minha vida.
Aqueles redemoinhos obrigaram-me a uma maior dependência de Deus, e isso reverteu em maturidade e crescimento espiritual.

A Deus toda a Glória!


Florbela Ribeiro A. S.
Agosto 2008

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Há um mar



Há um mar revolto de dúvidas

que me invadem.

Ondas gigantes onde a incerteza,

o medo e a ansiedade habitam.

Faço projectos para um amanhã

que não sei se virá.

Luto por sonhos impossíveis,

objectivos inatingíveis…

Saberei eu definir o quero?

Sim!

Só não sei como o atingir.

E é neste balanço da vida

constante e agonizante

que permaneço.

Dói-me o desgaste físico

muito mais o da alma.

Inicia-se um novo dia.

Permaneço aqui, em silêncio,

Escuto a canção do mar,

e respiro a sua fragrância

apenas com o olhar.

Sabes que sou mais pequena

que um grão de areia,

mais transparente

que a gota de orvalho,

e mais frágil que o cristal.

Mas é em ti Senhor,

que busco refúgio, força e paz

a cada novo amanhecer

na procura de respostas

que o amanhã, quem sabe trará!


Florbela Ribeiro A. S.

Teatro Evangélico - Um Ministério Metalinguístico



Teatro Evangélico - Um Ministério Metalinguístico


Está enganado aquele que tenta desentender o teatro evangélico como outra coisa que não uma arte apta a veicular a mensagem bíblica, através da estética das palavras e da representação.

Não se trata de exacerbação experimentalista, pelo contrário, entendemos que a arte dramática é um ministério metalinguístico com um código de comunicação variado. Pode ir e vai além mesmo da linguagem corrente, tratando dos dramas e conflitos humanos.

No Velho Testamento, a encenação, a representação e as palavras dramatizadas são tão antigas quanto a poesia hebraica.

As encenações seguintes, ambas determinadas pelo Senhor ao profeta Ezequiel, são, por assim dizer, um script de experiências onde se estrutura uma tese - o chamado miolo da acção -, como sinais de aviso a Israel sobre o cativeiro:


«Tu, pois, ò filho do homem, toma um tijolo, põe-no diante de ti, e grava nele a cidade de Jerusalém. Põe cerco contra ela, edifica contra ela fortificações, levanta contra ela trincheiras e põe contra ela arraiais, e aríetes em redor.» -Ezequiel,4,1-2


«Tu, pois, ó filho do homem, prepara a bagagem de exílio, e de dia sai, à vista deles, para o exílio; e do lugar onde estás parte para outro lugar à vista deles. À vista deles, pois, traze para a rua, de dia, a tua bagagem de exílio; depois, à tarde sairás, à vista deles, como quem vai para o exílio.

Abre um buraco na parede, à vista deles, e sai por ali.» - 12, 3-5


O arco do proscénio, sob o qual na velha Europa e na terra de Shakespeare

se representavam as palavras, através da voz, do corpo, da acção, não era necessariamente lugar de pecado. Para o teatro evangélico não o é seguramente, e agora mesmo, nos nossos dias, os palcos para a representação de peças cristãs são abertos, são a própria rua, muitas vezes, são a própria tribuna donde se prega a Palavra de Deus.

O nosso teatro, a nossa maneira de expressarmos com arte o Evangelho, pode abandonar - como alguém escreveu - «a escuridão dos cenários e penetrar na luz do Sol - perante palácios, nos adros das igrejas, nos largos das aldeias, nas colinas», sendo que o que é válido para o teatro dito secular, «mundano», pode e dever ser mais válido ainda para o teatro de conteúdo cristão.

As peças dramáticas cristãs, com base nos quadros bíblicos e veiculando mensagens para os dias hodiernos, não são frívolas, nem para diversão. São para fazer pensar e para ajudar a mudar vidas, seja na vertente do chamado teatro de época (bíblica, do Velho e do Novo Testamentos), seja sob a forma da representação da vida moderna. São uma das mais poderosas ferramentas de evangelização que levam a vivenciar situações, factos, personagens - é o que nos diz um dos mais recentes manuais do género, editado no Brasil pela Hagnos, «O Ministério do Teatro II ».

Claro que tal visão do uso de meios como a arte cénica, terá a ver, também, com o desenvolvimento cultural da comunidade, da sociedade e do país.

Se recorrermos ao mais completo meio de pesquisa dos nossos dias, aos chamados directórios ou motores de busca de sites na Internet sobre o tema em apreço, «teatro evangélico », verificaremos que existe uma multiplicidade de oferta neste domínio. As informações sobre companhias de teatro cristão aptas a trabalharem em liceus, igrejas e conferências, como um ministério instituído, designadamente nos Estados Unidos da América, são vastíssimas.

Mas não só. As artes de representação cristãs, a reintrodução de uma cultura cristã evangélica no meio de uma sociedade secularizada e materialista, estendem-se do Reino Unido à Australia, tocam pontos tão díspares como Tauranga, na Nova Zelandia, e Vancouver, no Canadá.

Em português também. Movimentos evangélicos do Brasil utilizam os grupos de arte dramática e musical como meio para proclamarem o Evangelho e a dimensão da vida cristã evangélica.

No âmbito da literatura com intuitos esclarecedores e pedagógicos sobre este ministério tão específico, as artes teatrais como meio de evangelizar, há contudo uma preocupação, ajudar a que não se confunda teatro evangélico com teatro religioso. E aqui as capacidades de discernimento espiritual dos utilizadores devem estar alerta, para uma triagem do que é proclamação evangelística, através da arte, e do que é mera forma de idolatria encenada.

Em «Teatro Evangélico-Um Desafio à Criatividade », um livro não muito denso (110 páginas ) da autoria de Cilene Guedes de Souza, podemos ler uma útil clarificação do ponto acima aflorado: «Mas não se confunda teatro evangélico com teatro religioso. Teatro e religião frequentemente aparecem associados ao longo da história. Os gregos faziam verdadeiros festivais para cultuar Dionísios. Na Idade Média, a igreja usou teatro para popularizar os ensinamentos bíblicos. Os jesuítas catequizavam, também, através da encenação. » Até ao século XV o teatro europeu viveu dos clássicos e do religioso, com espectáculos religiosos, só depois começou as primeiras tentativas de teatro profano. Asseverou-se então que o profano tomara o teatro contra o religioso por tomar contacto com a realidade e a vida.

Todavia, é incontornável hoje, no século XXI, com várias linguagens à disposição do homem, que a escrita religiosa ou evangélica, no teatro, como na ficção ou na poesia, parte da vida e da realidade, no intuito de transformar ambas com o Poder do Evangelho de Jesus Cristo.

Do ponto de vista da escrita para teatro evangélico, há uma reclamação unânime: «faltam textos evangélicos », isto é, não existe uma dramaturgia cristã séria e que aborde temas sérios numa linguagem coloquial, mas ritmica, que confronte os problemas do homem pós-moderno, o qual se reivindica de um ateísmo intelectual bem mais do que religioso.

Como também não há entre nós uma tradição de boas encenações para bons textos dramatúrgicos.

