quinta-feira, 13 de março de 2008

A escrava egípcia


A escrava egípcia

Eu sei que não devia ter agido daquela forma.
Sei que falhei.
Mas eu estava farta. Farta e cansada de ser olhada por todos como uma mera serviçal.
- É somente uma escrava, coitada – eu ficava tão arreliada quando ouvia este comentário…
Esqueceram-se todos de que sob a aparência da escrava egípcia, estava a mulher.
Uma mulher que vive, que sente e que sonha…
Obviamente que sendo eu mulher e escrava não tinha direito a quaisquer regalias. E sonhar estava fora de questão.
Tenho plena consciência do meu papel de mulher na sociedade. Enganam-se aqueles que pensam o contrário. Todas as mulheres devem primeiramente obediência e submissão ao poder paternal e posteriormente ao marido. Mas uma mulher que é escrava e estrangeira deve obediência e submissão a todo o mundo.
Nasci predestinada a servir. Foi unicamente para isso que a minha mãe me gerou.
Ainda assim e apesar de não gostar da minha condição de escrava, fui dedicada à minha senhora, dispondo-me a fazer-lhe todas as vontades.
Com o decorrer dos anos ganhei-lhe afeição e agradava-me até surpreende-la. Encantava-me ver o seu sorriso quando de surpresa lhe confeccionava o seu prato favorito, ou lhe levava “olesh” pela manhã! A sua flor preferida.
O meu salário era o seu sorriso. Esta pequena manifestação de gratidão adoçava-me vida.
Mas com o passar dos anos, o meu salário cessou.
A tristeza fez morada no semblante dos meus senhores.
Tardava em chegar a promessa que Deus fizera a Abrão. Sua esposa Sarai envelhecia e o seu ventre não gerava vida.
Cansada então de esperar, resolveu ela por si mesma dar a Abrão o filho que ele tanto ansiava.
Deu entrada então uma nova Primavera. Entrou envolta num manto colorido e perfumado pelas mais doces fragrâncias. Os campos que circundavam o acampamento pareciam imensas tapeçarias bordadas com mil cores. Na beleza daquele tema floral, destacava-se o “olesh”.
Levantei-me pela manhã mais cedo do que o habitual. Como o jardim dos meus senhores permanecia árido, presenteei-os com uma nova decoração.
No intuito de os alegrar, levei a Primavera para dentro de portas.
Mas Sarai nem sorriu, não reparou.
Despertou naquele dia com um ar profundamente abatido. Parecia ter passado a noite em claro.
E a avaliar pela ordem que me deu, verifiquei que estava certa. Na tentativa de arranjar uma solução, Sarai tinha tomado uma decisão. Uma decisão que não era nada fácil.
Resolvida a não esperar mais pelo cumprimento da promessa, ordenou-me que nessa mesma noite me entregasse a meu senhor Abrão.
Confesso que fiquei tão estupefacta com aquela ordem, que deixei cair por terra o jarro que transportava nas mãos. Fiquei atónita.
Mas depois de reflectir um pouco, entendi as suas razões. A verdade é que a incredulidade de Sarai fazia sentido.
Abrão tinha agora 85 anos. E Sarai não sendo muito mais nova, tinha uma agravante. A madre, a madre estava fechada e havia muito tempo que as suas regras lhe tinham cessado.
À Sarai levaram-lhe os anos a força da sua juventude e os ventos arrancaram-lhe do coração a esperança de ser mãe.
Seria então eu a progenitora da descendência de Abrão.
Eu? A mãe do grande povo de Israel? Era inacreditável!
Analisei a situação friamente, e devo confessar que após reflectir bem sobre assunto, a ideia não me desagradou totalmente. Não me aliciava nada a ideia de ser entregue a Abrão, mas…
Era a minha oportunidade.
Finalmente iria deixar de ser olhada como uma mera serviçal.
E sem pestanejar, dei largas aos meus sonhos… e voei!
Não tardei muito em fazer a vontade aos meus senhores. De início Sarai ficou radiante e passou a tratar-me como a uma filha… a filha que nunca teve e tanto ansiava.
