quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Mulher com cântaro


MULHER COM CÂNTARO
*
*
para a Florbela
*
*

Para onde vai essa mulher com o sol
dentro do cântaro
sobre os cabelos, o silêncio
vão devagar
as sandálias, devagar
os pensamentos
em cinza a cor rósea
dos pés, o poço
espera desde o fundo
das águas ancestrais
Para onde
vai essa mulher?
Com amor avança
abrindo no ar
os raios solares.

© J.T.Parreira


**
O meu especial agradecimento, ao Irmão João T. Parreira, pelo facto de me ter presenteado com este belíssimo poema.

Obrigada Mestre!

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Um prodígio em Naim


REPORTAGEM: UM PRODÍGIO EM NAIM

«Dava tudo para estar ali, no lugar do meu filho» – murmurava a pobre mãe. E a direcção do seu olhar apontava para o esquife, que seguia à sua frente.

Depois dos olhos cheios de lágrimas e da boca cheia de prantos, foi o que pude ouvir distintamente.

Uma grande multidão solidarizou-se com ela nesta dor, fazendo este doloroso trajecto por entre lágrimas e profundos suspiros.

A desgraça que tão abruptamente batera na porta daquela pobre viúva era em surdina comentada por todos. Ouvia os mais variados discursos, mas todos eles eram unânimes na preocupação quanto ao futuro daquela mulher.

-Coitada, não merecia… tanta desgraça…. tanto sofrimento… Como ainda se aguenta em pé?!- gritava um pequeno grupo de carpideiras, entre palavras e gritos.

- Sempre tão solícita e tão generosa, que infelicidade lhe estava por fim reservada…–Reservavam-se os homens a dizer.

-Ah Zilá, Zilá, tinhas uma família tão feliz e tão unida- diziam-lhe as vizinhas mais próximas, que se revezavam entre si, com carinhos e abraços, tentando de alguma forma suavizar a dor que, sem piedade, consumia aquela mulher.

No meio da multidão, entrei na sua pele.

O rosto desfigurado pela dor que dilacerava o coração daquela mãe, era tão evidente e tão forte, que por breves momentos entrei na sua pele… Esse sofrimento evidenciava-se claramente no seu caminhar arrastado e na sua postura curvada.

À imagem daquela dor, que fazia deslizar pelas faces de todos os presentes lágrimas de pesar, juntava-se até a natureza.

Um vento forte e gélido chicoteava duramente os rostos e as vestes de toda a multidão, manifestando desta forma solidariedade para com a viúva.

Mas a certa altura do percurso os olhares desviaram-se do ataúde. Próximo à entrada da porta da cidade de Naim, passava um homem jovem a quem uns chamavam Jesus, e outros chamavam Mestre.

Com Ele estavam –dizia-se ali- também os discípulos e, visivelmente, uma grande multidão.

Todos viram que em dada altura aquele jovem homem, que aparentava rondar os trinta anos, se moveu em direcção ao ataúde.

Eu que estava próxima, pude ver que uma íntima compaixão assomava ao rosto daquele a quem chamavam Mestre. O cortejo abrandou. Os homens que carregavam o esquife pararam a marcha.

- Não chores – disse Jesus à mulher. E aproximando-se tocou o esquife, ordenando: - Mancebo, a ti te digo: Levanta-te.

Elevaram-se por toda a multidão exclamações de espanto. O rapaz que estava morto, ergueu-se e sentando-se começou a falar. - Está vivo, ele está vivo – Gritaram todos em coros uníssonos de forma eufórica e descontrolada.

- Um grande profeta se levantou entre nós, e Deus visitou o seu povo. Mas o profeta de que falavam, só poderia ser o Filho de Deus Altíssimo, e aquela mulher, do modo como se modificara, sabia-o muito bem.

No meio de todo aquele cenário, que me parecia irreal, olhei para o rosto transformado da viúva, que chorava convulsivamente agarrada ao seu filho. Mas o seu choro era diferente. - Meu filho amado, oh meu filho – balbuciava ela entre o choro e o riso.

O rapaz, que parecia ter regressado de um passado distante, um pouco atónito, retribuía-lhe carinhos, enquanto a tentava acalmar.

Como era possível… Minutos antes, o povo desfilava em lamentos pela aflição em que se encontrava aquela mãe, e agora jubilosos anunciavam o acontecido pelas ruas. O ambiente de pesar transformou-se na maior manifestação de alegria e felicidade que alguma vez pude testemunhar, enquanto repórter social. Havia agora motivos para a vida. Só os pessimistas falavam de morte.

As crianças, que temerosamente se refugiaram em casa quando avistaram o cortejo fúnebre, saíram para as ruas. Pareciam andorinhas, cantando e saltando por entre a multidão, anunciando a chegada da Primavera.
E de certa forma era verdade.

Florbela Ribeiro A.S.

sábado, 12 de janeiro de 2008

O Hóspede


O HÓSPEDE



Aquele hóspede chamou a atenção do povoado.

Ninguém conseguiu ficar indiferente à passagem de Jesus por ali.

Os milagres e a forma eloquente dos seus discursos abriam as bocas de espanto, o que Ele fazia acontecer e dizia, corria velozmente nos lábios de todo o povo.

Mas foi Marta quem teve o privilégio de o hospedar em sua casa.