Existem, no entanto, belíssimas intenções e já algumas práticas carreadoras da promessa de bom teatro evangélico. É, sem dúvida, o caso de um guia de apoio para o encenador cristão da autoria de Samuel Esteves. Este autor, ao reconhecer que é fácil fazer teatro - título do seu livro, editado pelo Núcleo em 2002 -, transportou para o campo da pedagogia esse seu reconhecimento, assim lemos desde «dicas para encenar uma peça», «notas de apoio ao encenador » até 12 peças que podem ser montadas com proveito para as igrejas.

No outro lado do Atlântico, no Brasil, existem objectivamente já criados grupos permanentes de pesquisa e montagem teatral, orientados para o objectivo de estabelecer o «teatro como uma das ferramentas de evangelismo ».

Mais livros que venham -como os «Diálogos » de Agostinho S. Santos, os já citados «O Ministério do Teatro I e II », ou «Teatro na Igreja com Criatividade » e «Oficina de Teatro Cristão ». Nomeadamente este último, da autoria de Maria José Resende, já em 2ª edição, que coloca propostas para além da linguagem teatral evangélica, colocando a tónica na metalinguística, o que está para lá da linguagem, designadamente o teatro cristão como meio de «cura e consciência», atingindo os sentidos, a percepção, o pensamento, a razão, numa função finalmente terapêutica. O que essa jornalista evangélica brasileira refere ser: «Aquilo que o Senhor da Vida pode fazer para resgatar a dignidade e o valor do ser humano.»-


J.T.Parreira

A Bicicleta Verde



A Bicicleta Verde
«They said, you have a blue guitar,
you do not play things as they are.»
Wallace Stevens

A menina curvou o olhar sobre a bicicleta,
Uma menina com imaginação, nos seus olhos
O verde pintou a Terra.
A menina aproveitou o vento
Que brandia as folhas e disse
-Vou pintar de verde a bicicleta,
Terei uma bicicleta verde
Para ser inteira com a natureza,
Se passar pelas folhas
Serei um vento mais
-Não será um raio azul, nem uma estrela
Amarela, nem sequer uma sombra vermelha,
Será um riso verde quando passar rolando.

18-8-2007

J.T.Parreira

LUTERO E A FÉ


LUTERO E A FÉ


Sola Fide Sola Gratia Sola Scriptura é a consagrada expressão que procura sintetizar o pensamento de Lutero ou, pelo menos, a motivação da sua acção no despoletar da Reforma quinhentista.


A uma análise mais atenta e em pormenor, verifica-se que esta expressão tem um elemento redutor, funcionando como denominador comum, funcionando como base em que se fundamenta todo o edifício reformador e, por conseguinte e arrastamento, toda a elaboração do pensamento e motivações de Lutero. Esse elemento é o primeiro membro da preposição – SOLA FIDE. Com efeito, no pensamento de Lutero, não se entende a gratia Dei sem a fides, nem a Scriptura nos surge como a Scriptura com a ausência da fides. A Scriptura como tal, só se realiza no Homem acompanhada e intercalada com a fides. A Scriptura, como outro dom de Deus, só se assume nos seus contornos e conteúdo se a fides, assumida ela também como dom de Deus, estiver sustentando a abertura do Homem à voz da revelação e da Palavra divinas.


Outrossim, a gratia – indispensável à sobrevivência espiritual do Homem, na sua relação com Deus – ainda que só entendida plenamente à luz da Escritura, deixa de ser gratia se ela não estiver e não for vinculada pela fé, deixa de ter sentido, deixa de ser apreendida e de produzir efeito, se a fides não estiver presente.


A fides funciona, assim, como uma chave descodificadora dos enigmas da Scriptura e da gratia. É a fides que nos permite situar-nos no mundo e na vida, é a fides que ao permitir ao Homem situar-se perante Deus lhe permite também situar-se em relação a si mesmo.


Posta a questão nestes termos, fácil é entender que todo o sistema religioso de Lutero, toda a teologia luterana deixa de fazer sentido sem a compreensão do que é a fides para o Reformador, pois toda a sua teologia gira em torno do conceito da fé.


O que é, então, a fides, qual o seu conteúdo e alcance? Quando surgiu em Lutero, elaborado, este conceito de fides? Qual o percurso sofrido pelo Reformador para atingir a sua ideia de fides?


Geralmente, associa-se a pregação das indulgências pelo Dominicano Tetzel ao grande gesto de Lutero de afixar as históricas 95 Teses nos portões da Igreja de Wittenberg. Noventa e cinco teses essas que traduzem e denunciam o percurso fideísta de Lutero.


Embora gestos contemporâneos, julgamos ser um juízo apressado afirmar-se que a pregação das indulgências é a causa da afixação das teses. Daí, pensarmos serem necessárias algumas rectificações a tal pressuposto.


Neste passo da exposição, sigamos o raciocínio de Lucien Febvre e recordemos os factos.


Com a idade de 24 anos, a 30 de Agosto de 1513, Alberto de Brandeburgo é eleito Arcebispo de Magdeburgo, tendo sido proposto, a 9 de Setembro desse mesmo ano, para administrador da diocese pelo cabido de Halberstadt, ou seja, para assumir também o bispado de Halberstadt. Não nos admire nem a idade nem a sobreposição de funções e cargos. Na época, tal situação não é escandalosa, pela normalidade de que se revestia. Mas no ano seguinte (a 9 de Janeiro de 1514), morre o Arcebispo de Mogúncia (Mayenz) e Alberto consegue obter a eleição para o cargo. Recordemos, entretanto, que o Arcebispo de Mogúncia fazia parte do Colégio Eleitoral Alemão, órgão de eleição do Imperador do Sacro-Império. A sempre necessária aprovação da Cúria Papal romana surge na segunda metade desse ano de 1514. Para tal o nóvel Arcebispo terá de pagar um tributo relativamente elevado à Santa Sé – qualquer coisa como 24.000 ducados. E é nesse quadro que tem lugar a preparação das indulgências. Com efeito, pela Bula de 1515, as indulgências começam a ser pregadas a partir de 1517. Após diversos arranjos circunstanciais , ficou estabelecido que, descontada a parte destinada ao Imperador Maximiliano, tanto o Papa como o Arcebispo Alberto receberiam cada um 50% da receita apurada. No fundo, negócio rendoso e proveitoso para todos os intervenientes. O Papa poderia financiar a reconstrução da Basílica de S. Pedro em Roma e Alberto poderia pagar a dívida que tinha em aberto para com o banqueiro Fugger, pelo empréstimo por este feito para financiar e custear todas as despesas com o processo de investidura do Arcebispo Alberto de Magdeburgo e de Mongúcia.


É justo que se queira saber em que consistia tal pregação. Deixemos Lucien Febvre falar uma vez mais.


Pregava-se a remissão plena dos pecados daqueles que, arrependidos, contribuíssem com uma oferta para a caixa das indulgências. Estas estavam tabeladas de acordo com a classe social e a fortuna pessoal de cada penitente.