A realidade é que comecei a sentir-me mesmo assim, uma filha. Mas não tardou muito a tudo se alterar. Com o passar dos meses a minha barriga ganhava volume e o entusiasmo de Abrão também.
Alterou-se o brilho no olhar de Sarai.
A calma e a doçura que tanto a caracterizavam, desapareceram.
Irritava-se com a maior das facilidades, e nada mais parecia agradar-lhe.
E como se isso não bastasse, começou a impor-me restrições completamente absurdas. A primeira delas foi a exigência de me não apresentar quando meu senhor Abrão estivesse por perto.
Este exagero da sua parte, veio confirmar as suspeitas do povo. Sarai estava deveras enciumada com as atenções que seu esposo me dispensava.
O ciúme instalou-se no seu coração, e provocou um clima de tensão generalizado em todo o acampamento.
Ela não via que os seus ciúmes eram infundados. Eu não pretendia roubar-lhe o amor de Abrão, seria inútil fazê-lo, eu bem sabia o quanto eles se amavam. Eu só pretendia um pouco de prestígio, só isso, nada mais. Mas os ciúmes cegaram-lhe o entendimento.
As suas atitudes causaram-me uma imensa revolta. Ela só pensava nela e isso não era justo. Mais uma vez eu desempenhava o papel de uma mera serviçal, eu era apenas um utensílio, o transporte de um filho.
No meu ventre crescia o primogénito de Abrão, e no meu coração a revolta.
Houve mudança na fase lunar. Era o anúncio da chegada de Ismael.
Era saudável e muito lindo o meu menino…
Naturalmente que sendo criado por duas mães zelosas e sendo Abrão um pai extremoso, Ismael tornou-se uma criança mimada e insolente.
Gostava de receber todas as atenções e de ser elogiado em tudo o que fazia.
Abrão sempre lhe dizia:
- Ismael meu filho, deves dar graças a Deus pela força e sabedoria que Ele te dá. – Mas logo ele o contrariava dizendo:
- Fui eu que me esforcei, e treinei durante horas. Não tenho pois que agradecer a ninguém…
Estas palavras magoavam o coração do seu pai, e confesso que nem eu gostava de as ouvir.
Cedo me apercebi que a revolta que em mim germinava, durante os meses de gestação foram absorvidos por Ismael.
Fazia agora parte do seu carácter e quanto mais o repreendíamos, mais ele se rebelava.
Pouco tempo depois dele fazer 14 anos, Sara concebeu. A promessa de Deus chegava finalmente.
A notícia correu veloz e foi motivo de júbilo e de riso no acampamento.
Numa mulher da sua idade o acto de dar a luz, era algo sobrenatural.
Somente o Deus de Abraão poderia fazer tamanho milagre. E fez!
Ao contrário de todos, não me alegrei nada com a notícia.
Após o nascimento Ismael, voltei a ser tratada como serva e a executar as minhas tarefas de sempre. Além disso a chegada desta criança, iria desviar as atenções do meu filho. Sara era a esposa legítima de Abraão, como tal o seu filho iria com toda a certeza ser o seu preferido.
Dizia-mo a minha intuição, e estava certa.
Esperou Abraão 100 anos para ver o rosto cândido daquela pequenina criatura. No seu semblante transparecia a doçura de Sara e a quietude de Abraão. Era impossível não ama-lo logo na primeira mirada.
O contraste entre ambos os irmãos saltava aos olhos do acampamento.
De um lado a candura, do outro a arrogância.
Piorando a situação, e apercebendo-se Ismael que as atenções de Abraão se centralizavam em Isaque, começou a humilhá-lo.
Implicava com ele constantemente, fazendo-lhe as maiores travessuras.
Eu não concordava com os suas atitudes, mas acabei tornando-me conivente, dado que nem sempre o repreendia. Só o fazia quando Sara ou Abraão estavam presentes.
Eu não gostava de Isaque. O meu Ismael era o primogénito de Abraão e ninguém parecia lembrar-se mais disso.