Como boa anfitriã que era não queria descurar nenhum pormenor para a melhor e mais acolhedora recepção ao Mestre.

Após a casa devidamente limpa e as coisas no seu lugar, iniciou os preparos da refeição. Seleccionou as melhores carnes, as melhores ervas aromáticas para o tempero, o melhor vinho, e é claro que não esqueceu a sobremesa. O pormenor da sobremesa era importante. Teria de ser preparada com todo o requinte e muito carinho.

Sim, porque para fazer uma boa sobremesa é indispensável um toque de carinho e muita ternura. Dir-se-á até que o doce perde o sabor se não tiver uma boa pitada de amor.

Para isso, Marta contava com a preciosa ajuda de Maria, para a elaboração de um almoço tão requintado.

Havia tanto trabalho a fazer ainda, mas… Maria não se aproximava para a ajudar.

Em vez disso mantinha-se na sala escutando os ensinos de Jesus.

A irresponsabilidade da irmã arreliava Marta, abeirou-se da porta e acenou-lhe para que esta se aproximasse. Absorta como estava aos pés das palavras do hóspede especial, Maria nem se apercebeu que a sua irmã a chamava.

Marta teve que ir ter com ela e em surdina disse-lhe:

- Maria que fazes aqui sentada aos pés de Jesus, quando há ainda tanto trabalho para fazer?

- Escuto o Mestre, minha irmã, e suas sábias palavras, que tanto falam ao meu coração – respondeu-lhe Maria.

- Ora, ora Maria deixa-te de desculpas e vem ajudar-me. Palavras que falam ao coração, pois sim – disse Marta com um ar arreliado – queres esquivar-te ao trabalho não é verdade?

Maria olhou indignada para Marta e com tristeza disse:

- Não sejas injusta para comigo Marta, sabes bem que sempre te ajudo e nunca me nego a nenhum serviço, porque haveria de o fazer hoje? Se ficasses aqui um pouco a escutar o Mestre verias como tenho razão naquilo que digo.

As duas irmãs tinham diferenças de opinião sobre o aprender e a azáfama do quotidiano, entre viver de acordo com o que se deve aprender de Jesus e o cumprir meras tarefas diárias. O que é eterno e o que tem apenas vinte e quatro horas. Isso as distinguia.

- Maria, Maria tenho imenso trabalho para fazer, e não quero atrasar-me na preparação do almoço, queres tu que o Mestre fique com má impressão nossa, vendo que somos más anfitriãs? - Disse Marta com alguma tristeza na voz.

- Porque diria o Mestre que somos más anfitriãs minha irmã? Acaso achas que o Mestre está preocupado com isso? Não estará Ele mais preocupado com o estado do teu coração e da tua alma? - Tentava Maria fazer compreender a Marta.

- Mas que tens tu hoje Maria, que ainda não me disseste nada com sentido? É claro que o Mestre espera que o sirvamos com o melhor… – E a propensão de Marta para entender as coisas do espírito, começava a ceder.

- Disseste bem minha irmã. – Interrompeu-a Maria. - Mas acredita que o melhor para o Mestre, não é o almoço que com tanta azáfama estás a preparar.

No decorrer desta pequena discussão entre ambas, Jesus ia avaliando aquilo a que cada uma dava prioridade.

Finalmente, Marta resolveu pedir auxílio ao Mestre na certeza de que Ele a ajudaria, a repreender a sua irmã. Pois já estava cansada de argumentar e não entendia porque razão não obtinha nenhum resultado.

- Marta, Marta estás afadiga e ansiosa com muitas coisas. Mas uma só é necessária: e Maria escolheu a melhor parte, a qual não lhe será tirada. - Respondeu-lhe Jesus, marcando cada palavra com a sua voz mansa, mas firme, como um favo de mel.

Marta ficou sem palavras.

Para grande surpresa sua, Jesus não só não atendeu ao seu pedido, como em vez de repreender a sua irmã, repreendeu-a a ela.

Silenciosa e pensativa, regressou aos seus afazeres.

Bailavam agora na sua mente muitas perguntas, devido ás palavras do Mestre.

-Que queria Ele dizer com “uma só é necessária”? – Pensou, pensou e só as coisas terrenas acudiam à sua mente perplexa.

Acaso o trabalho não é necessário? Se ambas permanecessem sentadas aos pés de Jesus quem faria o serviço? Eram as questões mais naturais que agora bailavam dentro das suas ideias sobre o assunto.

Maria, apercebendo-se da agitação em que se encontrava a sua irmã, dirigiu-se-lhe:

- O Mestre não censurou a tua dedicação e o teu zelo ao trabalho. O problema é que tu procuraste ser-lhe útil sem primeiro buscares compreender o que Ele deseja de ti. Minha boa irmã se a nossa alma e o nosso coração estiverem vazios do amor de Deus e do seu ensino, que proveito tiraremos nós da azafama desta vida?

Marta sorriu ao ouvi-la.



Conto baseado em Lucas 10: 38 - 42

Florbela Ribeiro A. S.

Janeiro 2008

Perante mim


Perante mim

Destemidamente mirei-me
No espelho um sorriso
Passou no meu rosto
Despertava
Encarei de frente o futuro
Renovei-me nos conceitos Divinos
Todos repletos de excelsos valores
Vasculhei minhas gavetas do passado
E perfumei-as de novo


Florbela Ribeiro A. S.