Pregava-se a remissão plena dos pecados do Purgatório, através da aquisição de ofertas tarifadas.


Pregava-se o direito de escolher um confessor privado, com o poder de conceder ao penitente a indulgência plena dos seus pecados.


Mas, em pormenor, em que consistiam as indulgências? Vejamos o que diz Richard Stauffer a esse respeito:


A Igreja ensinava que a pena temporal devida pelos pecados já perdoados podia ser remida não só por meio de reparações, sacramentais ou não, mas também por meio da indulgência. Sem excluir a penitência, a Igreja considerava que recorrendo ao tesouro dos méritos constituídos pelas obras super-rogatórias dos santos, podia conceder a remissão de pena ao pecador perdoado. A partir de Sisto IV (1476), podiam-se comprar indulgências a favor das almas do Purgatório.


Por este passo, se vê que a venda das indulgências por Tetzel não infringia nenhuma norma da Igreja. Mas o ponto fundamental das indulgências é o facto de partirem do pressuposto de que o pecador tinha de sofrer algum tipo de pena, de castigo, pelo pecado cometido (e entretanto perdoado). Na prática, o que acontecia era que a culpa do pecado e o respectivo faltoso eram perdoados por Deus havendo, no entanto, necessidade de o pecador cumprir uma satisfação temporal aqui nesta vida ou além no Purgatório. Essa satisfação consistia numa peregrinação ou na realização de uma boa obra. O pecador, no entanto, podia ficar liberto do castigo temporal desse pecado, mediante a compra da indulgência. A indulgência era, pois, uma espécie de cheque passado sobre uma conta de boas obras excedentárias de Jesus Cristo ou dos santos a favor do pecador.


São estes documentos, pois, que Tetzel põe à venda em 1517. Diga-se de passagem que o Dominicano utilizava o que podemos considerar de elaborados métodos de “marketing” espiritual. Dele se diz ter afirmado que logo que a moeda da compra de uma indulgência tocar o fundo da caixa, uma alma é liberta do Purgatório...


Em jeito de comentário a esta doutrina da Igreja, podemos dizer que, ao fazer distinções subtis entre o efeito do pecado e o pecado em si mesmo, o Papado acaba por retirar valor ao sacrifício expiatório de Cristo, eliminando deste modo a própria segurança do crente. Este, no fundo, anseia pela segurança espiritual que esse mesmo sacrifício lhe confere e daí agarrar-se à tábua de salvação prefigurada nas indulgências. Não nos esqueçamos também que estamos em época que sofre os efeitos de toda uma angústia espiritual colectiva, o que explica sobremaneira a aceitação tão imediata da pregação das indulgências.


Angústia essa bem patente no conceito do Dies Irae, momento em que o Homem estará completamente só perante o Deus justo e castigador. Nem santos, nem Virgem para o ajudar. Daí o consolo e a ajuda que a doutrina luterana da justificação pela fé vem representar para tantas almas angustiadas.


A 31 de Outubro de 1517 – data célebre e de todos conhecida – Lutero afixa as suas 95 Teses. Daí pensar-se que a pregação de Tetzel vem precipitar os acontecimentos, forçando ou provocando Lutero a uma resposta. Emotiva de preferência. Nada de mais errado, quanto a nós. É errado também admitir ser a pregação de Tetzel o que leva Lutero a não partilhar a doutrina tradicional da Igreja da época.


Tomemos em consideração alguns pequenos detalhes.


Lutero afixa as teses não a 31 de Outubro mas na véspera do Dia de Todos os Santos! Data importante por ser nesse dia – 1 de Novembro – que, todos os anos, os devotos peregrinavam em multidão, rumo a Wittenberg, em busca do almejado perdão. Momento alto de piedade e de negócio também. Frederico-o-Sábio, senhor de Wittenberg, acumulara na igreja do castelo cerca de 17.500 relíquias diversas, cuja veneração garantia 128.000 anos de indulgências. Ora, já nessa altura, Lutero desaprovava não só essa veneração como também o privilégio concedido a esta igreja de distribuir as indulgências da porciúncula (isto é, da pena e da culpa). Precisamente em cada festividade de Todos os Santos!...


Por outro lado, verificamos que havia pelo menos um ano, já Lutero defendia em público, o teor das suas 95 Teses. Com efeito, a 31 de Outubro de 1516, encontramos o Frade agostinho a pregar um sermão sobre as indulgências...


Ainda em 1516, no mês de Setembro, escreve e discute as teses de viribus et voluntate dominis sine gratia. Título por si só suficientemente elucidativo.


Finalmente, a 4 de Setembro de 1517, envia a um irmão agostinho, de nome Gunther, não as 95 mas as 97 teses, em muito idênticas às 95 do mês seguinte.


Não é assim escandaloso admitir que Lutero terá “ignorado” Tetzel, já que todos os dados indicam que, mesmo sem Tetzel, as 95 Teses teriam visto a luz do dia. A pregação do Dominicano terá funcionado como pretexto ou como ocasião mas nunca como o elemento que leva Lutero a sintetizar o seu pensamento, nunca como uma reacção emotiva e extemporânea perante um flagrante escândalo.


As 95 Teses não são fruto de um trabalho de momento, não são uma resposta emotiva e momentânea, fruto de uma não-reflexão. Não! 31 de Outubro é um bom marco na História da Humanidade porque representa e apresenta um Lutero já luterano, um Lutero que emite uma opinião ponderada e reflectida. As 95 Teses são o culminar de toda uma elaboração anterior e que reflectem bem a sua descoberta, anos antes, da doutrina revolucionária e libertadora da justificação pela fé.


Ao contrário de outros documentos, em que a emotividade de Lutero está bem patente, estas Teses não revelam um Lutero colérico ou emocionado. São antes um apelo calmo e sossegado de uma alma turbulenta e atribulada finalmente em paz consigo e com o seu Deus. São um convite à análise e à discussão teológica de importantes e fundamentais de artigos de fé.


Qual o conteúdo das Teses? Vejamo-las em resumo:


1 – 4 - O Cristão faz penitência durante toda a sua vida.

5 – 7 - Só Deus pode perdoar pecados.

8 – 29 - No Purgatório, o Papa não tem direito de perdoar castigos pois com a morte do Homem, acaba para a Igreja a possibilidade de castigar ou livrar as almas.

30 – 40 - Trata das indulgências dos vivos.

41 – 51 - Compara as indulgências às boas obras.

52 – 80 - Compara a prédica das indulgências à prédica do Evangelho. O verdadeiro tesouro da Igreja é o Evangelho.

81 – 91 - Cita argumentos do povo contra as indulgências como, por exemplo, se o Papado tem poder para livrar certas almas do Purgatório, qual a razão de não acabar de vez com esse mesmo Purgatório?

92 – 95 - Contrasta a religião das indulgências com a própria religião: o Cristão não confia nas indulgências mas está disposto a seguir o seu Mestre.