Claro que a criança era adorável e não tinha culpa, mas veio desviar as atenções, e tirar a herança que só ao meu filho pertenciam. Apesar de não me agradar, era eu quem tinha que tomar conta do pequeno todos os dias. Já não me bastavam as tarefas normais, e cuidar do meu filho. Tinha agora que andar também a correr atrás do filho de Sara.
Um dia porém as coisas alteraram-se.
Inadvertidamente condicionei o meu futuro e o de Ismael.
Lavava eu umas peças de roupa junto ao rio Jordão, quando o pequeno Isaque se meteu na água. De início chamei por ele, alertando-o do perigo mas depois… calei-me.
Confesso que não sei o que me deu, nem o que me passou pela cabeça para agir tão erradamente. Apesar de não gostar do menino não o odiava, nem lhe desejava nenhum mal, mas naquele momento, só pensei em Ismael.
Se Isaque não existisse tudo seria diferente…
Abstraí-me por completo com aqueles pensamentos. Enquanto isso, o menino entrava mais pelo rio a dentro, até que começou a perder pé. Sara surpreendeu-me naquele instante com a sua presença.
- Isaque, Isaque – gritou ela enquanto o resgatava.
De súbito, tentei arranjar uma desculpa. Mas o que podia eu inventar?
Foi tudo muito óbvio para Sara. Ela teve a confirmação, de que eu não nutria nenhum afecto, por aquela criança.
E sabia bem a razão desse desamor.
Depois de todas as tropelias que Ismael fez com Isaque e daquele meu acto irreflectido, o meu destino ficou marcado.
Sara foi contar tudo a Abraão. E eu fui de imediato chamada à presença de ambos.
Na mesma hora os meus serviços foram dispensados.
Como castigo, seria expulsa do acampamento juntamente com o meu filho.
Não podia ser!
Chorei amargamente ao ouvir aquela sentença… eu estava arrependida. Deus sabe que sim. Não foi minha intenção fazer mal a Isaque, não sei o que me passou pela mente. Tentei explicar-lhes isso, consciente de que tinha de pagar um alto preço pelo meu erro. Supliquei-lhes não por mim, mas por Ismael. O meu filho estava inocente.
- Meu senhor, tende compaixão de Ismael, ele é apenas uma criança, e é vosso filho – gritei eu desesperada enquanto me prostrava em prantos aos seus pés.
- Lançai-me só a mim fora do acampamento. Por favor, rogo-vos!
- Ismael é portador dos mesmos sentimentos malignos que tu. O vosso coração está cheio de ódio e rancor por Isaque. Não podeis ficar nem mais um dia no acampamento – decretou-me severamente Abraão.
- Parti e levai convosco um pedaço de pão e um odre de água – ordenou-me friamente.
Aquela posição do meu senhor deixou a minha alma profundamente amargurada. Como sobreviveria eu e o meu filho em pleno deserto apenas com um pedaço de pão e um odre de água?
Com o olhar completamente nublado, fitei-os pela última vez. Não encontrei neles a bondade que os caracterizava. Retirei-me dali com profundo pesar…
Eu que queria apenas ser olhada como uma mulher que vive, que sente e que sonha, acabava agora de ser escorraçada como um animal peçonhento. Tanto eu, como o meu filho Ismael saíamos de Canaã sem nenhum prestígio.
Mas uma dor maior que aquela aguardava-me no deserto de Bersabéia.
Durante a caminhada Ismael reclamou contra seu pai Abraão, por nos ter expulso do acampamento. Tentei sem sucesso fazê-lo entender que a culpa era somente minha.
Eu tinha sido irresponsável, e a minha atitude irreflectida poderia ter causado a morte do pequeno Isaque. Foi isso que nos conduziu aquela situação. Mas o meu filho não me ouviu.
Acabou entretanto o pão e a água, e Ismael começou a desfalecer.
Que injustiça meu Deus! Tudo por minha culpa.
Eu olhava agora para um jovenzinho inanimado.
O brilho dos seus olhos apagava-se, a bravura dos seus gestos esvaía-se e dos seus lábios secos e gretados, quase não saía som.
O meu Ismael morria pouco a pouco na minha frente.
Uma sensação horrível de impotência apoderou-se do o meu coração de mãe.
Não tive coragem para vê-lo morrer.
Com o coração totalmente desfeito, rastejei pelas areias escaldantes do deserto de Bersabéia e afastei-me fisicamente dele. Eu, a serva egípcia de Sara, e concubina de Abraão, morri no momento da expulsão do acampamento. Mas era naquele areal escaldante que os nossos corpos ficariam, mortos sem sepultura.
Prostrada, atormentada e no limiar das minhas forças, clamei ao Deus de Abraão.
Só Ele poderia salvar-me. A mim e a meu filho.
Contudo, Deus foi misericordioso e compadeceu-se desta mulher miserável. Enviou até mim um anjo que me abriu os olhos, e me fez ver um poço com águas frescas.
Oh que bênção tremenda… Desatei a rir e a chorar ao mesmo tempo como se tivesse enlouquecido. Um poço no meio do deserto!
- Que Deus maravilhoso é o meu Deus! – Exclamei jubilosa
Ergui-me do solo num impulso, enchi o odre, e corri até Ismael para lhe dar a beber daquela água.
Aos poucos começou a recobrar os sentidos e voltou a ele.
Mas Senhor na sua infinita graça e misericórdia tinha algo mais para nós.
O Deus de Abraão e de Isaque deu-nos a promessa que de Ismael sairia uma nação numerosa.
Nessa hora saiu de cima de mim o peso da revolta, desapareceu também o azedume do meu coração.
Era agora uma mulher duplamente livre, porque tinha nascido de novo.
Ismael seria para sempre chamado o pai de uma nação valente.
Acalentando um novo sentimento no meu peito, dei largas aos meus sonhos e voei nas promessas do Deus de Israel!

Florbela Ribeiro A. S.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Por um fio


POR UM FIO

Submersa num revolto mar de silêncios, permanecia a fatídica onda que a lançou naquela vida. Com os olhares do povo cravados nas costas, deslizava pelas ruas da cidade de Jericó com o rosto escondido por uma burka negra. Todos sabiam quem ela era, e principalmente o que fazia.
Durante muito tempo agonizou, pela facada traiçoeira do destino. Chorou amargamente a dor do infortúnio que arrombara a sua porta, lançando-a na lama juntamente com o nome do seu pai. Mas toda a família permanecia unida, sofrendo com ela e por ela.
Ao contrário da sua inocência, os laços do amor que os unia, mantinham-se intactos.
- Minha filha, que adianta passares o resto da tua vida aqui a chorar? Não foi já o leite derramado? – Sua mãe tentava, desesperadamente, faze-la reagir, ao mesmo tempo que lhe ocultava o coração desfeito pela dor.
A sua menina não morrera por um fio, tamanho fora o desgosto que se abatera sobre a sua alma.
Siza, sua mãe tinha razão. O mal já havia sido feito. Era agora a hora de levantar a cabeça e seguir em frente.
Para isso ela precisava de se despojar do passado, e entrega-lo nas mãos de Deus.
Resolveu então esperar pela justiça Divina, e afastou do seu coração o desejo de vingança.
A justiça de Deus poderia tardar, mas falhar nunca!
Essa certeza morava no seu peito e dava-lhe alento para seguir em frente.
Uma força impulsionadora, mas desconhecida não lhe permitia baixar os braços.
Os dados da vida estavam agora lançados.
Chegava a sua vez de jogar, e fazia-se necessário encontrar alternativas, para sair vitoriosa. Ela e toda a família, com ela!
E era precisamente isso que procurava nas saídas fugazes que fazia pela cidade. Alternativas em jeito de notícias!
Por debaixo do manto negro que a envolvia, os seus cinco sentidos estavam em alerta máxima, captando toda a informação possível e inimaginável.
Depois… bem depois necessitava gerir cada informação, e recolher dela o melhor proveito.
Mas a máscara da honra e da respeitabilidade que a sociedade hipocritamente colocava, obrigava Raabe a viver em 24 horas, duas realidades completamente antagónicas.
O dia cravava-lhe na carne o ódio de muitos e o desprezo de quase todos.