Não se sabe a data exacta em que ocorreu a grande descoberta de Lutero: o princípio da fé e da justificação pela fé. Designada por alguns como experiência da Torre, tal experiência terá ocorrido entre 1512 e 1516. Até então, é um Lutero em luta consigo e com Deus que vamos encontrar. Um Lutero angustiado e lutando ferozmente pela sua salvação. Um Lutero para quem, a dada altura, o próprio nome de Deus lhe soa como odioso...


Influenciado pelos místicos, pela devotio moderna, por Guilherme de Occam, via Gabriel Viel e pela teologia medieval, Lutero encontrava-se num beco sem saída, numa luta desesperada e desesperante consigo mesmo. E porquê? Porque ao contrário de S. Agostinho, a teologia medieval defendia a ideia de que a vontade do Homem não estava completamente corrompida. Daí, ser-lhe possível, através das suas acções através das suas boas obras, atingir e merecer os favores da graça de Deus. Influenciado pelas posições occamistas, Lutero debate-se com contradições resultantes do choque entre as doutrinas occamistas e o que ele constatava na sua própria vida, pelos seus esforços das boas obras. Com efeito, Occam defendia que, sem a graça, o Homem pode evitar todos os pecados mortais, mediante os esforços das suas boas obras. Ora, Lutero, apesar de todos os seus esforços e tentativas, sentia-se longe e indigno de receber os favores da graça divina.


Há, pois, assim, um profundo conflito espiritual em Lutero que só vai terminar quando ele reinterpreta a uma nova luz a passagem de Romanos 1:17 : porque no Evangelho se descobre a justiça de Deus.


É, pois, esta grande descoberta de Lutero que está na base de toda a evolução posterior do seu pensamento e da sua teologia. É esta descoberta da fé que vai sustentar todas as suas posteriores posições. Retire-se-lhe a doutrina da fé e todo o seu sistema fica sem sustentáculo.


E em que consistia essa grande descoberta? Ouçamos as suas palavras:


A justiça de Deus é a justiça que Deus dá e pela qual o justo viverá se tem fé. O sentido de Romanos 1:17 é pois: o Evangelho manifesta a justiça de Deus, não a Sua justiça activa mas sim passiva, pelo meio do qual Deus, no Seu amor e misericórdia, pega em cada um de nós e nos torna justos, através da fé.


E a diferença entre Lutero e a teologia medieval no tocante à justificação pela fé está nisto:


Para os teólogos medievais, a justificação era entendida como um prémio atribuído por Deus aos méritos do crente esforçado em se apresentar como justo perante Deus, mediante as suas boas obras.


Para Lutero, ao contrário, o Homem, por mais esforços que faça é e permanecerá pecador, logo, indigno da presença de Deus. Só a graça e a misericórdia podem fazer que a justiça de Deus seja imputada ao pecador. Deus, por um acto de misericórdia, perdoa o pecador e considera-o como justo, por amor de Cristo. Ou, por outras palavras, Cristo interpõe-se entre Deus e o pecador e, agora, Deus não vê mais o pecador mas vê Cristo em seu lugar.


Atingir tal estatuto, tal posição só é possível por meio da fé, só é possível por meio de uma acção, de uma obra exterior ao próprio Homem. Daí, dizer-se que qualquer obre realizada pelo Homem, por muito boa ou melhor que seja não o vai levar a atingir esta posição de justificado. Dai dizer-se também que o único

meio de o pecador ser aceite por Deus ser por intermédio de Cristo que Se ofereceu ao Justo Juiz como sacrifício válido, vicário e suficiente por todos quantos são pecadores.


Há, então, um apelo ao abandono pessoal à graça de Deus, há um apelo a uma entrega pessoal aos desígnios de Deus, há um apelo ao abrir mão da vontade humana. O Homem é, assim, convidado a ceder a sua vontade à vontade de Deus. Porque só a partir do momento que o Homem pecador reconhece a sua incapacidade e impotência e se abandona pela fé na misericórdia divina, alcança o dom da justificação pela fé. Sim, porque – repitamo-lo e deixemo-lo bem claro – para Lutero, a justificação pela fé, a mais almejada e ansiada situação é e permanecerá sempre um dom, uma dádiva de Deus veiculada pela fé através dos exclusivos méritos do sacrifício expiatório e vicário de Cristo. Há, então, o que Lutero chama de Palavra (divina) de promessa, sustentáculo inamovível da fé. A fé toma essa Palavra por garantia e por certeza.


Agora, fácil se nos torna compreender que Lutero não podia aceitar a teologia das indulgências, muito menos o mercantilismo de Tetzel que terá horrorizado o Reformador, ao assumir e defender a não necessidade do arrependimento para a obtenção do perdão dos pecados, prémio prometido pelas indulgências. Com efeito, para Lutero, o arrependimento é essencial para a justificação fazer efeito ou melhor, para a justificação entrar na posse do pecador. A justificação está garantida, está aí, obtém-se pelo exercício da fé mas só se torna real e actuante a partir do momento em que o pecador se reconhece como tal, a partir do momento em que o pecador se arrepende do seu pecado.


Para Lutero, a fé não se identifica com os nossos esforços ou tentativas de criar em nós uma atitude de “pensamento positivo” que nos faculte coragem psicológica capaz de arrostar com as dificuldades da vida.


Lutero parte da magnifica definição de fé dada pelo autor da Epístola aos Hebreus capítulo 11 versículo 1: A fé é o firme fundamento (ou certeza) das coisas que se não vêem. E a partir deste ponto, elabora todo um extraordinário pensamento das virtualidades e potencialidades da fé.


A fé é, então, em primeiro lugar, um abandono pessoal à promessa de Deus e deixar que ela nos guie, é o abandono a uma palavra de promessa que funciona com o único garante de que o nosso abandono (que implica uma vida – a nossa) não é vão mas a única atitude correcta a tomar. É que essa dependência da Palavra é a única forma de criar uma relação directa entre Deus e o Homem, a única possibilidade de sentar à mesma mesa, sem intermediários, os dois grandes interlocutores e interessados neste grande drama cósmico que é a salvação do Homem.


Efectivamente, a forma mais correcta mais eficaz de o Homem ver o seu drama resolvido é colocar-se face a face perante Deu, é ambos os contendores apresentarem-se tal como são e acertarem entre si as contas pendentes.


E é aqui que se levanta o problema da justificação. Sendo pecador, o Homem não pode apresentar-se perante Deus. Há que ser justo. E a única forma de tal acontecer é erradicar de si todo e qualquer traço de injustiça, de pecado. É-lhe necessário um intermediário intrínseca e essencialmente justo, que lhe impute essa mesma justiça. Ora, o único que lhe fornece tal garantia é Cristo e a Sua justiça. Então, Cristo surge como aquele que leva Deus a imputar ao pecador a própria justiça divina já que Cristo, sendo justo, cumpriu também toda a justiça divina. Agora, embora ainda só perante Deus, o Homem paradoxalmente deixa de estar só. Por algum motivo – ainda segundo Lutero (e segundo a Escritura) – Cristo é chamado Emanuel, Deus connosco. E paradoxalmente porque, tendo de se apresentar só perante Deus, não vai na sua própria força ou condição mas sim como que revestido dos méritos de Cristo que aceita pela fé.