A noite trazia com ela a envolvência dos abraços amantes. Onde o amor de alguns, o carinho de outros e a admiração de quase todos, lhe davam coragem, para superar as dores da sua existência. Desenganem-se aqueles que pensam que a sua vida era fácil, porque não o era de todo! No seu coração cravado de cicatrizes, habitava ainda a inocência do amor, que a onda maldita não conseguiu matar. E essa inocência não coabitava pacificamente no seu corpo. Essa luta diária, essa repulsa que sentia por ela mesma causava-lhe imensas dores. Durante os 13 meses do ano, Raabe padecia.
Havia no entanto um factor curioso, uma ironia do destino…
Raabe, a prostituta da cidade de Jericó conhecia, com rigor, a grande maioria dos seus habitantes.
Afinal, todos os que se passeavam deleitosamente nos seus braços, eram subtilmente aliciados, a confessar-lhe as informações que possuíam e sabiam.
Fosse o que fosse, e sobre quem fosse.
Raabe era uma mulher inteligente, e apesar das agruras da vida, ela soube preservar a serenidade e a meiguice que a todos encantava.
A calmaria do seu olhar aliado à ternura da sua voz, apaziguava inúmeras vezes o génio que levavam ao entrar. Os seus amantes viam nela uma confidente e uma conselheira.
Ela sabia sempre quando deveria escutar ou falar.
Eram no entanto mais as vezes que ouvia atentamente do que se pronunciava. E isso agradava-lhes, e assim, com facilidade ganhou não só a confiança, mas também o seu respeito.
Obter informações era fácil para Raabe.
A ela todas as notícias interessavam, se não precisasse delas naquele momento, guardava-as para mais tarde.
- Eu não sei quando, mas eu sinto que um dia – confessou ela certa vez a sua mãe – vou saber algo que nos vai tirar a todos deste infortúnio.
- Eu sei minha filha, eu sei – assentiu a sua mãe, que apesar de não ter a mesma esperança, não quis apagar o brilho intenso que faiscava dos olhos da sua menina.
Para Siza, Raabe continuava a ser a menina alegre e inocente de outrora.
Era o seu coração de mãe que lho dizia e não se enganava.
Corria já pela cidade a notícias de um povo protegido por um Deus capaz de grandes maravilhas. As chefias do povo comentavam isto em surdina, mas era visível que tais novas não agoiravam nada de bom.
E apesar dos cuidados tomados, as novas espalhavam-se com a mesma facilidade que a poeira se erguia dos caminhos, causando um pasmo generalizado.
Raabe escuta e guardava em si estas informações.
O general Aczibe visitava Raabe com relativa frequência. Era um homem por natureza alegre, bem disposto e muito optimista.
Raabe sempre o recebia com agrado. Os serões na companhia do general eram sempre agradáveis. Mas o que realmente a fascinava, era a frescura das novidades que ele lhe levava. Naquele dia porém o general estava diferente. A sua expressão estava demasiado carregada. Era a primeira vez que Raabe o via de semblante caído.
Mas ela sabia o que o estava a preocupar. Tinha ouvido rumores na cidade naquela tarde.
- Que Deus será este, capaz de abrir as águas do Mar Vermelho diante do seu povo, após tê-lo liberto da opressão de Faraó? – Perguntou-lhe ela para quebrar o silêncio que se instalara no quarto.
- Não sei Raabe mas é certamente um Deus muito poderoso. Hoje soubemos que o Rei Ogue e o Rei Siom caíram nas suas mãos.
- Não?! – Exclamou ela com o rosto assombrado.
- Foram totalmente destruídos – confirmou o general – Que povo é esse afinal? Até há pouco tempo eram apenas escravos do Egipto, e agora…
- Deve ser um povo eleito, para ter um Deus que peleja por eles – atreveu-se Raabe a dizer.
- O Capitão já mandou reforçar a vigilância envolta dos muros de toda a cidade. A informação que temos é que eles se dirigem para cá!
Raabe escutava atenta.