Esta posição leva a uma conclusão: a partir de agora, o Homem não necessita de intermediários sejam eles sacramentais sejam eles sacerdotais. O seu sacerdote passa a ser o Cristo e ele próprio. O Homem adquire a possibilidade de ser o seu sacerdote, na medida em que se pode apresentar perante Deus com a garantia do sacrifício de Cristo.


Há, então aqui, uma novidade libertadora na doutrina da justificação pela fé: é que ao pecador é imputada não a sua justiça mas a justiça de Cristo. Assim, Deus por um acto de misericórdia, perdoa-lhe o seu pecado e, por amor de Cristo, considera justo o pecador, considera-o digno de entrar na Sua presença. Daí que esta justiça atribuída não seja produto ou realização humana mas sim uma justiça estranha, alheia ao Homem, a justiça do próprio Cristo, do próprio Deus.


A justificação é, assim, como já dissemos, passiva e não activa. Tal justiça alheia exige do Homem um acto de fé, um acto de aceitação da Palavra de promessa divina, um acto de abandono. Isto leva a que, durante toda a sua vida – simul peccator, simul iustus – o Homem tenha de exercer e recorrer à fé, que o mesmo é dizer, tem de depender de Deus. Há, pois, a entrega da vontade própria e o reconhecimento de que a vontade do Homem, para produzir bons resultados, deve estar submetida e submissa à vontade da fonte do Bem Supremo. E tudo isto, repita-se, porque há uma Palavra divina de promessa, base e sustentáculo da fé.


Mas Lutero vai mais longe. É que para ele não basta aceitar a justificação em fé. É necessário ela ser aceite com fé. Não basta aceitar ou compreender a afirmação da base de apoio da justificação. Não basta um reconhecimento intelectual de que a doutrina funciona nestes termos. É necessário que o Homem, uma vez reconhecida a mecânica da doutrina, personalize em si mesmo essa mesma justificação. Cristo só Se torna minha justificação a partir do momento em que eu O personalize em mim, a partir do momento em que me aproprio d’Ele e O faço meu.


Tenho de aceitar que as coisas não só aconteceram “por causa de mim” mas também “para mim”. Ou, por outras palavras, a fé não é um conceito estático, passivo mas antes dinâmico e activo. Ela está sempre em movimento em acção.


A noção que Lutero tem de fé leva-o a fazer afirmações que surgem como revolucionárias ou mesmo como heréticas. E cito duas:


A fé cria a deidade em nós.

Aparentemente, é a negação do princípio bíblico da existência objectiva de Deus. Aparentemente, é o inverso da posição bíblica de que Deus criou o Homem à Sua imagem e semelhança. Aparentemente, é o reconhecimento de que o Homem cria Deus à semelhança humana. Só aparentemente, porém. Porque Lutero é um estrénuo defensor da objectividade de Deus, da existência de um Deus exterior e superior ao Homem. Mas Lutero defende também – vestígios da influência occamista – que este Deus é um Deus oculto mas que Se revela ao Homem. E o homem só tem consciência e conhecimento de que há um Deus porque Deus, de Sua livre e espontânea vontade, decidiu revelar-Se à criatura. E revela-Se fundamentalmente através da Palavra. Deus é um Deus que comunica e Se comunica. Mas este Deus majestoso e transcendente só Se realiza em cada um de nós pela fé. Então, sem a fé a Palavra, a Scriptura não é mais do que um conjunto de sons ou de pensamentos mas nela não está presente Deus. Sem a fé, não há lugar para Deus no coração do Homem. E onde Deus não está, ai não existe, porque se Lhe é negada a existência. Por isso, dizíamos no princípio que sem a fides, que sem a fé, tanto a Scriptura como a gratia não são nem podem ser entendidas.


Só através da fé Deus Se torna real em nós e podemos então entrar nas profundezas da Sua graça.


A outra frase na mesma linha da anterior, é:


Sem fé, perde a Sua justiça, a Sua riqueza e não tem majestade onde não há fé.

Efectivamente, se a fé, não a fé-esperança mas a fé-abandono-e-certeza-na-Palavra, se essa fé não estiver presente não é possível o Homem aperceber-se de todos os atributos da deidade, por lhe faltarem pontos de referência. O Homem poderá detectar e sentir até os efeitos desses atributos mas nunca os reconhecerá e atribuirá a Deus, porque não tem fé. É que a fé implica necessariamente o reconhecimento de Deus e só quando nos abandonamos à Sua Palavra, O reconhecemos actuante, em poder e majestade, na plena posse dos Seus atributos.


Há, assim, uma personalização da fé. A fé terá de ser um acto intrinsecamente pessoal. Ninguém pode crer por outro. Só eu, como indivíduo, é que tenho de me apropriar da fé. A relação entre Deus e o Homem constitui-se numa base individual e pessoal. Deus lida fundamentalmente com indivíduos, com pessoas.


Esta posição tem consequências tremendas na História da Humanidade. É não apenas e só um apelo ao individualismo mas o reerguer da dignidade humana. O Homem não mais necessita de intermediários humanos ou institucionais, o Homem não mais necessita da protecção alheia. É-lhe reconhecida maturidade suficiente para lidar faca a face com o transcendente. Temos também o reconhecimento implícito da liberdade humana, liberdade essa estendida ao quadro da fé.


Mas ao dizermos que a fé é sempre em referência à Palavra da promessa, ao que Lutero chama de theologia crucis, entendemos que a fé pode gerar situações de conflito quer com a nossa experiência pessoal, quer com a realidade circundante.


É que, para Lutero, a garantia do crente não está nas circunstâncias, na realidade circundante. A sua garantia é e permanece sempre a promessa da Palavra, a Palavra da promessa. É que, muitas vezes, a fé vai contra toda a expectativa, vai contra todos os dados tidos como adquiridos e garantidos, a fé vai contra a realidade que se nos apresenta, a fé vai contra os ditos “factos”. Só que a fé se move numa outra dimensão, numa dimensão que não a da razão a única que pode explicar os “factos”. É que a fé baseia-se na Palavra de um Deus que sabe o futuro desde o presente enquanto nós, seres humanos, nos movemos apenas no quadro do presente não vendo, assim, o futuro, não vendo, assim, o fim das dificuldades presentes.


Há, então, uma fé que não parte de uma experiência prévia mas sim de uma promessa que rompe o presente e penetra no futuro. Daí que a fé, a confiança tenha de ser incondicional. Daí que, mesmo em oposição, a fé deve permanecer porque, afinal, no meio das maiores tormentas, é a única bóia de salvação que resta. Mas uma bóia que não é apenas uma bóia, vogando ao sabor das correntes, vogando ao sabor das circunstâncias. Não! Essa bóia está ancorada e segura em algo em algo de inamovível – o próprio Deus.


E à medida que a fé é posta à prova, ele testa-se a si própria, ela vai passando de experiência em experiência e vai-se enriquecendo porque a fé acaba por ir enriquecendo a nossa própria experiência pessoal.