- Aconselho-te a teres cuidado Raabe, morando tu sobre o muro da cidade, é natural que sejas visitada. Não abras pois a porta a nenhum estrangeiro. Se o fizeres pões em risco não só a tua vida mas a de toda a tua família – ordenou-lhe Aczibe.
- Não fiqueis inquieto meu general. Farei tudo como me ordenais – disse Raabe de forma terna mas submissa.
Ele tinha por ela um extremo carinho e dadas as notícias, estava visivelmente preocupado com a sua segurança. Viviam-se na cidade momentos de grande tensão.
No entanto a sensibilidade de Raabe interceptava outra informação.
Os seus cinco sentidos captavam o prenúncio de que algo estava para acontecer.

Algo de bom, muito bom. O oposto do que o general lhe dizia.
No peito, o coração de Raabe ardia com intensidade.
Por tudo isso permaneceu em silêncio.
Pouco tempo depois do general sair, bateram-lhe à porta. Era já tarde, o que fez com que Raabe hesitasse em abrir.
- Pode ser novamente o general – Pensou ela em voz alta enquanto se dirigia para a entrada – talvez se tenha esquecido de algo.
Mas não era o general Aczibe.
Eram dois mancebos e pela fisionomia rapidamente constatou que eram estrangeiros.
Raabe nunca os tinha visto na cidade. Mas havia algo nos seus semblantes que lhe inspirou confiança. O olhar deles era franco e honesto. Não vinham à procura dos seus serviços, quanto a isso estava segura.
Sem pronunciarem uma só palavra, entraram na casa da Raabe, a meretriz.
Subitamente lembrou-se das palavras do general.
- Serão estes mancebos os espias de que Aczibe falara? – Pensou.
Eram-no de facto. Aqueles dois mancebos eram espias do povo israelita, do povo de quem tanto se falava ultimamente na cidade.
O povo elegido por Deus e pelo qual Ele pelejava.
Aquele calor que lhe ardia no seu peito permanecia, transmitindo-lhe uma sensação de bem-estar, para a qual ela não tinha explicação.
Sabendo ela que a segurança em volta dos muros da cidade tinha sido reforçada, previu que a chegada destes dois homens não tivesse passado despercebida. E estava certa.
Encaminhou-os de seguida para o telhado, alinhou as canas de linho e ali os escondeu.
Novamente bateram à porta. Era agora um emissário do Rei que se fazia acompanhar por vários soldados.
- Ao Rei chegaram notícias que recebeste em tua casa dois homens. Fá-los sair de imediato porque vieram aqui com a missão de espiar toda a terra – falou o emissário.
- É verdade que vieram a mim dois homens, mas eu não sabia de onde eram. Porém ainda pelo escuro se foram. Ide após deles depressa, porque vós os alcançareis!
Sem perderem tempo, afastaram-se dali velozmente, iniciando as buscas.
Raabe fechou a porta e respirou de alívio. Fora convincente. Contudo manteve-se atenta aos movimentos da rua, certificando-se que tinham realmente partido.
Sentia-se um pouco ansiosa. Antes que os dois homens adormecessem, subiu ao telhado para lhes falar.
- Sabeis vós porque motivo estamos aqui? – Antes que ela fizesse alguma pergunta, disparou-lhe um dos mancebos.
Ela acenou afirmativamente.
- Perdoai-me por interromper o vosso descanso – disse – Bem sei que o Senhor vos deu esta terra, e que o pavor de vós caiu sobre nós, e que todos os moradores da terra se derretem diante de vós. Temos ouvido que o Senhor secou as águas do Mar Vermelho, quando saíste do Egipto. Também o que fizestes aos dois reis dos amorreus, Siom e Ogue, que estavam além do Jordão, os quais destruístes totalmente.
- Estais bem informada – disse um deles.
- Sim, é verdade. Quando a notícia chegou a Jericó, os nossos corações se derreteram, e em ninguém mais há animo algum, por causa da vossa presença; porque o Senhor vosso Deus é Deus em cima no céu e em baixo na terra.
- É verdade mulher. Credes vós num Deus assim? – A pergunta foi directa e frontal.
- Creio sim, de todo o meu coração – respondeu Raabe visivelmente emocionada – agora pois, jurai-me, peço-vos pelo Senhor, pois que vos fiz beneficência, que vós também fareis beneficência à casa de meu pai.
- Dai-me pois um sinal certo, de que dareis a vida de meus pais e irmãos, com tudo o que têm, e de que livrareis as nossas vidas da morte.
Eles então responderam-lhe:
- Seja como dizes. A nossa vida responderá pela vossa, se não denunciardes este nosso negócio. E quando o Senhor nos entregar esta terra, usaremos para contigo de bondade e fidelidade.
O olhar de Raabe ganhou um novo brilho, quando ouviu estas palavras.
Pela primeira vez o facto de ser meretriz não trouxe impedimentos.
Aproximava-se então o raiar de um novo dia.
Por precaução, fê-los descer pela janela, usando uma corda e recomendou-lhes que se escondessem por três dias no monte. Aí deveriam aguardar que os perseguidores desistissem da busca. Passado esse tempo, eles poderiam seguir o seu caminho.
Eles assentiram, mas antes disseram-lhe:
- Eis que quando nós entrarmos na terra, atarás este cordão de fio escarlata à janela pela qual nos fazes descer. Recolherás em tua casa, teu pai, tua mãe, teus irmãos e toda a família de teu pai. Se assim não fizeres, nós seremos inocentes no tocante a este juramento, que nos fizeste jurar.
- Conforme as vossas palavras, assim seja – respondeu Raabe.
Despediu-se deles e atou o cordão de escarlata à janela.
O dia começava a despontar no horizonte e Raabe sentia-se exausta mas ao mesmo tempo feliz. Sem levar o corpo ao descanso, apressou-se em ir à casa do seu pai. Tinha que ser ligeira e levar as boas novas. Havia muitas coisas para tratar e o tempo escasseava. A notícia foi recebida por toda a família com assombro, pois o caso não era para menos.
Como seria possível, precisamente na hora em que sobre a cidade de Jericó pairava a ameaça de uma guerra, eles receberem libertação?
Humanamente era difícil acreditar, mas Raabe recordou-lhes as maravilhas que antes ouviram. A forma como Deus tinha resgatado o povo israelita do Egipto, não deixava dúvidas. Após se recomporem do choque que a notícia lhes causou, partiram, refugiando-se em casa de Raabe.
Nos olhares expectantes, pairava a ansiedade. Viviam uma mistura de sentimentos inigualáveis. Os seus corações estavam inundados da mais pura felicidade pela graça que Deus lhes concedia, mas… E os amigos e vizinhos por quem nutriam tanta estima? O que lhes iria suceder? Os mesmos corações choravam por eles.
Depositaram toda a fé no Deus de Israel, e pacientemente aguardaram pela libertação.
Eis que de repente se ouviu na cidade um tremendo estrondo. Tudo estremeceu. O muro de Jericó acabara de ruir e uma onda destruidora varria agora a cidade. A aflição dos moradores, era sentida com profundo pesar dentro da casa de Raabe.
De súbito alguém gritou:
- Raabe, abre, somos nós, os mancebos que recebeste naquela noite – o pedido em forma de grito era urgente.
Apressadamente abriu-lhes a porta e toda a gente da casa foi levada para o exterior da cidade juntamente com os seus pertences. Durante a marcha da retirada puderam ver que o cenário de guerra acampara ali. Raabe fechou os olhos por mais que uma vez, tal era a dimensão do sofrimento que via! Por fim, a noite abateu-se sobre o que fora a cidade de Jericó. No céu, a Lua Cheia querendo ser testemunha fiel do sucedido, brilhava com intensidade sobre os escombros. Do alto do monte os rostos banhados por lágrimas observavam o fumo que subia de Jericó. A cidade estava irreconhecível.
- Por um fio te livrou o Senhor duas vezes – disse Siza enquanto envolvia com ternura Raabe num abraço.
- A justiça de Deus pode tardar minha mãe, mas falhar nunca! -
Na envolvência daquele gesto de amor, e por entre lágrimas e soluços renascia agora uma nova mulher.

Florbela Ribeiro A. S.