Esta posição tem uma relevância muito especial porque explica muitas atitudes que, de outro modo, ficariam sem resposta ou explicação.


É esta fé de Lutero que explica, por exemplo, o seu acto de afixação das 95 Teses. Embora na altura, o seu alvo não fosse a reforma da Igreja, Lutero prefere antes que se reformem as consciências individuais. E é com a exaltação da sua descoberta – a justificação pela fé – que Lutero acaba por dar testemunho de um homem que se entregara de corpo e alma à Palavra de Deus, a Quem entregara todas as suas limitações e fraquezas. Lutero avança, nessa ocasião, como em muitas outras, estribado não na sua força natural ou pessoal mas na força que lhe advém da confiança obtida pela sua fé em acção.


Analisando a Alemanha da época, com todos os condicionalismos políticos, económicos e religiosos, fácil é concluir que, como diz Lucien Febvre, em tal país, fazer cumprir a Reforma, era empresa condenada a priori. E era-o porque era necessário conciliar bastos interesses, muitos deles opostos.


Quer dizer, a experiência, a razão desaconselhava a utilização da Alemanha imperial quinhentista como palco de uma Reforma profunda na Igreja. Pela razão e pela experiência, a Alemanha nem sequer seria considerada como hipótese.


Mas aqui entra a fé. Contra toda a expectativa, contra todas as evidências, Lutero avança e despoleta a crise. E de acção em acção, de experiência em experiência, a fé de Lutero fortalece-se cada vez mais.


E não tenhamos dúvidas quanto a isso. O episódio de Worms é significativo e elucidativo.


Quando se põe a caminho de Worms, Lutero parte como para o martírio. O salvo conduto não é garantia suficiente de salvação. Recordemos João Huss! Aquando de Worms, Lutero havia sido já considerado de herético e os seus livros haviam sido condenados à fogueira. Mas conta toda a evidência (e aconselhamento), Lutero avança, em nome da fé. Foi esta fé, fundamentada na Palavra, que o movimentou, que o guiou. Foi esta fé fundamentada na Palavra que abriu à Europa novas e profundas perspectivas.


Mas a sua fé manifesta-se em outras ocasiões. Vejam-se os casos dos casamento dos monges, das freiras e dos padres e o caso da comunhão das duas espécies. Lutero não os havia considerado até então. Nunca se tinha debruçado sobre o assunto, em termos de mudança do estipulado pela Tradição ou pelo costume. Mas quando é solicitado a dar a sua opinião e posição, Lutero reflecte e vai procurar na fonte da sua fé – a Palavra – a resposta que todos buscam e exigem. Isto é, Lutero procura dar uma resposta de fé e não uma resposta da razão, da lógica. A preocupação de Lutero é procurar que todas as questões da vida do Homem sejam solucionadas no quadro da fé.


Porque, acima de tudo, Lutero preza que o homem cristão, o homem da justificação da fé, viva por essa mesma fé. O seu alvo não é conciliar a fé com as circunstâncias. O mais que se poderá dizer é que ele procurará concilias as circunstâncias com a fé. Ou, pelo menos, conceder ao homem de fé uma resposta que o ajude a enquadrar-se nas circunstâncias.


Isso explica a sua recusa em enquadrar a liberdade cristã, fruto do exercício da fé, com qualquer outro tipo de liberdade.


A liberdade cristã deve permanecer sempre como uma realização da fé e não como um arranjo circunstancial ou contemporização com ideias e movimentos que, ainda que com muito de apelo cristão, têm uma base que não a fé.


Daí o seu choque com o nacionalismo dos príncipes alemães e a sua recusa de identificação com Ulrich von Hutten.


Lembremo-nos que havia príncipes cavaleiros que viam em Lutero a personificação de um chefe espiritual das forças alemãs nacionalistas e que o queriam como tal. E vem-nos à lembrança outra recusa em tudo idêntica, a de Cristo, ao rejeitar qualquer identificação de Messias político, como pretendiam os Zelotas e outros nacionalistas hebreus de então.


Mas Lutero não está interessado em tal identificação. Como não está também interessado em outras identificações, como o socialismo campesino de Munzer, como o humanismo cristão de Erasmos.


É que nenhuma dessas liberdades é sinónimo de liberdade cristã.


Porque a liberdade cristã que Lutero defende é uma liberdade cujas raízes e fundamentos se encontram na Palavra da promessa, único garante do motor que deve fazer avançar o cristão – a fé.


Jorge Pinheiro

Canta um hino à minha alma



Canta um hino à minha alma
Senta-te ao pé de mim
encosta
ao meu o teu ouvido
Ouviremos
os gestos das folhas
a pousarem na água
os pés
das ovelhas a silenciarem
a sombra
um hino para nossa alma
nos percorre
O pentagrama do coração
registará a música
das artérias coronárias
O coração baterá
ignorando a morte.

J. T. Parreira

30-7-2008

O TRANSTORNO DO PÂNICO NO PROFETA ELIAS



O TRANSTORNO DO PÂNICO NO PROFETA ELIAS

O perfil da personalidade de Elias traçado desde o seu primeiro aparecimento na história, no 1º Livro de Reis, é o de um homem tornado rijo pela natureza.

A intervenção de Elias na história de Israel, confrontando a idolatria, o sincretismo religioso, o relativismo ético, a apostasia e as ruínas da moral, havia sido verbalizada por Deus quando lhe ordenou:

«Retira-te daqui, vai para a banda do oriente, e esconde-te junto à torrente de Queribe, fronteira ao Jordão»

Na perspectiva profética, todo o ministério de Elias iria iniciar-se numa estruturação da dependência de Deus, fortalecendo-se no rigor da vida «monástica», solitário, integrado na natureza agreste.

Habitaria no deserto e construiria sua tenda junto ao Jordão, segundo escreveu S.Jerónimo na sua Ep.58 ad Paulinum. Viveria Elias dos cuidados divinos ao lado do ribeiro de Carit, na Transjordânia, actual reino Hachemita da Jordânia. Os corvos providenciar-lhe-iam os alimentos, pão e carne pela manhã e ao cair da noite.

Beberia água da torrente. Elias, segundo uma tradição religiosa remota, seria não o fundador em sentido estricto da vida monástica, mas pelo menos o seu precursor.

Se pretendessemos adpatar a sua vida à futura poesia árabe, com alguma liberdade poética díriamos que a relação de Elias com a natureza seria como a da ave chamada Garça (cujo nome em árabe é masculino e significa «Soberano Melancólico»), e cujo poema reza assim:

«Minha miséria prefere a vazia linha do mar entre as lagunas, onde ninguém ouve o meu canto. Triste, melancólico, fico à beira do mar salgado, pensativamente; o coração sangrando de desejo pela água».

No entanto, Elias foi um homem de acção. Na rigidez do seu enfrentamento com a sociedade e a adulterada estrutura religiosa do Reino de Israel, isto é, no seu confronto com a rainha Jezabel e os 450 profetas de Baal e os 400 de Azera, na sua missão de levar o povo à adoração genuína ao único Deus, Elias exerceu do poder espiritual que o Senhor lhe conferiu tudo para além das funções normais de um sumo-sacerdote e de um profeta, exerceu-o sem margens e in limite. Exerceu nas suas funções o Poder de Deus, no próprio plano do sobrenatural.

«Eis que está aí Elias» é uma afirmação do próprio, consciente da missão para a qual fora investido por Deus, fazendo uso da relação espiritual de poder que seu nome já possuía com Jeová, uma vez que Elias significa «Javé é Deus». O profeta das vestes de pele de camelo, dotado de um temperamento impetuoso, romântico e ardente, afirmava Deus em si mesmo.

Mas o vigor do profeta Elias, o seu trabalho institucional, por um lado conservador, revivalista por outro, conducente a um Avivamento espiritual em Israel, não faria supor uma quebra na sua dinâmica de fortaleza física e psicológica.

O profeta Elias tinha superado a instituição da idolatria, do sincretismo religioso, havia mantido intacta a Adoração a Iavé, a sua Fé no Deus Altíssimo superara todas as circunstâncias.

Trabalhara com a matéria, digamos com os materiais do sobrenatural (as pedras do altar, a lenha, o rego em volta do altar, a água, o novilho para o holocausto) e tudo isso levou pela Fé ao alto patamar do milagre que lemos no Livro I de Reis, 18,37,38.

Conhecemos o seu contributo para a Galeria dos Hérois da Fé da Carta aos Hebreus, «homens dos quais o mundo não era digno, errantes pelos desertos, pelos montes, pelas covas, pelos antros da terra».

Mas agora parecia não poder superar-se a si próprio e aos seus temores.


O Transtorno do Pânico

O início da narrativa de I Reis 19, abre sobre a situação física e psicológica do profeta Elias. O texto sagrado não espiritualiza essa fragilidade natural da vida dos homens e dá-nos a real imagem de um Servo de Deus «temendo» a perfídia da rainha Jezabel e que «se levanta», isto é, inicia uma fuga «para salvar a sua vida». Como Deus compreende, mesmo no espírito da Sua Palavra, a sua criatura mais excelente, o Homem!

A longa caminhada que Elias começou não foi no sentido de voltar as costas a Deus, ao contrário, rumou ao monte de Horebe, que o Velho Testamento tem o cuidado de salientar como o monte de Deus.

O refúgio de Elias numa caverna, em Horebe, foi o efeito da conjuntura religiosa e social adversa pelo arrojo do profeta, a sua luta titânica contra os profetas de Baal para preservar a genuinidade e identidade única do Deus de Israel.

As palavras contemporâneas para a sua atitude de fugitivo, quando havia sido um Herói, adjectivariam o profeta como desanimado e deprimido. Na área mais rigorosa da ciência médica, diriam que se trata de uma síndrome, designadamente o chamado Transtorno do Pânico, designação que obviamente Elias desconhecia em absoluto.

Sentiu, no entanto, todos os seus efeitos na alma. A ansiedade, o stress, o desânimo, a hodierna depressão, o desejo de vanishing act - o desaparecer de vista -, ou até o desejo de morrer, mas não de suicídio (I Rs.19,4).

Num registo moderno, Elias seria alegadamente caracterizado como uma pessoa extremamente responsável, grande produtividade a nível profissional, assumindo sempre uma carga excessiva, tomando à sua responsabilidade os outros, exigente consigo mesmo, preocupado em excesso com os problemas quotidianos, perfeccionista e com alto dose de criatividade.

Encurtando palavras que são pela sua própria natureza dos nossos dias, e cingindo-me apenas ao múnus espiritual do profeta, Elias, não obstante haver um rei, foi não apenas o líder do Povo de Israel, naquele momento de problemas e carências nacionais, mas também foi o condutor do Culto Divino que o povo devia praticar.

Na contextualização de todos os factos contidos na narrativa, não é difícil de entender o desmoronamento físico e psicológico do profeta. A sua estatura espiritual e moral, de par com a sua estrutura física construída na dureza, ao contrário do que faria supor, pelo que representavam abalaram Elias precisamente pelo seu zelo, pela sua entrega, pela sua consagração ao Deus de Israel.

Nesta linha de pensamento, tendente a alargá-lo a situações contemporâneas de que temos conhecimento e experiência pessoal, veio à minha memória que li um livro muito a propósito de tudo isso, obra fundamental para o entendimento bíblico e correcto da depressão. Fui à estante buscá-lo. «Depressão e Graça», de Judite Kemp, que a dado passo afirma: «A história contemporanea da igreja também relata o mesmo tipo de sofrimento enfrentado por homens e mulheres de Deus. Veja alguns exemplos: John Bunyan, autor de O Peregrino; Martinho Lutero, líder da Reforma Protestante; Hudson Taylor, o grande missionário que não escondia suas experiências de andar com Deus no escuro; George Mueller, missionário inglês usado por Deus mesmo em meio a crise de depressão.»

Durante o percurso da leitura desta citação, em que a autora referencia também Amy Carmichael, missionária, C.S.Lewis, escritor e Charles Spurgeon, pregador, não é fácil compreender o que o exemplo seguinte nos aporta, que «até mesmo Nosso Senhor Jesus se angustiou: «A minha alma está profundamente triste, numa tristeza mortal», quando contemplou o alto custo da obediência à vontade do Pai» É reconfortante saber isso.

O círculo alarga-se nos nossos dias pelas contextualizações da história, das exigências actuais que implicam um esforço cristão de mais moral, mais ética, mais Verdade contra os relativismos pós-modernos, as pressões que o estado do Mundo exerce sobre o crente, anónimo, e os Servos de Deus, enquanto tal, líderes de comunidades cristãs.

Até ao chamado de transtorno do pânico vai porém um longo caminho in limite. Contudo, seremos nós, crentes, trabalhadores na Igreja, obreiros, pastores, escritores, etc., membros da Comunidade Evangélica, melhores do que Elias?

Somos, todos nós, de alguma forma, vulneráveis, sendo preciso recobrar o ânimo, a consagração, a fortaleza que decorre do que Deus confidenciou ao apóstolo Paulo, e cuja base de aplicação parece decorrer da nossa fragilidade: «A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza.» (2 Co 12, 9)


João Tomaz Parreira

AS SAGRADAS ESCRITURAS NÃO SÃO MUDAS



AS SAGRADAS ESCRITURAS NÃO SÃO MUDAS


«Se os textos não são interrogados, permanecem mudos», era a disposição geral no dizer de teólogos liberais, como Bultmann, perante a Bíblia. E tal interrogação, far-se-ia sob as formas mais diversas, sob um denominador comum: os métodos críticos histórico e morfológico.

Freud disse certa ocasião a Papini que ensinara «aos outros a virtude da confissão e afinal nunca pude abrir inteiramente a minha alma». Os teólogos liberais confessaram-se ruidosamente nos seus escritos, porque acharam que a Bíblia Sagrada estava muda diante das contextualizações que eram precisas- do seu ponto de vista- ser feitas na modernidade do Século XX.

Muitas obras fizeram ruído nesse tempo. Mas mais do que obras de exegése, eram instrumentos para colocar em causa os textos bíblicos, para os desnudarem das suas roupas riquíssimas do que é celeste, para os despojarem da sua espiritualidade.

A chamada Alta Crítica, a despeito de pretender ser honesta, teologicamente, para com o homem, acabou por levantar a sua voz contra o Divino, porquanto procurou apenas a Literatura nas Sagradas Escrituras, interessada em detectar fontes, tipos literários, questionando autores e datas.

É verdade que nem todos os Evangelhos apresentam a vida de Cristo duma forma teológica, procurando dar uma narratividade literária, somente o de João a apresenta de modo teológico, sobretudo. Diz-se nos meios teológicos académicos que o fez para que os leitores sejam salvos. Forma e conteúdo, todavia, estão intrinseca e espiritualmente ligados, por exemplo, nos textos sagrados evangelísticos. Estruturalmente jamais aceitaríamos ler os Evangelhos se nos fossem apresentados hoje sob a forma de romance. Diga-se o mesmo das Epístolas, onde conteúdo e forma são um corpo todo inspirado e inspirador pelo fôlego do Espírito Santo.

Perante as Sagradas Escrituras, afinal perante a sua totalidade, quem deve ficar em reverente silêncio é o Homem, e se deve falar é para interrogar como o carcereiro de Filipos, porque a Palavra de Deus é que nos questiona, nos desnuda, nos aponta o Caminho.



João Tomaz Parreira

Quanto mais alto for o preço, melhor guardamos o tesouro.


Quanto mais alto for o preço, melhor guardamos o tesouro.


Quanto mais nos custar a lição, melhor a guardamos e gravamos na alma.
Temos a tendência para ignorar, desprezar e nos desfazermos das coisas baratas ou gratuitas.
Valorizamos pouco o que nos é dado.
Valorizamos pouco o que nos custa pouco e o que não nos custa nada.
Isto também acontece com a salvação, as bençãos de todos os dias, a graça de Deus, o amor dos outros ou o seu serviço.
Se não amarmos os irmãos a quem vemos, como amaremos a Deus, a quem não vemos?
Ensinam-nos a Bíblia.
Nós esquecemos.
Ensinam-nos as verdades da Palavra de Deus.
Nós trocamo-las por mentiras.
Duvidamos.
Questionamos.
Não valorizamos a verdade:
"E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará".
No dia em que aprendermos sozinhos, jamais esqueceremos.
Tenho versículos gravados a fogo no meu coração e na minha vida.
Não os esqueço. Sei o que significam.
Sei quanto valem.
Sei como são preciosos.
Sei o poder que têm, a vida que contêm, porque os descobri, apliquei - e muitos deles foram bálsamo, remédio, cura, âncora, ânimo, razão e motivação para continuar.
Foram consolação, ímpeto, coragem, corecção, alimento, água, frescura, colunas, traves-mestras.
Temos de amar a verdade com o coração todo.
Descobri-la, aprendê-la, prová-la, aplicá-la deixar que nos transforme - e então poderemos recomendá-la aos outros.
Também é assim relativamente a Deus, o Pai.
As pessoas que amamos, não as esquecemos.
As pessoas que fazem parte da nossa vida, nós não neglicenciamos.
Mas esquecemos os amigos de ocasião.
Esquecemos as pessoas com quem raramente falamos.
Falar estabelece uma relação íntima importante.
Falar é estar junto: alguém fala, alguém escuta; alguém abre o coração, alguém entra; alguém partilha, alguém recebe; alguém divide e assim se mutiplica a benção.

Amado Senhor, obrigada pelas lições a sós, quando só Tu me ensinas e só Tu me guias no processo de aprendizagem.


"Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus."

I Coríntios 6:20

(http://amorfraternal.blogspot.com/2007_06_01_archive.html)

Humildade



A verdadeira humildade é firme, segura, sóbria e jamais compartilha com a hipocrisia ou com a pieguice.

A humildade é a mais nobre de todas as virtudes, pois somente ela predispõe o seu portador à sabedoria real.

O contrário de humildade é orgulho, porque o orgulhoso nega tudo o que a humildade defende.

O orgulhoso é soberbo, julga-se superior e esconde-se por trás da falsa humildade ou da tola vaidade.

Alguns exemplos talvez tornem mas claras as nossas reflexões.

Quando uma pessoa humilde comete um erro, diz "eu falhei", pois sua intenção é de aprender, de crescer.

Mas quando uma pessoa orgulhosa comete um erro, diz: "a culpa não foi minha", porque se acha acima de qualquer suspeita.

A pessoa humilde enfrenta qualquer dificuldade e sempre vence os problemas.

A pessoa orgulhosa dá desculpas, mas não dá conta das suas obrigações e pendências.

Uma pessoa humildade compromete-se e realiza.

Uma pessoa orgulhosa acha-se perfeita.

A pessoa humilde diz: "eu até posso ser bom, porém não tão bom quando gostaria de ser".

A pessoa humilde respeita aqueles que lhe são superiores e trata de aprender algo com todos.


A orgulhosa resiste àqueles que lhe são superiores e trata de pôr-lhes defeitos.

O humilde sempre faz algo mais, além da sua obrigação.

O orgulhoso não colabora e sempre diz: "eu faço o meu trabalho".

Uma pessoa humilde diz: "deve haver uma maneira melhor para fazer isto, e eu vou descobrir".

A pessoa orgulhosa afirma: "sempre fiz assim e não vou mudar meu estilo".

A pessoa orgulhosa não aceita críticas, a humildade está sempre disposta a ouvir todas as opiniões e a reter as melhores.

Quem é humilde cresce sempre, quem é orgulhoso fica estagnado, iludido na falsa posição de superioridade.

O orgulhoso se diz cético, por achar que não pode haver nada no universo que ele desconheça, o humilde reverencia o criador todos os dias porque sabe que há muitas verdades que ainda desconhece.

Uma pessoa humildade defende as idéias que julga nobres, sem se importar de quem elas venham.

A pessoa orgulhosa defende sempre suas idéias, não porque acredite nelas, mas porque são suas.


Como se pode perceber, o orgulho é grilhão que impede a evolução das criaturas.

A humildade é a chave que abre as portas da perfeição.

Pense nisso!

Você tem humildade?

Aí está uma pergunta de difícil resposta, já que a humildade não pode ser aparente nem fingida.

Ela existe ou não existe.

A humildade não é a negação pura e simples de dons, capacitação e virtudes pessoais.

Pelo contrário, é o reconhecimento de que estes dons, capacitação e virtudes vêm de Deus.

Se eles existem em nós, é somente porque Deus existe antes de tudo e quis presentear-nos com eles.

É o reconhecimento também de que, junto com estes dons, todos temos fraquezas, latentes ou não, das quais nunca poderemos nos orgulhar.

Não há como negar: a humildade é uma das virtudes mais raras e difíceis, possível apenas com o auxílio do próprio Deus e pela zelosa imitação da humildade de Jesus.

Com carinho e amizade
Flor


Fonte
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